sábado, 21 de setembro de 2013

O vício da improvisação

Wassily Kandinsky - Improvisação (1909)

Espanta-me sempre o louvor que se faz à capacidade de improvisação dos portugueses. Não é que a capacidade de improvisar não seja virtuosa. No entanto, o improviso só tem sentido quando está fundado numa sólida disciplina e num cuidado planeamento. Neste caso, improvisar é a capacidade de adaptar criativamente os nossos planos às exigências da realidade. A improvisação portuguesa - que toma o curioso e popular nome de desenrascanço - é o contrário de tudo isto. É um sinal de incompetência, falta de trabalho intelectual sobre os problemas e de planeamento. É mais do que isso. É uma manobra de ocultação da forma viciosa como dirigimos a vida privada e os negócios públicos. No louvor da nossa improvisação o que é cantado não é a criatividade mas, pura e simplesmente, a incompetência e a falta de vergonha. A improvisação em Portugal é uma maldição que também está na raiz de muito do que nos está a acontecer.