terça-feira, 13 de agosto de 2013

Um povo de árcades

Pablo Picasso - Arcádia (1900)

No fundo, somos um povo de pastores flautistas recalcados. Desdenhamos a política e os políticos e, ao mesmo tempo, nenhuma utopia nos atrai. A utopia é um exercício da imaginação, mas a sua realização exige a acção, o comprometimento da vontade em tornar real o sonho. Talvez sonhemos pouco, talvez a nossa vontade seja débil. A utopia não vende nesta quintal à beira-mar, por isso nem tivemos direito a uma grande e tenebrosa distopia. Tivemos a nossa distopiazinha caseira e campestre. Não se pense, porém, que a rejeição da utopia significa um compromisso com a realidade. Nem pensar. Tudo o que acontece de mal em Portugal é culpa dos políticos e nunca nossa. Mesmo quando somos nós que os escolhemos, a culpa é deles. Nós fomos vítimas da sua astúcia, de se terem apresentado à eleição. Desprezamos a utopia e a vontade necessária para a realizar, detestamos a realidade e a responsabilidade que ela nos exige.

O nosso lugar é a Arcádia, esse locus amoenus, onde viveríamos em harmonia com a natureza, bons selvagens, pastores serenos, vivendo segundo a prescrição carpe diem! Na Arcádia, não precisamos da vontade para realizar o sonho utópico. Não precisamos da liberdade cívica e da responsabilidade para lidar com os poderes da cidade, pois o nosso lema é o de Horácio fugere urbem (fugir da cidade). Na Arcádia, não há decisões a tomar nem utopias a realizar. Ali tudo flui espontaneamente, enquanto os pastores tocam flauta e dançam, na leve amenidade da vida, com as suas lindas pastorinhas. Somos um povo de árcades, exilado na tenebrosa vida social, nostálgicos do bom selvagem que havia - ou haveria de haver - em cada um.