quarta-feira, 30 de julho de 2014

A sombra da minha sombra

Jorge Carreira Maia - Auto-retrato V (2007)

Agora havia apenas mar e areia, o som cavo das águas, o excesso de realidade daquilo que me envolvia. Os barcos tinham partido em busca de um porto que os abrigasse, ou os deixasse ancorar por alguns dias. Mas a mim – logo a mim que tinha nascido sob o signo das águas – o destino marítimo deixara de me interessar. Fechei os olhos e deixei o vento correr sobre o corpo. Perplexo, senti uma súbita explosão na carne. Tudo vacilou sob a luz que se reflectia no oceano. O vento quase me arrancou do chão. Músculos e ossos perderam a solidez, mas ainda persistiam na sua mais firme definição. Apenas a cor se ia diluindo, perdendo a diferenciação, tornando-se um difícil equilíbrio de branco, preto e cinza. Quando a primeira onde me atingiu, eu era apenas uma sombra. A sombra da minha sombra.