sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

O direito à humilhação


Não queria escrever sobre a vexata quaestio das praxes académicas. O que me demoveu desse intento foi ver, num programa de televisão, um estudante proclamar: todos nós temos direito a ser humilhados. Vi, ouvi e recostei-me sem alento. Todos aqueles rapazes e raparigas que ali estavam em defesa da praxe vinham anunciar um novo direito, o direito à humilhação. No meu desalento, e perante aquela gente que, toda ela, teve aulas de filosofia no secundário e estudou a ética de Kant, perguntei-me para que serve um professor de filosofia. Para que serve ensinar que a moral kantiana nos impõe como dever absoluto o respeito pela dignidade da pessoa, tanto na nossa pessoa como na de qualquer outro? O direito à humilhação, agora reivindicado pelos jovens adeptos da praxe, é o direito a não ser respeitado, é o direito a que a nossa condição de pessoa seja suspensa e sejamos tratados como coisas. Para que serve um professor de filosofia, se os seus antigos alunos querem ser coisas?

Depois pensei na história dos homens e tornei-me menos severo com a minha profissão. Na verdade, vinte séculos de Cristianismo e de prédica do amor ao próximo de nada serviram. O próximo não quer ser amado, quer ser humilhado. Três séculos de Iluminismo e de glorificação da razão e da ciência são nada perante o novo e romântico direito de ser humilhado. Dois séculos de direitos humanos, direitos que sublinham o respeito pela pessoa, e estes garbosos rapazes e raparigas gritam bem alto: o único direito que nos interessa é o de sermos humilhados.

Houve tempos em que os estudantes universitários correram sérios riscos para defender o direito inalienável – pensava eu – de ninguém ser humilhado. Era neles – também neles – que se fazia ouvir a voz da razão. Hoje os estudantes apenas querem ser integrados num círculo onde a humilhação é a moeda de troca. Hoje sou humilhado, amanhã humilharei. Eis uma experiência de vida, como dizem os adeptos da praxe. É esta experiência que trarão para as empresas, para as instituições, para o país. Este caldo cultural que, há algumas décadas, começou a fermentar na universidade portuguesa não augura nada de bom. Corremos o risco de vir da própria universidade o desprezo pela liberdade, o ódio ao saber, a perseguição aos direitos humanos básicos, a nova inquisição com as suas fogueiras. Tudo isto em nome do direito à humilhação, o qual tem, por contrapartida lógica, o dever de humilhar. A partir da universidade, a sociedade está a tornar-se num imenso e reles reality show sado-masoquista. Vão-se catar.