segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Gestores da amargura

Ramón Pérez Carrió - A neblina é a cor da amargura (1995)

Os tempos que se aproximam trazem consigo uma necessidade imperiosa, a estranha urgência de gerir a amargura. Não é um mero problema de administração pessoal do azedume, da angústia e do ressentimento. Para isso, psicólogos e psicanalistas chegariam, aqui ou ali com a colaboração de algum sacerdote. A amargura que vai ser preciso gerir tem uma dimensão social, resulta da intensificação paroxística das múltiplas amarguras individuais. Depois de décadas em que se prometeu, ali mesmo ao virar da esquina, a abundância e a felicidade eterna, a velha cornucópia foi roubada, e onde se anunciava abundância há penúria, onde se oferecia felicidade apenas se vende desdita e infortúnio. No mundo onde escasseia o trabalho, criou-se um imenso mercado para os gestores da amargura.