terça-feira, 3 de maio de 2016

A Noite e a Rosa - 2. Campestre nocturno

Vincent Van Gogh - Noite estrelada sobre o Ródano (1888)

2. Campestre nocturno

O pomar de sombras sombrias
cobre de rumores a terra,
semeia suores na face suada.

Nas vinhas, um sol de cobre
desenha rios de cristal
na noite nascida no nada.

segunda-feira, 2 de maio de 2016

Um beco com saída?

Manuel Viola - Batalla nocturna (1975)

A minha crónica em A Barca, de Abril de 2016.

Este mês de Abril traz consigo os quarenta e dois anos da transição portuguesa à democracia (25/4/74) e quarenta da Constituição (2/4/76), que, depois de algumas alterações, ainda nos rege. As efemérides, mais do que tempos comemorativos, são, muitas vezes, épocas de um olhar desconsolado. O desconsolo nasce não tanto do tempo que passou, mas do olhar voltado para o futuro. Nasce da percepção partilhada por muitos de estarmos num beco muito estreito e pouco agradável.

Os tempos que vão de 1974 até à adesão à União Europeia, então CEE, são marcados por um grande entusiasmo. Primeiro, um entusiasmo com a descoberta da liberdade e o começo da construção da democracia política. Depois, enquanto o fervor político ia esfriando veio o alvoroço de pertencermos ao mundo rico e civilizado. Parecia que havia um rumo para o país e as pessoas encontravam, nessa mítica Europa, um sentido para o que faziam. As aparências, como acontece muitas vezes, estão longe da realidade.

As debilidades estruturais nunca deixaram de existir, apesar do muito dinheiro que, vindo da CEE, jorrou país fora. Também nunca comoveram as elites governativas de forma a evitar a aventura da nossa entrada na moeda única. Chegada a crise do subprime de 2008, nos EUA, e o posterior rebatimento nas crises das dívidas soberanas, as debilidades tornaram-se gritantes e levaram à intervenção da troika, com tudo aquilo que conhecemos. Afinal, não somos ricos e talvez nem sejamos lá muito civilizados.

Voltámos a ser um país de emigrantes, pobre, com uma dívida que nos subjuga, com uma taxa de envelhecimento assustadora. A corrupção cerca-nos, a justiça impotente, as elites políticas – de ambos os lados do espectro político – parecem compostas por zombies, atordoadas pelas exigências dos amigos europeus e pela incapacidade de encontrar um rumo para o país. Descobrimos, pela primeira vez em muitos séculos, que estamos sós, embora sem orgulho. Não há colónias, nem a Europa, à deriva, está disposta a sustentar-nos. Estamos sós, desconsolados, metidos num beco e não sabemos como sair dele. Terá saída?

domingo, 1 de maio de 2016

A importância do 1.º de Maio

(foto daqui)

Por norma, não sou dado a referências ao 1.º de Maio. Agora está na moda desprezar tudo o que vem dos sindicatos e do mundo do trabalho. Está também na moda defender a extinção dos sindicatos e de todos os movimentos colectivos dos trabalhadores. O fim da contratação colectiva, por exemplo. O 1.º de Maio é visto com condescendência e desprezo, o mesmo desprezo com que são tratados os dirigentes sindicais. Por isso mesmo, apetece-me escrever sobre o 1.º de Maio. Não sobre a sua história, as causas empíricas que conduziram à instauração do 1.º de Maio como feriado em muitos países. Também não sobre as manifestações celebratórias que ocorrem, manifestações que continuam a ser importantes. Quero falar daquilo que sindicatos e 1.º de Maio são sintomas.

As sociedade liberais são fundadas na ideia de contrato. E na figura do contrato são pensadas as figuras das partes contratantes que, sendo livre e iguais, estabelecem um acordo que é válido e obrigatório para as partes envolvidas. Tudo estaria muito bem, se isto não fosse uma ficção. Uma ficção útil, mas ainda assim uma ficção. Porquê uma ficção? Pelo simples facto de a igualdade ser apenas formal. Em muitos contratos, nomeadamente os que envolvem a prestação de serviços a terceiros, uma parte é livre, ou mais livre pois possui mais poder, e a outra está submetida à mais pura e dura necessidade. Formalmente, pode não aceitar estabelecer o contrato, mas materialmente é coagida a aceitar condições que, não fora a necessidade, contrataria de outra forma. É esta situação que conceitos como de capital humano - emergente já em Adam Smith, mas teorizado em Theodor Schulz e Gary Becker - tendem a ocultar.

