terça-feira, 20 de agosto de 2013

A terceira opção


A Alemanha é o primeiro país europeu a admitir uma terceira opção no registo do sexo dos recém-nascidos. Antes só a Austrália e a Nova Zelândia o faziam. Os bebés cujo sexo não esteja completamente definido poderão ser registados como de sexo indefinido. Para além da perturbação jurídica e social que a nova opção introduz, o que está em jogo é o reconhecimento de uma realidade que as categorias mentais se recusavam, apesar do desenvolvimento das ciências da vida e da natureza, a registar. Há uma outra coisa, todavia, mais marcante. Trata-se de criar uma categorização jurídica e social que dê conta da imperfeição da natureza, nomeadamente da natureza da vida humana. 

Estamos longe de uma natureza perfeita. Toda ela parece ser um imenso laboratório de tentativas e erros, de ensaios mais ou menos felizes. Isto significa, também, que a natureza como modelo ideal ordenador da vida e acção humanas (que ainda hoje se pode encontrar em certos discursos de natureza ecológica) desaparece, se por natureza - e também aqui se pode inscrever o denominado direito natural - se entende algo de perfeito e acabado (seja fruto da criação divina ou do desenvolvimento das suas próprias forças e potencialidades). No entanto, a natureza ainda poderá fornecer um modelo ao homem, se for entendida agora como esse imenso laboratório de tentativas conseguidas e/ou fracassadas, essa gesta feita de erros e incongruências, mas também de resultados felizes. 

Reconhecer uma terceira opção no registo do sexo é fazer inscrever na linguagem jurídica a imperfeição da natureza e, em particular, da natureza humana. E a religião, nomeadamente os monoteísmos, como poderão lidar com a ideia de uma criação imperfeita, e de uma natureza que tacteia e que se engana, com a ideia de um terceiro sexo? Não serão eles atingidos definitivamente por este reconhecimento jurídico de uma terceira possibilidade, nem masculina nem feminina? Talvez a resposta esteja no primeiro capítulo do Génesis. Em cada acto da criação, Deus reconhece que o resultado desse acto é bom, mas não que é perfeito, acabado.