sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

O amigo americano

A minha crónica no Jornal Torrejano.

Há em certos sectores políticos portugueses, de direita e de esquerda, de forma mais ou menos velada, a expectativa de qua a acção de Donald Trump acabe, paradoxalmente, por ser benéfica. Vale a pena, por isso, pensar aquilo que veio a lume na recente entrevista dada pelo novo presidente norte-americano aos jornais Times e Bild. Refiro-me aos ataques à NATO e à União Europeia (UE). Quando um presidente americano vem dizer que a NATO está obsoleta e que mais países vão sair da União Europeia está a criar, deliberadamente, uma situação tão melindrosa quanto perigosa. Imaginemos – e nada nos diz que não vá ser assim – que a NATO desaparece e que a UE  se desintegra. Será que nós portugueses teremos razões para festejar?

Apesar da experiência negativa do euro – em parte da nossa responsabilidade e em parte das regras do euro – a ligação de Portugal à UE é central para a viabilidade económica e política do país. Podemos imaginar o que seria Portugal sem a adesão à União. Foi ela que nos permitiu fugir de uma miséria atávica e termos, apesar de tudo, um país onde não é mau viver. Sem essa adesão, não seriam só as auto-estradas que não existiriam. O sistema de saúde seria irrisório e o educativo continuaria confinado a uma minoria. Talvez tivéssemos um conjunto de indústrias obsoletas a viver de mão-de-obra ainda mais mal paga do que a actual. Estaríamos confinados a uma tira periférica da Península Ibérica, fechados, paroquiais e muito mais pobres do que somos.


Desgraça maior seria, contudo, o fim da NATO. A pertença a esta organização militar é a salvaguarda da nossa independência e o factor determinante da segurança de Portugal e dos portugueses. Portugal não tem apenas uma fronteira com Espanha. Tem uma a Sul com o mundo árabe. E as convulsões no Norte de África, caso a NATO desapareça, tornar-se-iam de imediato uma ameaça, ainda maior, à Europa do Sul, logo a Portugal. Se a NATO acabar e os EUA desistirem da Europa como espaço de cooperação e defesa comum, só podemos esperar o pior. Se se assistir a um efeito cumulativo, desintegração da UE e fim da NATO, o cenário então pode ser infernal. Cresceriam as possibilidades de conflitos intra-europeus e as ameaças vindas de fora elevar-se-iam exponencialmente. Em poucas décadas poderemos passar da zona mais rica e civilizada do planeta para o caos e a pobreza generalizados. Se é isto que queremos, compreendo certas expectativas na acção de Trump. Se não é, o melhor é ficarmos muito preocupados e exigir que os líderes europeus encontrem uma resposta a estes problemas. Acabou a confiança no amigo americano.