A existência de sindicatos e acontecimentos celebratórios como o 1.º de Maio são o sintoma dessa ficção. É porque há uma enorme desproporção, na generalidade dos casos, entre a liberdade do que contrata e a liberdade do que é contratado que o sindicalismo continua a fazer todo o sentido, e o 1.º de Maio é um dia que merece ser respeitado. A completa destruição do mundo sindical e dos seus símbolos significaria a radicalização mais tenebrosa da sociedade, tornando os que são mais fracos - e essa fraqueza é, na generalidade das vezes, fruto de acontecimentos que eles não dominam e de que não são responsáveis - presas ainda mais dóceis dos que, pela sua condição social, dispõem de uma liberdade positiva muito mais ampla e de uma força negocial incomparavelmente superior. O 1.º de Maio e os sindicatos são importantes porque tornam visível a fragilidade da ficção contratual. São um contributo para uma sociedade menos injusta, mais equilibrada e, por isso, mais digna. É bom não esquecer isto, agora que a retórica do empreendedorismo e a ilusão do empresário de si mesmo florescem naqueles que estão sempre dispostos a servir os que são fortes.

sábado, 30 de abril de 2016

O fechamento em si

Francis Bacon - Portrait (1978)

O self (o “eu” ou o “si”) de cada um tornou-se a sua principal preocupação. Conhecer-se a si mesmo é agora um fim, em vez de um meio através do qual alguém conhece o mundo. E é precisamente porque estamos tão auto-absorvidos que é extremamente difícil chegarmos a um princípio privado, que explique claramente a nós mesmos ou aos outros o que são as nossas personalidades. A razão é que, quanto mais privada for a psique, menos é estimulada, e mais difícil é para nós sentir ou expressar sentimentos. [Richard Sennett (1974). The Fall of Public Man. London: Penguin, pp. 4, trd. nossa]

A brilhante análise de Sennett acerca da erosão da vida pública nas sociedades ocidentais foi publicada em 1974. Mas o tempo não lhe retirou nem brilho nem pertinência. Em 1974, certamente, a análise não faria muito sentido, se lida a partir de Portugal ou de Espanha. Países atrasados no concerto das nações do primeiro mundo, ainda sem democracia, ou em fase de parto, a vivência das sociedades modernas era algo afastado e nebuloso.

Mas a partir da consolidação da democracia e da entrada na normalidade, Portugal começou, apesar de tudo, a parecer-se com os países mais desenvolvidos. Fundamentalmente foi herdando todos os seus problemas. Aquilo que é descrito neste excerto, essa cultura do autismo, uma cultura narcísica de auto-absorção, vi-a nascer e desenvolver-se. Vi-a, fundamentalmente, a partir da escola. Vi como as famílias, levadas pelo espírito do tempo e a propaganda funesta de uma certa casta de psicólogos e psiquiatras, começaram a proteger os seus filhos de forma absurda, evitando ao máximo o choque com a dura realidade social.

Mas o que de mais tenebroso pude assistir foi à intervenção do próprio Estado, através do sistema educativo, na propagação do narcisismo, do autismo, da absorção das crianças e dos jovens em si mesmos. O que é notável neste processo de destruição da vida pública não é o zelo das famílias, o activismo nefasto das associações de pais e o apostolado de certos psicólogos e psiquiatras. O notável é o próprio Estado, que deveria estar preocupado com esta tendência de auto-absorção dos cidadãos, ter sido a principal alavanca do ensimesmamento a que se assiste. A destruição da vida pública nasce pela iniciativa dos responsáveis políticos, como se uma pulsão de morte os habitasse.

Não está já em causa que os responsáveis políticos defendam o bem comum. O mínimo que se lhes exigiria seria que fomentassem o comum, a vida pública, a necessidade dos indivíduos compreenderam a dura realidade do mundo social, com as suas regras e rituais. Ora quando uma civilização se entorpece no fechamento de cada membro em si mesmo, que leitura se poderá fazer? Quando é a própria elite política que promove esta oclusão narcísica dos indivíduos, o mínimo que se poderá dizer é que chegou o fim de um mundo. (averomundo, 27/02/2010)

sexta-feira, 29 de abril de 2016

A Noite e a Rosa - 1. Madrigal

Maruja Mallo - Rosa

1. Madrigal

Sobre a pedra fria da calçada
oiço tremente o grito do tempo
a voz cinzenta de um madrigal
o murmúrio no fundo do mar.

