quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Liberdade e paternalismo

Marcel Duchamp - Father

lluminismo é a saída do homem da sua menoridade de que ele próprio é culpado. A menoridade é a incapacidade de se servir do entendimento sem a orientação de outrem. (Kant, Resposta à pergunta: "Que é o Iluminismo?")

Que valores ocidentais são tão estranhos e incómodos para o mundo muçulmano? Quem pensar que a animosidade islâmica para com o Ocidente se deve à questão palestiniana ou às intervenções no mundo árabe arrisca-se a não perceber o que está em jogo. Isso são pretextos com peso, mas apenas pretextos. O que está em jogo é uma contradição entre sociedades que advogam uma regulação completa da vida das pessoas e sociedades que entregam às pessoas a responsabilidade de dirigir a sua própria vida, propondo apenas um conjunto de regras mínimas indispensáveis que asseguram o respeito pela vida, pela liberdade, pela integridade da pessoa e pela propriedade. 

Esta regulação mínima - que mesmo assim muitos ocidentais acham excessiva - parece inaceitável para grande parte dos muçulmanos, cujas sociedades são geralmente patriarcais e paternalistas. Uma exaustiva regulação da vida, um paternalismo imposto com mão de ferro e um exercício duramente punitivo da infracção das inúmeras regras tornam as pessoas incapazes de se servir do seu entendimento sem a orientação de outrem, para utilizar a expressão de Kant. O conflito que estamos a assistir desenrola-se entre um modelo de sociedade que, apesar dos seus inúmeros defeitos, propõe aos indivíduos a responsabilidade de pensarem por si próprios e um modelo paternalista que pretende que os seres humanos em geral, e as mulheres em particular, sejam mantidos na menoridade. Mesmo para um crítico dos limites do Iluminismo, a questão não oferece qualquer dúvida. O pior que pode acontecer aos que amam a liberdade é viver sob um regime paternalista.