domingo, 11 de agosto de 2013

Transfiguração da pátria (2) A sombra na floresta

Carlos Morago - Arvoredo (1998)

Uma sombra desceu sobre a floresta
e na clareira crepita uma memória triste, 
a precária oferenda a um deus cansado,
esquecido da velha aliança,
dos homens que correram pelos mares
e da água fizeram jardim e sepulcro.

Sentemo-nos no silêncio desta hora.
Dançam espectros surdos no horizonte
e a multidão aziaga corre enlouquecida,
sob os tambores da noite que chega.
Um gesto e as trevas caem sobre os olhos.
A cegueira mais pura ressoa sobre

os montes, a luz verde da salvação.
Esquecemos o nome e a estirpe,
um lenço de azedume tapa a vida fértil:
as cidades foram tomadas
e os campos onde derramámos o sangue
são pasto de ignomínia e traição.