A rosa irrompe manchada de sol,
seca o verde nos campos de erva
e rasga e rompe a cidade sitiada
no voraz carvão do fim do Inverno.

Nas janelas poisam pássaros
de asas hirtas e inexplicáveis.
Incendeiam de sombra o mundo
no silvo silente do ruído da rosa.

quinta-feira, 28 de abril de 2016

Celibatários e comunismo

Albert Porta - Dorud Communism Collapse (1991-92)

Excepção feita de uma ou outra associação de celibatários, a história das tentativas comunistas apenas regista dissolução e ruínas. (Herbert Spencer (1891), Da Liberdade à Escravidão)

A frase citada de Herbert Spencer sobre a história das tentativas comunistas sempre me fascinou. Não porque o século XX tenha confirmado, de forma dolorosa e inequívoca, o acerto da análise de Spencer. O que me fascina é ideia de que há excepções a essa constatação geral do fracasso do comunismo. Isto não significa que eu julgue que o comunismo, enquanto forma de sociedade, seja possível. Diga-se de passagem que uma autora, prémio Nobel, como Svetlana Alexievich, que não poderá ser rotulada de amante do comunismo, profetizou há pouco o retorno do comunismo, agora, porém, num país rico. Duvido, mas voltemos ao que há de fascinante na frase de Herbert Spencer.

A excepção ao fracasso do comunismo residirá, segundo o pensador britânico, numas quantas associações de celibatários. O fascinante reside, assim, no facto de o comunismo só ser possível numa associação daqueles que se recusam a uma certa associação, isto é, ao casamento. A frase de Spencer não é uma mero dito espirituoso um pouco mal intencionado. É uma crítica subtil e devastadora das concepções comunistas da sociedade. Diz que entre elas e a vida em família há um conflito insanável. Facilmente se perceberá porquê. Se estou disposto a abdicar de ter uma família, também posso dispor-me a renunciar à propriedade. É um problema meu. No momento, porém, que se coloca o problema da família, eu já não penso em mim, mas na família, no interesse dos filhos. Aí cessa o direito moral de renunciar à propriedade.

Em tudo isto há, porém, uma ironia. O comunismo, tomado como forma suprema de altruísmo, só seria possível por uma acto de renúncia egoísta à partilha da vida com outra pessoa. Por seu turno, o egoísmo que conduz os seres humanos à defesa da propriedade privada assenta num gesto de renúncia ao seu próprio egoísmo em nome da pequena comunidade que é a família. É a tensão perante o destino da família que levará os adultos a lutarem contra a ruína e a dissolução que ameaça a cada instante a vida dos homens. A não compreensão disto, do peso inultrapassável que a defesa das novas gerações tem para os adultos, está na base dos fracassos de todas as experiências comunistas conhecidas até hoje.

quarta-feira, 27 de abril de 2016

Livro do Êxodo 5. Um povo de sonâmbulos

Umberto Boccioni - Group of figures related to scene of an urban crowd (1910)

Não celebrarás no deserto a festa, um dia, à sombra dos canaviais, a ordenaram. Tomado pela areia movediça, o corpo cede instante a instante e, no lento mover-se em direcção ao fundo, contamina-se de insectos. Multidões de varejeiras desenham uma prisão de asas, tão leve como as flores do nenúfar, e, nessa inquietação, sobeja ainda um sopro que de entre os lábios sai. A mão, assim lhe chamaram, acaricia as grades, e no vento por elas soprado há um frémito fatal que escurece a negra luz: sobre o mundo, ao arder, incendeia furacões, tempestades tropicais, as areias em convulsão, onde corpos, exaustos de tanto gritar, se tornam cediços, maleáveis, matéria friável a abrir-se à inconstância pegajosa dos sonhos.

Por aí caminha um povo de sonâmbulos, as nuvens tapam de folhas os que enfrentam as agruras sufocadas das areias, poeira solícita que ao alcatrão cobre e dos homens o escondem, como se ele, na síntese viscosa que o faz ser, cometesse um crime e em seu ser criminoso apenas velados espaços quisesse por morada.

