quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Mário de Carvalho, A Sala Magenta


O romance de Mário de Carvalho, editado em 2008, é o retrato cruel de uma impotência. Não apenas a do protagonista, Gustavo Miguel Dias, mas de uma geração de intelectuais boémios, tendencialmente de esquerda, que vivem de ilusões e de uma suposta, e nunca comprovada, genialidade. O romance não trata de uma queda, da transição de uma inocência originária para a situação degradada e decaída, embora não deixe de figurar, na personagem da irmã de Gustavo, uma reminiscência desse tempo anterior à queda. A narrativa instala-se, de imediato, no mundo fora do paraíso (este paraíso é, claro, o da infância onde tudo parece estar em aberto), e Gustavo Dias narra, rememorativamente e durante a convalescença dos maus tratos físicos que lhe foram infligidos durante um assalto, a sua vida decaída e impotente.

A narrativa é pontuada pela relação do protagonista com duas mulheres essenciais na sua vida. A irmã, Marta, e a amante, Maria Alfreda. Na primeira ecoa, ainda, um sinal de uma vida não decaída, uma espécie de recordação de um mundo de possibilidades que ele nunca chegou a realizar. Na segunda, espelha-se, de forma fria e cortante, a sua derrota e a natureza inútil de uma existência desperdiçada em coisa nenhuma, na boémia lisboeta, nas amantes ocasionais, nas heranças destruídas, nos filmes, poucos, que ninguém vê, num talento inexistente ou que nunca recebeu o duro trabalho necessário para o fazer florescer, num amor que nunca encontrou reciprocidade.

Mário de Carvalho, com a personagem de Gustavo Miguel Dias, retrata toda uma intelectualidade cuja vida criativa parece instalar-se nos anos de democracia, uma intelectualidade cuja legitimidade não deriva do reconhecimento do público mas de uma presunção própria. Se a personagem é cineasta, facilmente se poderia transportar para todas as outras áreas da criação artística. O que é desmontado, neste romance, é um mito que associa a criação e a boémia, tornando patente que o acto criativo não se compadece com a falta de trabalho e a exigência de rigor. Talvez um boémio possa dar uma personagem interessante, mas dificilmente dará um artista, no caso, um realizador.

A chave para compreender Gustavo Miguel Dias pode ser encontrada na forma como ele se relaciona com a irmã, Marta, e com Maria Alfreda. Marta, uma académica aposentada, recolhe-o, após o assalto, e cuida dele. Desde sempre que Gustavo trata a irmã com sobranceria e ostenta perante ela uma superioridade intelectual, que nada no percurso de ambos sustenta, a não ser a sua presunção. Superioridade que ele sabe ser falsa, mas que nunca, perante ela, o reconhecerá. Mas é esta irmã que, no naufrágio em que se tornou a vida do realizador, o trata e protege. Ela representa um mundo mais autêntico, o mundo originário da infância e, pelo seu percurso de vida, o mundo do esforço e da superação de obstáculos. Tudo aquilo que Gustavo rejeitou durante a vida.

Maria Alfreda é o grande amor de Gustavo, mas um amor não correspondido. Tornaram-se amantes e os encontros na sala magenta obsidiaram a vida do realizador. Não existia, porém, reciprocidade na relação. Gustavo fora preso nas armadilhas do amor, mas Maria Alfreda tinha da relação uma perspectiva meramente instrumental. Isso dava-lhe superioridade nos conflitos entre ambos e traçava um caminho de dor e de humilhação para ele. Ela era inteiramente livre e via-o como descartável. Ele era dependente e submisso a uma força que não controlava. Maria Alfreda simboliza a vida que Gustavo nunca consegue submeter ou sequer organizar, segundo os seus próprios fins.

A derrota existencial de Gustavo, que culmina com uma tentativa de suicídio - a sua impotência chega aí, à incapacidade de pôr fim à vida -, emerge então da recusa da autenticidade, figurada em Marta, e na aceitação do estatuto de coisa que resulta da submissão aos caprichos de Maria Alfreda. Entre a fuga à sua própria verdade e a existência decaída de uma boémia egoísta e coisificada, é toda uma geração de falsos artistas e intelectuais, tendencialmente de esquerda (aquilo a que se chamará esquerda caviar), que é retratada por Mário de Carvalho. Mas o retrato depressivo de Gustavo não é apenas o do grupo social a que pertence. Na verdade, são as elites e o país que são apreendidos naquilo que possuem de manifestamente depressivo, ilusório e impotente.

Mário de Carvalho (2008). A Sala Magenta. Editorial Caminho.