sexta-feira, 16 de novembro de 2012

A boa herança socialista


Uma das áreas de claro êxito nas governações socialistas de Guterres e de Sócrates foi a da ciência. Mariano Gago levou a cabo uma importante política de investimento na formação de cientistas, no desenvolvimento do conhecimento produzido em Portugal e na relação da universidade com o mundo empresarial. Esta política parece a estar a ser abandonada pela a actual governação. O defeito das políticas de Mariano Gago foi terem chegado ao país com meio século de atraso.

O grande drama da economia portuguesa, nomeadamente da indústria, foi ter-se tornado obsoleta sem que o país possuísse massa crítica e saber-fazer, cientificamente preparados, para substituir as velhas indústrias por novas. Se nos anos cinquenta do século passado, Portugal tivesse começado a investir duramente na educação e na formação de cientistas, hoje a situação seria muito diferente da que é. O salazarismo preso a uma ideologia ruralista foi incapaz de perceber que o futuro estava na democratização do acesso ao ensino, no desenvolvimento da ciência e na ligação desta à economia.

Pelo contrário, o Estado Novo manteve a universidade fechada. Não era percebida como um pólo de desenvolvimento da comunidade, mas como lugar de produção e reforço da distinção social. Os recursos humanos e financeiros foram desviados para outras áreas, nomeadamente a guerra nas colónias, durante a década de sessenta e setenta, até ao 25 de Abril. Quando, nos anos oitenta e noventa do século passado, se dá a globalização e a abertura de fronteiras, a universidade portuguesa ainda está muito longe daquilo que seria necessário. Por outro lado, a generalidade da indústria, completamente desligada da ciência e do conhecimento, colapsa, e a que subsiste é incapaz de absorver os quadros que, entretanto, a universidade foi formando. Mais que a dívida pública ou a ausência de reformas estruturais, o défice cognitivo das empresas é o principal problema do país.

As opções políticas de Salazar continuam, ainda hoje, a afectar duramente a vida da comunidade. Há decisões que só têm efeitos visíveis a longo prazo. Parece, contudo, que nunca se aprende com os erros do passado. O que de mais grave pode, neste momento, estar a acontecer a Portugal é a destruição da herança de Mariano Gago. O desinvestimento na ciência e na sua ligação à indústria e à economia em geral, o julgar que há licenciados a mais, que se pode poupar nessa coisa estranha que é produzir conhecimento terá como efeito manter Portugal numa situação contínua de grandes dificuldades. Há coisas com que não se pode brincar.