Era um povo sem pátria nem castelos nem rios nem memória. Habitava a nudez e quando os homens se inclinavam para os seios das mulheres, estas olhavam a paisagem ao longe e deixavam a água escorrer dos cântaros de barro vermelho, cobriam de luto a cabeça e os olhos, olhos eram, fechavam-se à intensa cor do dia, agora um risco vazio num calendário de folhas ressequidas, herbário onde rosas, violetas e lírios se decompunham durante os meses de Verão, violentos meses eram.

Seguiam depois em frente, homens e mulheres, mas nem o deserto os acolherá nem lugar terão para a festa, um dia, na ordenação das coisas, ordenada lhes fora. Seguem calados o movimento dos astros, enquanto com os dedos desenham esfinges de água sólida sobre o silente fragor da terra.

terça-feira, 26 de abril de 2016

O mais fácil


Não há nada a fazer. Quando não sabemos como resolver um problema atiramos para cima dele com dinheiro. Ou com horas, que é outra forma de dizer dinheiro. Portugal é na Europa o país que tem mais aulas de matemática. Para o estudo referido pelo Público, esta carga horária pode estar associada à melhoria de desempenho dos alunos portugueses nos testes internacionais (PISA). Os tempos lectivos aumentaram 66% enquanto o incremento dos resultados foi de cerca 4,5%. Que avaliação fazer da eficácia deste aumento? Como em tudo no país, este hábito de pôr mais dinheiro, ou mais tempo, em cima de um problema tende a ocultar as questões que devem ser colocadas, nomeadamente, no caso da educação, que razões estão na base do desempenho escolar dos nossos alunos e na sofrível eficiência do sistema educativo. Pôr dinheiro ou horas em cima de um problema é o mais fácil.

segunda-feira, 25 de abril de 2016

O Silêncio da Terra Sombria - 25. Terra sombria

Ferdynand Ruszczyc - Earth (1898)

25. Terra sombria

Assim escurecida,
a terra é um
rumor errante,
uma mancha
suave e sombria
que se perde
no silêncio
das estrelas
salvas pelo luar.

[O Silêncio da Terra Sombria, 1993]

domingo, 24 de abril de 2016

Um regime decrépito


Passam hoje 42 anos sobre o último dia do Estado Novo. A designação Estado Novo era há muito uma caricatura. Vivíamos num regime decrépito, incapaz de evoluir e sem saída. Tenho bem viva em mim, numa memória dos meus oito anos, a imagem dessa decrepitude. Estava-se no Verão de 1964, e acompanho a minha mãe no acto de matrícula na terceira classe. A delegação escolar era no palácio Mogo de Melo, na altura quase uma ruína, bem longe daquilo que, felizmente, é hoje. Ao entrar, deparo-me com um ambiente sombrio, abafado, talvez com duas secretárias, onde dois professores – que me pareceram ter quase 100 anos – , de fato e gravata e com mangas de alpaca, escreviam lentamente, atazanados pelo calor sufocante de Torres Novas, em enormes livros de registo. Quase oiço, ainda agora, o ranger dos aparos das canetas sobre o papel. Por detrás das secretárias, penduradas na parede, as fotografias de outros dois homens que aparentavam ser ainda mais velhos que os professores. Eram os retratos do Doutor Salazar, o Presidente do Conselho, e do Almirante Tomás, o Presidente da República. Por uma janela semiaberta, entravam raios de sol. Iluminavam a poeira no ar. Eu tinha oito anos e nenhuma interpretação política brotou, naquela hora, na minha consciência. A imagem de decrepitude e desconsolo foi, contudo, tão vívida que, mais tarde, se tornou para mim o retrato fiel de um regime que, apesar de já velho e exausto, caiu apenas dez anos depois. E caiu de velhice. Foram os alicerces – sim, os jovens capitães foram treinados para serem os alicerces do regime – que ruíram e o edifício desabou. Sem grande estrondo.

sábado, 23 de abril de 2016

Matemáticos ou músicos?

