quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

A questão colonial


Estes últimos dias, devido à morte de Mário Soares, foram assombrados, como não o eram há muito, pela questão colonial com os episódios da descolonização e das independências a serem relembrados. Como é hábito, sempre que a questão colonial é levantada, uma parte daqueles que tiveram de regressar de África toma o fundador do PS como bode expiatório da situação. Digo bode expiatório porque, factualmente (embora quando se interpreta a realidade através dos sentimentos os factos contem para muito pouco), a sua responsabilização é delirante. Vale a pena, até porque muitos portugueses não fazem a mínima ideia do que se está a falar quando se fala de colónias, de guerra colonial, de retornados, de descolonização, etc., vale a pena, repito, sublinhar, por isso, alguns pontos.

1. Em 1974, Portugal vivia em guerra há treze anos, um conflito onde os soldados portugueses se tinham de distribuir por três frentes: Angola, Moçambique e Guiné Bissau. O país estava completamente isolado na cena internacional. O próprio Vaticano tinha uma posição desfavorável relativamente às pretensões portuguesas. Não havia solução militar nem, tão pouco, uma solução política disponível. A perspectiva da guerra se prolongar sem fim à vista era real, embora a situação na Guiné Bissau estivesse praticamente perdida. Em Moçambique e em Angola, a situação era menos dramática para o exército português, mas uma guerra de guerrilhas, como a que existia, pode ser combatida mas não ganha, ainda por cima quando os movimentos guerrilheiros têm reconhecimento internacional e o apoio sistemático das grandes potências da época, como era o caso.

2. O 25 de Abril foi feito por militares. Uma das suas finalidades – a principal, diga-se – foi pôr termo à guerra. Dito de uma forma clara, os oficiais que participaram no movimento não queriam continuar a combater. Ainda por cima, os oficiais milicianos – aqueles que eram militares por incorporação obrigatória, mas que não pertenciam à carreira militar – tinham um grande peso e uma clara consciência, formada nas lutas universitárias, da situação político-militar. Perceberam que a situação não tinha qualquer saída a não ser o derrube do regime.  Se alguém foi responsável próximo da descolonização esse alguém é o Movimento das Forças Armadas, isto é, os militares. Os políticos da oposição eram, claramente, anti-coloniais, mas os militares nem sequer lhes pediram opinião. E os militares envolvidos já vincaram isso múltiplas vezes. Foram eles que impuseram a descolonização. Eram eles que, na verdade, tinham o poder. Uma coisa curiosa na transformação de Mário Soares em bode expiatório é que os políticos da direita na época não mexeram um dedo para defender uma solução diferente. Todos eles ficaram aliviados com o fim da guerra e com o processo de descolonização tal como correu.

3. Os portugueses que viviam na chamada metrópole revoltaram-se contra os militares que fizeram o 25 de Abril? Não. Fizeram uma grande festa, mas foi mesmo uma grande festa. Festa pela liberdade, mas, fundamentalmente, porque perceberam de imediato que a guerra ia acabar. Os portugueses que viviam em Portugal estavam cansados da guerra, estavam cansados de ver os rapazes partir para combater e festejaram com exuberância a aproximação do fim. Também é verdade que a generalidade dos rapazes que estavam incorporados – e aqueles que sentiam o aproximar do tempo da incorporação – sentiram um grande alívio. Também eles quiseram de todo o coração a descolonização. A seguir aos oficiais revoltosos, os grandes responsáveis pela descolonização são os portugueses. Não queriam ir combater ou não queriam ver os filhos partir para combater. A generalidade dos portugueses não queria saber das colónias para nada.

4. Dado o 25 de Abril, feito para pôr fim à guerra, dado o facto que, de imediato, as tropas no terreno, na sua maioria, se recusaram a continuar a combater e passaram mesmo a confraternizar com o inimigo, seria possível uma solução diferente daquela que aconteceu? Podemos continuar a especular até ao fim dos tempos, mas para qualquer outra solução – e não se sabe lá muito bem qual seria – era preciso uma coisa, e essa coisa nunca é claramente dita: era preciso que a guerra continuasse, que os nossos soldados continuassem a partir para África e a morrer por lá. Isto é, era preciso que tudo continuasse na mesma. Este facto é sempre ocultado nas diatribes contra a descolonização. E é preciso ser muito claro nisto. Para que todas as pessoas que tiveram de sair de África à pressa continuassem lá, era necessário continuar a combater e a morrer em combate. Sejamos também claros: na chamada metrópole, estavam todos fartos.

5. Há responsáveis políticos? Há mas não são aqueles a quem são apontadas as culpas. No início das guerras coloniais, em princípio dos anos sessenta do século passado, o Dr. Salazar já tinha informação suficiente para perceber que os impérios coloniais tinham os dias contados. As grande potências coloniais foram obrigadas a abandonar as suas colónias e reconhecer-lhes as independências. Podia ter, naquele momento, tentado encontrar um caminho mais negociado, uma transição mais tranquila. Ele percebeu, porém, que a guerra era a forma dele próprio sobreviver, numa altura em que as ditaduras tinham passado de moda e a Europa ocidental, com uma ou outra excepção, se democratizara, após a segunda guerra mundial. Tinha também tido a experiência dolorosa de ver um generalizado apoio à candidatura de Humberto Delgado. Assim, Salazar preferiu a guerra e lançou uma ridícula campanha ideológica, a qual certamente foi agradável para quem vivia nas colónias portuguesas – então, províncias ultramarinas – e que, durante muito tempo, foi recebida pacificamente pelos portugueses que viviam no continente. Salazar e, depois, Caetano não quiseram enfrentar a realidade e conduziram o país para uma guerra sem solução, a não ser aquela que aconteceu. E isso prolongou-se de tal maneira que militares e cidadãos em geral se cansaram. Na década de sessenta talvez fosse possível uma solução mais sensata, embora essa solução teria de passar sempre por uma transição do poder para as maiorias negras e para as suas elites incipientes. Culpar Soares, os políticos democráticos, os militares de Abril pode consolar o ânimo – bodes expiatórios são sempre consoladores –, mas tem pouco a ver com a realidade e esconde, na verdade, a existência de pretensões insustentáveis, isto é, que a guerra continuasse, que as pessoas fossem combater e morrer, por uma coisa que, na verdade, lhes era completamente estranha.

Espero ainda escrever um outro post sobre dois aspectos ligados à questão colonial. A boa integração dos portugueses provenientes das ex-colónias e o papel positivo e dinâmico que tiveram no tecido social português.