quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Meditações dialécticas (19) A maior das tentações

Gerard Ter Borch - Officer Writing a Letter (segunda metade do séc. XVII)

Na sua própria essência, a escrita é normativa. É «prescritiva», para recorrermos a uma palavra que, pela riqueza, das suas conotações e do seu desvelamento, solicita uma atenção estreita. «Prescrever» é ordenar, antecipar e circunscrever (outra palavra eloquente) um domínio de comportamento, de interpretação, de consenso intelectual ou social. «Inscrição», «script», «escriba», bem como o feixe semântico de alta energia a que se associam, vinculam intimamente, inevitavelmente, o acto de escrever a formas de exercício de governo. (George Steiner, Os Logocratas, p. 71)

Será a escrita, de uma forma irremediável, o lugar onde o que escreve pretende governar os outros (prescrever-lhes normas) e limitá-los na sua liberdade (circunscrevê-los), como pretende George Steiner? Se isso for assim, se a escrita for um lugar de poder e de dominação, ou, pelo menos, um lugar de desejo desse poder, isso fica a dever-se à própria história da emergência da escrita, ao facto dela ter nascido para fins políticos e de ordenação do poder, de ter nascido como instrumento de poder, ou a alguma característica intrínseca da própria escrita?

Logicamente, nada impede que aquilo que nasceu como instrumento de poder se separe desse poder, liberalizando-se, digamos assim, nos usos não políticos da escrita, abandonando a tentação de prescrever e de normalizar. Mas se olharmos para a escrita nela mesmo, descobrimos que ela contém em si uma disposição normativa e prescritiva. A ortografia, a norma gramatical, a correcção semântico-lexical, para não falar dos preceitos do estilo, fazem da escrita um lugar de ordenação, prescrição e normalização. Mas, perguntar-se-á, isso não se passa também com a linguagem oral. Apenas em parte. Devido à evanescência da linguagem oral (o acto de fala é momentâneo, desaparece ao ser realizado) e o recurso ao esclarecimento mútuo dos falantes sobre aquilo que dizem, a oralidade é mais permissiva do que a escrita. A escrita ao fixar as mensagens, ao desligar-se dos actos de fala, ganha, como salientou Ricoeur, uma autonomia própria, a qual exige uma verdadeira ortodoxia (da grafia, da gramática, do uso do léxico e da significação). Foi esta natureza da escrita que a tornou apta a ser instrumentalizada pelo poder. Mas se historicamente a escrita com a sua ortodoxia é posterior ao poder, ela é ontologicamente anterior.

Este, porém, está longe de ser o problema mais interessante. A questão mais pertinente é a seguinte: apesar da escrita, pela sua natureza intrínseca, ter uma vocação normativa e prescritiva, a qual permitiu que ela fosse usada como instrumento de poder e de imposição de normas, regras, leis, etc., não traz nela um potencial insurreccional? Não tem em si uma inclinação para a desnormalização? É na linguagem poética que se manifesta esse potencial e essa inclinação. Na poesia, a correcção léxico-semântica é abalada pela metaforização, a norma gramatical é, muitas vezes, suspensa e a própria ortografia pode (por exemplo, por necessidades métricas) ser posta em causa. Desse modo, a poesia (e talvez em menor grau a ficção) representa um ataque ao coração normativo da própria escrita. Isto significará, então, que George Steiner não tem razão? Que existe pelo menos um domínio da escrita em que esta se subtrai ao exercício do poder e da dominação dos outros?

Sou bastante pessimista sobre essa possibilidade. Mesmo que o poeta seja um franco-atirador, mesmo que pretenda ser apenas, com o seu uso anormal da linguagem escrita, um destruidor de normas, que seja só um revolucionário ocasional, isso não me tranquiliza quanto ao potencial ordenador, normativos e prescritivo da escrita. Não há destruição de normas gramaticais, lexicais, ortográficas e semânticas que não dê lugar a uma nova ordem, com novas regras, normas e prescrições. A poesia pode ser uma revolução na linguagem, mas como todas as revoluções ela apenas substitui uma ordem pela outra, um poder normativo por outro. Por isso, devemos sempre interrogar as nossas pulsões para a escrita. Não haverá em todo aquele que escreve - mesmo que seja por diversão ou com a intenção de fazer obra poética - uma vontade de poder, um desejo de impor normas e de prescrever comportamentos? Não será a escrita a maior das tentações?