Guillermo Péres Villalta - El arte está a éste lado de la realidad

Uma antiquíssima distinção, proveniente da Antiguidade Grega, entre matemática e música pode ajudar-nos a compreender o drama em que vive a arte contemporânea. A matemática referia-se às áreas do saber que exigem um processo de aprendizagem e de instrução para que possam ser compreendidas. A música – e aqui era pensada, naquele tempo, a poesia, a retórica, etc., e podemos nós pensar todo o tipo de arte – referia-se ao que poderia ser entendido sem se passar por um processo de aprendizagem. Utilizando uma linguagem contemporânea, dir-se-á que as ciência e a filosofia exigem um processo de instrução para serem compreendidas. Estes saberes podem, na esteira da tradição grega, ser, por isso, denominados matemáticos. Os objectos artísticos, pelo contrário, podem ser entendidos sem que para tal haja necessidade de instrução. São objectos, por isso mesmo, musicais.

Os objectos artísticos abriam os seus segredos à intuição imediata e não esclarecida do consumidor (o conceito tem má fama, mas é abrangente) desses objectos, ao leigo que, nada conhecendo do processo de produção desses objectos, encontra neles um determinado prazer, ao qual se convencionou dar o nome de prazer estético. O que a arte do século XX, em todos os campos, vai trazer de novo é a ruptura dessa relação imediata entre o consumidor e o objecto artístico. Desconfia-se de um objecto artístico que estabeleça essa relação imediata e que culmina com o prazer estético. As artes, tal como evoluíram a partir dos finais do século XIX, vieram exigir um novo tipo de consumidor. Alguém que passasse também ele por um processo de aprendizagem e fosse, de certa forma, um especialista, um matemático da arte.

O resultado desta orientação foi o afastamento do público, mesmo do público culto, da generalidade das manifestações artísticas tidas como inovadoras. O público deixou de as compreender intuitivamente e afastou-se delas. Os poetas escrevem para outros poetas e para meia dúzia de especialistas. A música erudita do século XX atinge, dentro do já reduzido universo de amantes de música erudita, uma pequeníssima parcela. O cinema e o romance como formas artísticas, e não como mero entretenimento, atingem um público excessivamente restrito e idiossincrático. O mesmo se passa noutras artes, como a dança ou as artes plásticas. Por todo o lado, a ruptura entre o objecto artístico e a compreensão intuitiva pelo consumidor foi rompida, exigindo a arte um novo tipo de público, composto por aqueles que, de alguma forma, se tornaram matemáticos dessa arte.

A questão que se coloca do ponto de vista da arte e da sua produção é idêntica à da quadratura do círculo. Será possível restabelecer essa relação intuitiva da obra de arte com o público (e aqui refiro-me apenas um público culto e não à massa dos homens comuns)? Será possível compatibilizar a procura de inovação e de ruptura com o mundo visual, linguístico e auditivo corrente – mundo esse onde habita esse público culto que se recusa à arte contemporânea – com a produção de obras de arte abertas a um prazer estético intuitivo e que não necessita de aprendizagem? Este é o grande desafio que se coloca à arte do século XXI, fazer com que a autonomia das linguagens artísticas não se perca e, ao mesmo tempo, se abra para quem, fazendo parte do público, não as domina. Poderá a arte recuperar a sua natureza musical?

sexta-feira, 22 de abril de 2016

Jogos do espírito

Francis Picabia - Figure triste (1912)

David Hume referia, entre os diversos princípios de associação de ideias, o princípio da semelhança. Por exemplo, um quadro sobre Lisboa conduz-nos a pensar na capital portuguesa. Este exemplo refere-se à semelhança entre objectos tidos como reais. Há outro tipo de semelhanças que não se refere à realidade, pelo menos à primeira vista, mas à linguagem. O quadro acima, de Picabia, tem por título Figura triste. De imediato, num espírito com um certo tipo de cultura, emerge a expressão cavaleiro da triste figura, o muito célebre cavaleiro andante D. Quixote de la Mancha. Esta associação, aparentemente arbitrária e pueril, não deixa de ter um efeito real. Esse efeito deve ser visto como um jogo a que o espírito se pode entregar para seu puro prazer. Um jogo de contaminação. 

