quinta-feira, 8 de agosto de 2013

A pior das ideias

Francisco Bayeu y Subías - Gloria del Espíritu Santo (1778)

Tudo quanto provém do espírito é superior ao que existe na natureza. A pior das ideias que perpasse pelo espírito de um homem, é melhor e mais elevada do que uma grandiosa produção da natureza - justamente porque essa ideia participa do espírito, porque o espiritual é superior ao natural. (Hegel, Estética)

Desligue-se a citação da generalidade da filosofia hegeliana e detenhamo-nos na superioridade da pior das ideias sobre qualquer, por grandiosa que seja, produção natural. Aqui encontramos a essência do projecto da modernidade: refazer a natureza segundo as ideias do espírito humano. Por pior que sejam essas ideias elas têm uma legitimidade que a natureza, nas suas produções espontâneas, não tem. Hegel escreve isto nos anos vinte do século XIX. Transportemos estas palavras para a experiência que nós, homens do século XXI, temos da história. De um momento para o outro, pressentimos que tudo está legitimado e justificado. As piores ideias, as mais nefastas, as mais odiosas encontram aqui a sua razão. A modernidade não é apenas a época onde o movimento, a mobilidade e a mobilização estruturam a vida dos homens. Ela é a era onde a natureza, devorada pelo espírito, deixou de ser um valor em si. A pior das ideias é melhor do que uma grandiosa produção da natureza. Talvez nesta formulação possamos encontrar a chave para o enigma dos nossos tempos.