quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Assimetrias educativas

Giorgio de Chirico - Escola de gladiadores (1953)

A partir da análise dos resultados do PISA, a OCDE descobriu que o sistema de ensino português não consegue reduzir as assimetrias sociais (Público). Esta extraordinária constatação serve para quê? Como estamos em Portugal, pode servir para duas coisas. Se o governo estiver centrado no PSD, esta constatação servirá para reforçar o objectivo de privatizar a escola portuguesa, de entregar os dinheiros dos impostos aos "empresários" da educação, que hão-de surgir como cogumelos. Se o governo, porém, estiver centrado no PS, as conclusões da OCDE servirão para aumentar até à paranóia a burocracia escolar, inventando reuniões, projectos, planos, actas, grelhas, avaliações. Seja qual for a opção, o importante é que se finja que se faz alguma coisa para que tudo continue como está.

A OCDE talvez não perceba, mas o sistema educativo português está desenhado para não reduzir as assimetrias sociais. Pelo contrário. Apesar da propaganda, ele foi concebido para solidificar as assimetrias existentes e, neste momento, está a ser pensado para as aumentar ainda mais. Imagine o leitor que o nosso sistema funcionava como o finlandês ou o japonês, sistemas onde as assimetrias sociais têm muito pouco peso nos resultados dos alunos, ao contrário do que se passa em Portugal. Isto significaria à partida que muitos mais alunos teriam bons desempenhos e muito mais gente deveria entrar nas universidades e institutos politécnicos. E depois? O que fazer dessa gente?

Esta pergunta cínica pretende chamar a atenção para uma outra coisa. Há muito tempo que o desempenho do sistema educativo, apesar da forma como está concebido, é mais eficiente do que o mundo empresarial e as elites políticas. Apesar das disparatadas e iníquas políticas educativas, o professorado português tem feito um trabalho absolutamente notável, sublinho notável. De tal forma que o mundo empresarial - esse mundo tão louvado pelos políticos de serviço - não consegue absorver as pessoas que saem do ensino superior, o qual já eliminou muita gente que com mérito lá tinha entrado. Têm de emigrar, como todos agora sabemos. 

Nem as elites económicas nem as elites políticas têm conseguido estar a par da qualidade de formação dada pela escola portuguesa, apesar desta estar muito longe daquilo que é desejável num país do primeiro mundo. A única solução que essas elites encontram é, precisamente, desenhar e impor um sistema educativo que petrifique ou amplie as diferenças sociais. Numa sociedade onde os empregos interessantes e bem remunerados são muito escassos, a solução encontrada é manter, através da escola, a estrutura social existente, enquanto se grita, na televisão, que tudo se está a fazer para uma escola que assegure a igualdade de oportunidades. Quem conhece bem o sistema educativo, sabe perfeitamente o que está em causa. Seja como for, os professores que se preparem. Vão ser o bombo da festa das conclusões da OCDE.