domingo, 16 de agosto de 2015

O pesadelo da história

Maximilien Luce - Uma rua de Paris em Maio de 1871 (1903-05)

- A história - disse Stephen - é um pesadelo do qual estou tentando despertar.
(...)
- Os caminhos de Deus não são os nossos - disse o Sr. Deasy. - Toda a história da humanidade se move em direcção a um grande alvo, a manifestação de Deus. (James Joyce, Ulysses)

Por volta dos dezasseis ou dezassete anos, prolongando-se por mais um ou dois anos, a história exerceu sobre mim um grande fascínio. O espanto nascia de ver nela não o caminho para a manifestação de Deus, tal como a via o Sr. Deasy, personagem de Ulysses, de James Joyce, mas de pressentir nela o instrumento de salvação e de distribuição da justiça sobre um planeta a extravasar de injustiças. Também para mim, naqueles dias, a história tinha um desígnio, mas um desígnio que a ciência histórica (era isso que eu julgava que era essa coisa equívoca que dá pelo nome de materialismo histórico) desocultava e, através dessa desocultação, oferecia aos homens como imperativo a ser realizado pela sua acção. Esse desígnio, como o leitor já percebeu, era o mais melancólico dos desígnios, o da construção de uma sociedade justa, da qual fossem abolidas as desigualdades. Na imaturidade e na arrogância que eram então as minhas, não compreendia como o esquema mental que eu, na minha enorme e desavergonhada ignorância, adoptara para interpretar o mundo - e para não naufragar completamente na vida - era semelhante ao do Sr. Deasy.

Depois a história foi perdendo, para mim, o prestígio desses primeiros tempos. A promessa que ela tinha aos meus olhos foi-se revelando uma falsa promessa. Não apenas porque as tentativas de realização da sociedade justa se mostraram tenebrosas, mas porque, tendo em conta a espécie que é a nossa e os indivíduos que a compõem, o objectivo é completamente destituído de efectivo conteúdo. Foi assim que abandonei - outros dirão que traí, uma classificação tão boa quanto qualquer outra - os meus devaneios de juventude. Contrariamente a muitos que, como eu, foram adeptos desses devaneios, não me converti a um devaneio de sentido contrário. Não troquei o devaneio da sociedade justa pelo devaneio do mercado neutro e eficaz como desígnio último da história dos homens. Poderia meditar sobre se o Sr. Deasy terá ou não razão, mas sobre isso, na verdade, nada posso dizer. É uma questão de fé. O que me restou foi a conversão à posição de Stephen Dedalus. E como neo-converso tornei-me mais radical: A história é um pesadelo do qual nunca podemos despertar.