segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Meditações Taoistas (19)

Viktor Vasnetsov - Os quatro cavaleiros do Apocalipse (1887)

Quer-se a decadência:
É preciso, primeiro, fazer florescer.
Lao Tse, Tao Te King, XXXVI

Os quatro cavaleiros repousavam há muito e os homens, sonâmbulos e de memória frágil, erguiam estátuas nos caminhos, comemoravam, em cada hora, as flores que brotavam do seu engenho, olhavam-se no espelho e sentiam-se felizes com o que viam. Ricas eram as cidades e não havia quem não pensasse no seu triunfo e na glória que o futuro lhe destinaria. Quem tinha a memória dos outros tempos? Quem sabia das provações que o passar dos anos tinha enterrado nas areias do deserto? O silêncio a tudo tinha tragado e as velhas tradições eram, nos dias de glória, coisa abandonada. Não havia um pai, um avô que as soubesses, o antigo laço estava desfeito.

Quando os cavaleiros acordaram do seu longo sono olharam demoradamente a Terra e sorriram. Um, aquele que tinha por montada o cavalo amarelo, disse: “ainda não chegou a nossa hora”. “Sim, tens razão”, acrescentou o do cavalo vermelho, “ainda não estão suficientemente maduros, embora a cegueira que os toma seja já irremissível”. Sentaram-se. Tinham todo o tempo e ficaram, de longe como o tigre que espreita a presa, a contemplar a azáfama dos homens, o crescimento das cidades, o artifício das moradias, o prodigioso engenho fruto do roubo do velho Prometeu.

O cavalo branco era montado por um estranho cavaleiro. Noutros tempos, ao avistá-lo, os homens chamaram-lhe Peste, e dele fugiam, embora sem esperança de salvação. Nos olhos, apenas o terror e nos lábios uma oração, que muito raramente comovia a divindade. A Peste, depois de perscrutar atentamente o horizonte, sorriu e disse: «Serei o primeiro a entrar em acção. São ricos os homens, mas nem todos. A maioria é frágil. Semearei aí a dor e a semente frutificará por todo o lado. Depois, será a vossa vez.»

Quando os poderes humanos decretaram a proibição do uso da memória e proclamaram que apenas o futuro era o desígnio da vida dos homens, os quatro cavaleiros ergueram-se. Os seus gestos eram lentos e cheios de enfado. Quantas vezes tinham feito o mesmo trajecto, castigado os mesmo crimes, semeado o mesmo joio? O mundo desprevenido continuava no acelerado ritmo dos negócios e, quando a velha trombeta soou, ninguém a ouviu. Uma peste incontrolável disseminou-se entre os homens. Depois, as colheitas diminuíram e a fome alastrou no mundo. Confusos, os poderes do mundo declararam guerra uns aos outros. Ao longe, a morte, no seu cavalo amarelo, erguia triunfante o estandarte da vingança.