segunda-feira, 23 de abril de 2012

O enigma da esfinge

Francis Bacon - Sphinx

O enigma da esfinge não reside na estranha questão que o monstro dirigia aos viandantes - que animal caminha com quatro pés pela manhã, dois ao meio-dia e três à tarde e é mais fraco quando tem mais pernas? -, nem no facto de ele devorar quem não decifrasse o quebra-cabeças. Tão pouco reside na sagacidade de Édipo, o decifrador do mistério. O enigma da esfinge é o enigma do homem e centra-se na insuficiência do reconhecimento de si para saber quem se é.

A esfinge não é mais do que a projecção do homem. Quando Édipo chega a Tebas e é confrontado pelo monstro está a ser confrontado por si mesmo. A resposta que ela dá significa apenas que sim, que ele é um homem, que se reconheceu enquanto tal. A vitória de Édipo é muito semelhante àquela que, nas arenas de Espanha, os toureiros obtêm - quando a obtêm - sobre os touros. O toureiro ao matar o touro é a uma parte de si mesmo que mata. O touro é apenas a projecção dos instintos mais selvagens do homem que a arte deve dominar e vencer. Também a esfinge edipiana tem esse sentido, a projecção do mais tenebroso que há em cada um de nós. A sagacidade de Édipo, como a arte do toureiro, foi suficiente para o auto-reconhecimento. A resposta que Édipo dá à esfinge é a realização consumada do aforismo que estava inscrito no templo em Delfos: conhece-te a ti mesmo.

O desenrolar da tragédia de Édipo - o casamento com a mãe e a geração de filhos que são os seus próprios irmãos - torna evidente que essa sagacidade apolínea é insuficiente. Édipo sabe que é um homem, mas ainda não sabe de facto quem é. Ele compreendeu que se distingue da natureza selvagem, que pertence a uma outra ordem, na qual a natureza dá lugar à cultura e à vida civil. Cultura e civilização, porém, não são o fim último e nem sequer bastam para chegar à verdade de si mesmo. Édipo foi sagaz e ao mesmo tempo, apesar de ver, foi cego para a sua efectiva condição. Viu que pertencia ao campo da cultura e da vida cívica, não percebeu que, para além desse campo, se estende um vasto domínio que nem a mais apurada visão é suficiente para aperceber.

Só quando, no desenrolar da tragédia e na descoberta do involuntário incesto, Édipo se cega, é que começamos a compreender o enigma da esfinge. O reconhecimento de mim mesmo enquanto homem é ainda um falso e ilusório reconhecimento. Isso inscreve o self (o si mesmo) no domínio da cultura e da vida política e civil, mas fá-lo pela supressão de tudo o que rodeia a cultura, seja a tenebrosa natureza selvagem projectada na esfinge, seja o que poderíamos chamar sobrecultura ou sobrenatureza. O efectivo enigma da esfinge está na necessidade de o self se tornar cego para que possa ver, de precisar de se despojar do conteúdo que natureza e cultura põem dentro de si para se descobrir na sua verdadeira condição, na condição de pobre mendicante ao cimo da Terra. Esta condição é essencialmente diferente daquela que resulta da resposta dada à esfinge. Esta vem de um exercício sagaz da razão, mas a condição de indigente resulta de uma experiência real da condição humana.

O enigma da esfinge diz-nos então que só descobrimos aquilo que somos - o significado último de ser homem - não pela sagacidade racional, mas pela experiência directa da própria existência. Para saber o que é um homem não basta usar a razão, é preciso ir para além dela, para além da vida civilizada. O primeiro reconhecimento é, apesar de necessário, um exercício limitado e, se confinado a ele mesmo, ocioso. É preciso que o self se desconheça, que perca a crença em si mesmo, na sua existência e na sua condição. Só o desconhecimento abre caminho para a sabedoria e só aquele que superou a ignorância originária no reconhecimento e este no desconhecimento é não só sagaz mas verdadeiramente sábio.