Podemos olhar para o quadro cubista de Picabia e imaginar nele uma representação de D. Quixote. Podemos iluminar o espírito tortuoso do nosso cavaleiro manchego a partir das explorações geométricas e cromáticas da obra de Picabia. Esta aproximação entre objectos tão diferentes, proporcionada pela livre associação de expressões linguísticas próximas, não deve ser interpretada como um passo na descoberta de uma qualquer verdade, seja relativa à personagem de Cervantes, seja à do quadro de Picabia. Pelo menos da verdade compreendida como uma crença verdadeira justificada, tal como a concebeu, há muito, Platão. Trata-se apenas de um jogo onde o espírito se compraz. E é no puro comprazimento do espírito que a arte encontra o seu papel. Devemos, porém, ter sempre presente que, na vida dos homens, não há nada mais sério que o jogo.

quinta-feira, 21 de abril de 2016

O Silêncio da Terra Sombria - 24. Manhã

Edward Hopper - Habitaciones junto al mar (1951)

24. Manhã

Chegava a manhã
num motim de luz
e abria a porta
escura e vidrada
para o quarto vazio
onde se escondia
o teu coração.

[O Silêncio da Terra Sombria, 1993]

quarta-feira, 20 de abril de 2016

Livro do Êxodo 4. Ladrões de palavras

Anónimo japonês - Portrait of the poet Shinratei Manzo (1829)

Ao longe as sirenes ecoam na água da tarde, e um ruído de carvão atiça-se na estrada onde o viandante poisa, por instantes tão breves, um pé, logo de seguida o levanta, enquanto o outro, se outro ainda tem, desce em direcção à poeira branca e suja da terra. Assim caminham aqueles que caminham, talvez um santuário no fim da estrada exista, e dessa caminhada seja, quando a voz se afundar no peito, ponto final, denso e cerrado e agreste.

Os que caminham são ladrões de palavras. Roubam, na inércia do caminhar, os túmulos onde elas adormeceram, tão mortas, esquecidas de tanto hábito, gastas pelo vilipêndio dos dias, como se já não houvesse, no som que as animava, um segredo de flores pelo chão ou vacilantes cascatas ao cair da tarde, onde as aves do deus bebam a água derradeira antes de entoarem, pela tarde de cinza, o mais belo dos cantos, diz quem o escutou.

Talvez a vindimadora ainda não venha, a frágil foice em riste, cerzir com pétalas animais e terra metálica a fissura que da vida a morte desliga. Os ladrões, ao afastarem-se para ela vão, caminham na noite por estradas de palavras, sílabas desfeitas na oclusão do palato, na cercadura sempre fechada dos lábios. Avançam pregados à sombra e reviram os olhos se os ilumina o clarão de algum pássaro, ou da lonjura da estrada um carro, na pressa motorizada que ronca, os entontece de luz, encandeia e logo desaparece, sem que um destino para aquela chama o que caminha descubra, quando na noite ouve as sirenes e se afasta, cheio de palavras roubadas, dos túmulos de pedra e cal. Os deuses para elas os construíram nas manhãs intérminas, enlouquecidos, pois a vindimadora jamais a foice lhes estende.

terça-feira, 19 de abril de 2016

Tornear o ponto

Frantisek Kupka - À volta de um ponto (1911-12)

O ponto é uma metáfora morta que se usa para designar aquilo que está em questão, aquilo que é importante e decisivo. Os povos relacionam-se com os pontos de duas maneiras. Há povos que se dirigem para o ponto e o tomam como o lugar gerador a partir do qual vão fazer alguma coisa, vão criar e gerar algo inédito. Outros povos, como o português, olham para o ponto, para as questões decisivas, como aquilo que há que evitar custe o que custar. Tornear o ponto torna-se, para esses povos, uma arte, um exercício no qual educam as novas gerações. O fundamental é aprender a envolver o ponto até que ele desapareça de vista. Trata-se de uma ascese da cegueira. O problema é que o ponto, mesmo que ninguém o veja, continua lá e não se compadece com aqueles que, de tanto contornar o que é importante, se tornam cegos para a realidade.

segunda-feira, 18 de abril de 2016

Brasil, Brasil

Joan Abelló i Prat - Pão de Açúcar, Brasil (1986)

Aquilo a que se tem assistido no Brasil (ler com proveito aqui e aqui) levanta, mais uma vez, o doloroso problema da viabilidade da democracia política em países onde a consciência cívica está longe de estar consolidada. A consciência cívica, porém, não se consolida por obra e graça do divino Espírito Santo. É necessário que aqueles que possuem o reconhecimento formal de cidadãos estejam dispostos a duas coisas. A primeira é assumirem-se enquanto cidadãos. A segunda é reconhecerem o estatuto aos outros. Aquilo que se tem visto - visto a partir daqui e muito longe dos problemas - é que nem uma coisa nem outra estão adquiridas. 

