segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Tempo e inovação

(imagem daqui)


A produção do original, a irrupção do não visto, o culto da novidade possuem uma directa relação com a nossa percepção da temporalidade. Introduzem diferenças na vida quotidiana e são essas diferenças que, sobrepondo-se às diferenças naturais dadas pelos ritmos da Terra – o dia e a noite ou as estações do ano –, criam uma espécie de segunda percepção psicológica da duração. Se a primeira, fundada nos ritmos do nosso planeta, se inscrevia de imediato no nosso próprio ser, tanto na dimensão biológica como na psicológica, a percepção da temporalidade, a partir da experiência da novidade, introduz um ruído na nossa relação com o tempo. Esse ruído é insignificante se o ritmo de produção de novidades é diminuto. Mas num mundo como o nosso, onde o valor da novidade, ao ser consagrado pela universidade e pelo mercado, se tornou num valor absoluto, os seres humanos estão submetidos a um ruído permanente e a um desconcerto entre estas duas facetas psicológicas da temporalidade. A inovação, tal como hoje é compreendida na retórica dominante das sociedades de mercado, não passa de poluição. Não me refiro à poluição que a rápida obsolescência dos produtos da inovação representa. Refiro-me à poluição que se abate sobre os nosso ritmos de vida, sobre o desejo de estabilidade que reside no fundo de cada ser humano, sobre as formas de vida que, durante milénios de civilização, se enraizaram em nós. A inovação, tal como é compreendida hoje em dia, não é um bem, mas o sintoma de uma profunda doença que estilhaça a ancestral relação do homem com o tempo e com a Terra. O tempo, essa estrutura que permite a existência dos homens e das sociedades, tornou-se absolutamente incompreensível devido à poluição inovadora. Como corolário, os homens são a cada dia mais estranhos a si mesmos.