segunda-feira, 2 de maio de 2016

Um beco com saída?

Manuel Viola - Batalla nocturna (1975)

A minha crónica em A Barca, de Abril de 2016.

Este mês de Abril traz consigo os quarenta e dois anos da transição portuguesa à democracia (25/4/74) e quarenta da Constituição (2/4/76), que, depois de algumas alterações, ainda nos rege. As efemérides, mais do que tempos comemorativos, são, muitas vezes, épocas de um olhar desconsolado. O desconsolo nasce não tanto do tempo que passou, mas do olhar voltado para o futuro. Nasce da percepção partilhada por muitos de estarmos num beco muito estreito e pouco agradável.

Os tempos que vão de 1974 até à adesão à União Europeia, então CEE, são marcados por um grande entusiasmo. Primeiro, um entusiasmo com a descoberta da liberdade e o começo da construção da democracia política. Depois, enquanto o fervor político ia esfriando veio o alvoroço de pertencermos ao mundo rico e civilizado. Parecia que havia um rumo para o país e as pessoas encontravam, nessa mítica Europa, um sentido para o que faziam. As aparências, como acontece muitas vezes, estão longe da realidade.

As debilidades estruturais nunca deixaram de existir, apesar do muito dinheiro que, vindo da CEE, jorrou país fora. Também nunca comoveram as elites governativas de forma a evitar a aventura da nossa entrada na moeda única. Chegada a crise do subprime de 2008, nos EUA, e o posterior rebatimento nas crises das dívidas soberanas, as debilidades tornaram-se gritantes e levaram à intervenção da troika, com tudo aquilo que conhecemos. Afinal, não somos ricos e talvez nem sejamos lá muito civilizados.

Voltámos a ser um país de emigrantes, pobre, com uma dívida que nos subjuga, com uma taxa de envelhecimento assustadora. A corrupção cerca-nos, a justiça impotente, as elites políticas – de ambos os lados do espectro político – parecem compostas por zombies, atordoadas pelas exigências dos amigos europeus e pela incapacidade de encontrar um rumo para o país. Descobrimos, pela primeira vez em muitos séculos, que estamos sós, embora sem orgulho. Não há colónias, nem a Europa, à deriva, está disposta a sustentar-nos. Estamos sós, desconsolados, metidos num beco e não sabemos como sair dele. Terá saída?