Pode ser grave que a actual Presidente seja politicamente incompetente e que tenha infringido regras processuais (as quais são, segundo parece, sistematicamente infringidas pelos detentores dos vários poderes no Brasil). Pode ser muitíssimo grave que uma câmara de deputados, onde cerca de 60% têm problemas com a justiça, votem a destituição de uma pessoa que não os tem. Grave, porém, é a ruptura do pacto social que faz com que todos queiram viver numa única nação. O mais grave é o manifesto desaparecimento do valor da cidadania, enquanto reconhecimento de si mesmo como cidadão e do outro como cidadão que partilha o mesmo espaço político e o mesmo conjunto de direitos e de deveres. 

Sem este reconhecimento, sem este querer viver entre iguais perante a lei, a democracia é uma miragem. O Brasil corre o risco de ser mais um caso que torna evidente que a democracia está longe de ser um valor político universal. O Brasil traz uma experiência dolorosa para aqueles que acreditam que o crescimento das classes médias é fundamental para uma vida democrática. Este sururu político não nasceu da corrupção nem sequer da incompetência política do PT. Nasceu do crescimento das classes médias e de como isso enfureceu as elites sociais brasileiras.  Convém, ainda, não pensar que a Europa está muito longe daquilo a que assistimos no Brasil. Se a situação social, económica e política continuar a degradar-se, assistiremos por cá, com outras motivações, ao que estamos a assistir no Brasil. 

domingo, 17 de abril de 2016

O Silêncio da Terra Sombria - 23.

Camille Pissarro - Boulevard Montmart: Nuit (1897)

23. Construíste o horizonte

Construíste o horizonte
num espelho quebrado
e uma paixão feroz
cantou-te na face.
Um vendaval de sangue
desenhou ondas de areia
sobre as águas do mar
e ao longe, muito ao longe,
no revérbero matinal,
o teu corpo estremeceu
sob os miasmas da noite.

[O Silêncio da Terra Sombria, 1993]

sábado, 16 de abril de 2016

Um exercício de purificação

John Everett Millais - Love, From Willmot's Poets

Esta notícia sobre as origem possíveis da monogamia trouxe-me à memória o recente sínodo da Igreja Católica sobre a família. Este foi assombrado pela visão do casamento monogâmico indissolúvel e pela dificuldade em lidar oficialmente com a homossexualidade. Que problema traz esta notícia para essa concepção? Um problema muito simples. O casamento monogâmico não resultou nem de uma opção moral nem de uma revelação divina, mas de uma necessidade da espécie para sobreviver, limitando as doenças sexualmente transmissíveis, em determinados ambientes sociais.

Não pretendo argumentar a favor de normas não monogâmicas de casamento ou de relação sexual. Quero apenas chamar a atenção para este tipo de informação. Ele vem relativizar aquilo que se apresenta, ao nível da religião, como um valor absoluto. A monogamia e a indissolubilidade do casamento são valores relativos, resultantes de uma necessidade específica posta pelo ambiente social. Esta relativização coloca, por outro lado, uma outra questão: que relação pode haver entre ciência e religião? Há uma visão, alimentada por certos círculos propensos ao ateísmo, de oposição absoluta entre este dois tipos de crenças. A esta visão, preconceituosa e ingénua, corresponde uma outra, não menos preconceituosa e ingénua, que pretende justificar a fé com a ciência.

As duas visões acima referidas ocultam uma terceira. A ciência pode ter um impacto purificador na religião e na vida espiritual. Como? Tornando evidente a relatividade daquilo que, na religião, pertence não à experiência espiritual mas ao domínio da vida social contingente, que, por isso, é relativo e mutável. A regulação da sexualidade e as opções matrimoniais não possuem um valor absoluto e, por isso mesmo, não são nem factor limitativo nem fomentador de uma vida espiritual plena e realizada. A ciência pode ter, deste modo, a virtude de ajudar as religiões a libertarem-se dos preconceitos e a concentrarem-se naquilo que é o seu núcleo essencial: a vida espiritual dos homens, a libertação das ilusões, a sua relação com o absoluto e a transcendência, com o mistério do ser.

sexta-feira, 15 de abril de 2016

Os Panama Papers

Antonio Tapies - Collage del papel moneda (1951)

A minha crónica no Jornal Torrejano on-line.

