domingo, 25 de novembro de 2012

Meditações taoistas (5)

Retornar à raiz é instalar-se na quietude;
Instalar-se na quietude é reencontrar a ordem;
Reencontrar a ordem é conhecer o permanente;
Conhecer o permanente é a iluminação.
Lao Tse, Tao Te King, XVI

Onde a imensa árvore lançou raízes brotou um mundo ambarino de estrutura dócil e suave. Homens e mulheres tinham abandonado as florestas e entregavam-se naqueles dias a uma vida de devaneio. Uns buscavam um sítio onde recompor a alma, outros, uma esperança, uma ilusão, ténue que fosse, que os mantivesse à tona da existência. Era o reino da desordem, um caos amarelo violáceo, um lugar de dor e perdição: as mulheres não tinham filhos e os homens esqueciam os rituais de caça. Assolado por tempestades sem fim, o céu deixara de ser refúgio para aqueles que para o alto ainda olhavam.

Quando Dezembro chegou com os seus imperativos, um homem, que em tempos aspirara percorrer os mares, sentou-se debaixo de uma árvore. Veio o frio e a chuva, depois nevou. Ele todavia continuou no seu lugar. Um pássaro bravio poisou na sua cabeça e mais tarde aí nidificou. Enquanto o homem permanecia na sua quietude, uma ordem suave, feita de luz, construiu-se à sua volta. No inverno seguinte, as mulheres amamentaram os primeiros filhos, os homens reaprenderam as artes da caça e descobriram como cultivar os campos. Um rei justo governou sobre todos eles.

Debaixo da árvore, uma árvore com forma humana lançou profundas raízes. Em cada solstício de Inverno, iluminadas por gigantescas fogueiras, as mais belas raparigas do reino inundam com leite e mel, como se de um banquete nupcial se tratasse, aquele homem que um dia, por decisão inviolável, se tornou na terra a árvore do paraíso.