segunda-feira, 10 de março de 2014

Entre aspas

Arpad Szenes - Signo (1970)

É num breve texto, Ideia de pensamento, integrado em Ideia de Prosa, publicado no distante ano de 1985, que Giorgio Agamben faz uma curiosa reflexão sobre o uso das aspas, muito para além do signum citacionis. Chama a atenção para que a prática generalizada do uso das aspas sugeriria a existência de profundas razões. Diz Agambem: "Através das aspas, quem escreve toma as suas distâncias em relação à linguagem: elas indicam que um determinado termo não é tomado na acepção que lhe é própria, que o seu sentido foi modificado (...), sem, no entanto, ser excluído da sua tradição semântica". Dito de outra maneira, o uso das aspas indicaria um uso distorcido de uma palavra em relação ao seu sentido corrente. A pessoa quer, com esse uso inusitado de uma palavra entre aspas, significar algo que a palavra não significa, mas cuja significação desejada necessita dessa palavra.

Agamben sublinha que a linguagem é, desta forma, convocada ao tribunal do pensamento para ser pensada na sua verdade semântica, digamos assim. Talvez isso tenha sido verdade no caso de um ou outro pensador, mas a democratização do uso das aspas no sentido assinalado, agora que passaram quase 30 anos sobre a publicação do escrito de Agamben, traz consigo um sinal muito diferente. O aspeio, já democrático, é agora praticado a torto e a direito, mesmo em situações de comunicação oral, onde as pessoas mimam com os dedos a colocação de aspas. Esta praxis não significa que os utilizadores da língua convocam certas palavras e expressões perante o tribunal do pensamento. Significa apenas que a linguagem se tornou obscura e que as pessoas se perdem nela. As aspas surgem, deste modo, como um sinal de SOS, com o qual alguém espera ser salvo da floresta da linguagem. Mesmo que o fenómeno conduza à inovação semântica, ele resulta já dum empobrecimento dos actos de discurso. O aspear de desmedido é um sinal dos tempos, um sinal da entropia que se vai apossando de todas as instituições, e da qual não faria sentido isentar a própria instituição da linguagem. Aspeie-se, então.