Panama Papers parece o título de um livro policial ou, talvez mais apropriadamente, o de um thriller de espionagem nos tempos da Guerra Fria. Apesar de terem bastantes ingredientes policiais e de não estarem destituídos de um certo sabor a espionagem, os Panama Papers são retratos muito realistas dos nossos actuais descontentamentos, para usar uma expressão do historiador inglês, já desaparecido, Tony Judt. O que retratam então estes arquivos?

Retratam, em primeiro lugar, como os poderosos, de diversos graus e de diferentes extracções, vão ocultando aquilo que sustenta o seu poder, isto é, o dinheiro. Mostram como o dinheiro legal (politicamente, declarado legal) convive em harmonia com o semilegal e o abertamente ilegal. Tornam ainda evidente, ainda mais evidente se tal fosse necessário, como tudo está montado para que as classes médias sustentem solitárias as máquinas fiscais necessárias ao funcionamento do Estado e que elas, juntamente com os grupos socialmente mais deprimidos, se afundem numa pobreza irremediável.

Estes retratos da corrente putrefacção social, contudo, não são os mais importantes. Os mais importantes são aqueles que nos mostram a grande traição dos políticos ocidentais. Não me refiro aos que, por um percalço do destino, foram apanhados nos incontáveis ficheiros agora trazidos a lume. Refiro-me a todos aqueles que trabalharam para permitir os paraísos fiscais e desregularam, tanto quanto puderam, o sistema de intervenção do Estado no mundo dos negócios e da finança. Refiro-me aos que criaram a possibilidade de tudo isto.

Legitimadas por maiorias populares, as elites políticas ocidentais trabalharam afanosamente contra quem as elegeu. Alimentaram uma cruzada contra o Estado social e, na Europa, declararam, através de Tratados nunca referendados, a ilegalidade da social-democracia. Nos países mais frágeis atiçaram, sem dó nem piedade e com o apoio explícito de políticos locais e de uma imprensa subserviente, os cães da austeridade. Tudo em nome da competitividade da economia, dessa economia cujos proventos foram postos a recato, bem longe das autoridades fiscais, como estamos a descobrir na novela exemplar dos Panama Papers.

quinta-feira, 14 de abril de 2016

Livro do Êxodo 3. Na ardência da tarde

Jan van Goyen - Landscape with Two Oaks (1641)

Tudo arde na brancura da tarde, uma chama acampa pelas terras áridas. As palavras crescem roídas de saliva, os dias a fazem aumentar, e a teus pés os rebanhos metálicos deitam-se vorazes, estradas cospem-nos terra fora. Os deuses procuram os bosques sombrios, onde as tardes cantam matinas e o fogo é agora um astro de sidra no solo da memória. Esfarelado, coberto de erva rala, pequenas poças de água tépida, restos de ramos e pássaros de olhos vesgos. Os cães latem, coçados na sarna, a zumbir entre canaviais e as desventuradas ruas da cidade.

Na ardência dos dias, os homens das coisas se apossam, correm funâmbulos, e na precipitação a tudo abandonam e à sua imagem de vidro erguem, em temor e súplica, as mãos. Na sombra ansiosa, espreitam entre relógios, horas e dias, um caminho ainda haverá, dizem, ruas de algas roxas pelos bordos, uma estrada de ruídos, insectos de cinza, plantas melíferas pelos matagais de fogo, e uma ardência, a tudo, no inquieto coração, se apega.

Eu não tenho uma mão forte, nem do ramo da oliveira construo bordão a que, no clamor da tarde, me encoste. Sigo preso no horizonte e, onde me levam aqueles que me levam, eu vou. Sem o caminho saber, eu vou, na ardência que me leva, eu vou, apenas porque alguém me leva, como se fugisse das lâmpadas da noite e dos vagos faróis com que, em estradas de colmo, automóveis tracejam, ímpios, a santidade da noite. Levantam-se então os amantes, vejo-os, os corpos despidos de carne. Gritam. Gritam pelo fogo que, um dia, tão ao de leve, teria ardido como restolho na fulguração da campina infectada.