sábado, 28 de novembro de 2015

Uma oportunidade para a direita

Porta Missé - Pensador (1981)

A derrota eleitoral da coligação PSD/CDS e o novo governo de António Costa são uma oportunidade para a direita – nomeadamente, o PSD – se repensar e se reposicionar no tabuleiro político. A direita, como quase todos nós, demorou muitas dias até perceber que tinha perdido as eleições, pois as vitórias eleitorais dependem do apoio maioritário no parlamento e não de qualquer outro critério. Percebida a situação, a direita entrou numa fase que mistura o desejo de vingança – ainda uma recusa da realidade – e o luto pelo poder perdido.

Os dias, porém, vão passar e darão lugar à pergunta fundamental para essa direita: por que razão perdeu as eleições, apesar de ter a seu favor praticamente toda a comunicação social e da manipulação sistemática que fez da realidade? Esta pergunta, que nunca será feita publicamente, pode gerar dois tipos de resposta. Uma resposta dirá que a direita não perdeu mas que o António Costa é um malandro e que só espera um apocalipse qualquer para retornar ao poder. Esta é a resposta que a esquerda mais gostaria que fosse dada.

Uma segunda resposta é aquela que obrigará a direita a olhar para dentro e perceber em si mesma a causa da sua derrota. Olhar para estes quatro anos e avaliar de forma fria e objectiva o que fez. E não me refiro ao que a troika impôs. Refiro-me ao modo escolhido para seguir a troika e às opções ideológicas escolhidas. Durante quatro anos, a direita entregou-se a um delírio ideológico fanático, sem ter qualquer consideração para com a realidade do país. Combinou uma espécie de vingança com a herança do pós-25 de Abril com a ideia estulta que poderia abandonar uma política moderada e centrista e tornar Portugal um paraíso liberal. O resultado foi extraordinário: além de perder 700 mil votos e a maioria de que dispunha, conseguiu esse feito inimaginável de unir os três partidos de esquerda.

Quando a direita perceber que a causa do seu afastamento do poder não está em António Costa nem na Constituição, nem em mil delírios ressentidos que povoam as redes sociais, mas naquilo que fez, as coisas mudarão. Nessa hora, ela pode desenhar um novo projecto político mais moderado, onde combine um incremento do espírito liberal no país, sem atacar o Estado Social, fazendo deste não apenas a almofada da liberalização mas um dos motores dessa mesma liberalização (foi isso que a Alemanha fez depois da II Guerra Mundial e já tinha feito no século XIX). Então a direita estará pronta para voltar ao poder sem que isso seja o prenúncio de uma catástrofe social, sem que isso signifique a destruição das nossas frágeis classes médias e o descarado apoio aos mais poderosos, sem que isso tenha que representar um pavor para parte substancial da população.