quinta-feira, 9 de junho de 2016

Viagens na minha terra (1) De Celestino Alves a João Queiroz

Celestino Alves - Sem título (1972) [Óleo sobre platex, 36,6 x 50 cm ]

Trinta e cinco anos separam estes trabalhos de Celestino Alves e de João Queiroz. Será a passagem do tempo fundamental na comparação entre as duas obras? Não será a transitoriedade, o tempo do mundo, um elemento extrínseco ao elemento pictórico? Em princípio, sim. No entanto, nada nos impede de olhar para os dois trabalhos como a irrupção de imagens do mundo. Com imagens do mundo não se pretende dizer que as duas obras sejam representações do mundo, uma espécie de mimésis feita agora segundo modelos abstractos, uma espécie de representação do mundo para além das aparências figurativas. Trata-se antes de outra coisa. Poder-se-ia falar de cristalizações do próprio mundo que acontecem através do trabalho dos dois pintores. Aqui talvez o tempo nos possa ajudar a compreender, para além das idiossincrasias de cada um, as metamorfoses dos cristais.

Em Celestino Alves, a verticalidade, indiciadora ainda de uma presença de uma razão geométrica, sobrepõe-se ao caos, a uma matéria heteróclita que parece sustida pela verticalidade, embora se apresente já como uma ameaça de desintegração das forças racionalizantes e ordenadoras do mundo. Os traços verticais, tão claros e distintos, aqui e ali tracejados por outros de natureza horizontal, menos vincados, emergem como forças de uma ordem apolínea, como se fossem os pilares do mundo, que estrutura um fundo de carácter dionisíaco, o qual ainda se mantém numa posição de contenção. Poderia identificar esta obra de Celestino Alves como um cristal-estaleiro. O que se cristaliza é o trabalho da razão – a razão geométrica, claro – na ordenação de um desejo maciço que, através do jogo de cores, se deixa perceber como preenchido por múltiplas voluptuosidades, ainda de natureza secreta, ainda temerosas de uma irrupção frenética no palco do mundo.


João Queiroz - Sem título (2007) [Aguarela sobre papel. Cerca de 21 x 30 cm.]

Em João Queiroz, a razão geométrica vê-se já ultrapassada pelas forças dionisíacas triunfantes. A verticalidade deixa de ocupar o lugar central. Olhando a aguarela horizontalmente, percebe-se que o elemento vertical, descaído para a direita, se vê ultrapassado pelas forças rodopiantes que parecem deslocar-se da direita para a esquerda, como se fugissem daquilo que as impele para trás (e assim caminhassem na direcção do que fogem) e ignorando a verticalidade, ao mesmo tempo que a engrossam e distorcem. Os elementos rodopiantes surgem como um processo de desfiguração, onde ainda habitam alguns vestígios de um mundo figural, processo no qual se percebe a ruptura do mundo da razão geométrica cristalizado no trabalho de Celestino Alves. Ao cristal-estaleiro corresponde agora um cristal-desordenador – ou um cristal-desfigurador – que desvanece, na acção rodopiante, o mundo figural da razão social e histórica, como se, ao modo do anjo da história de Paul Klee, na tematização de Benjamin, as figuras, já um mero vestígio, estivessem sob o efeito do vento que sopra do paraíso, e que lutassem para retornar a esse paraíso, para fugir do futuro e, nessa luta, se desintegrassem.

À volúpia ameaçadora da ordem, mas uma volúpia ainda contida, a que está presente em Celestino Alves, sucede a volúpia da dissolução, da angústia e do conflito contra a própria ordem do tempo. O tempo sólido do mundo, um mundo onde o espaço ainda está perfeitamente escorado, transforma-se em João Queiroz num tempo gasoso. A fluidez desordenada do sistema triunfa sobre o tempo da ordem. O espaço geométrico, solidamente sustido na verticalidade dos pilares, inicia, em João Queiroz, a sua desgeometrização e é já, mas ainda não, o prenúncio de uma virtualidade onde a tridimensionalidade se dissolve na luta contra o tempo, como se a própria extensão cartesiana, enquanto essência do mundo, colapsasse e com ela a razão.