sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

A grande derrota

A minha crónica semanal no Jornal Torrejano.

Há muitas pessoas – umas mais ingénuas e outras nem tanto – que se interrogam por que motivo o comunismo exerceu uma tão forte influência no mundo intelectual e por que razão os crimes do comunismo – que não foram poucos – são tratados de forma mais benevolente do que os crimes nazi-fascistas. A questão, porém, não tem nada de esotérico, nem exige uma especial iniciação para a decifração do mistério. O comunismo trazia com ele a promessa de um homem novo, de um homem melhor, liberto não apenas da servidão mas também do egoísmo e da maldade. Esta promessa inscrevia na luta política e social, de uma forma laica e secularizada, a promessa cristã do homem novo. Foi esta estranha combinação que fez o prestígio do comunismo entre os intelectuais e que levou a minorar a dimensão dos seus crimes quando tomou o poder.

A queda do muro de Berlim e o desmoronar dos regimes e ilusões comunistas representaram uma grande decepção. Não do ponto de vista político ou mesmo social. A decepção reside no fim da crença no homem novo. Não há nenhum homem novo, liberto do egoísmo e da maldade, que se possa produzir por engenharia social. A política não é o lugar de produzir um homem melhor. Os processos educativos – mesmo os processos de educação para sociedades não concorrenciais e não fundadas no egoísmo – tocam muito superficialmente naquilo que o homem é. A grande experiência vivida no século passado foi a do fim desta ilusão – a bela ilusão de um paraíso alcançável por via política e educação colectiva. Essa grande experiência foi, contudo, a experiência da terrível derrota do optimismo antropológico.

Este fracasso duma visão optimista do progresso moral da humanidade não implica, contudo, que a política deva ser, como passou a ser, um lugar de protecção e fomento dos instintos egoístas e predadores existentes na espécie humana. Assistimos, desde os anos noventa do século passado, à glorificação social do egoísmo, ao louvor dos comportamentos predadores dos mais fortes sobre os mais fracos, à pulverização de todos os valores ligados à solidariedade e ao reforço da vida em comum. Com a crise actual, desapareceram, ao nível das elites governativas, quaisquer pruridos. Hoje, independentemente do tom mais ou menos suave, é dos próprios governos que vem a receita e a celebração daquilo que há de pior na humanidade. Ora se a política não é o lugar para construir um homem melhor, ela também não deve ser o lugar onde se glorifica e protege, com a cobertura da lei, aquilo que há de pior na humanidade. O facto de isso estar a acontecer é a maior das derrotas da civilização ocidental.