segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Leituras Poéticas - Ives Bonnefoy - L'été de nuit - I

Vincent Van Gogh - Noite estrelada (1889)

Il me semble, ce soir
Que le ciel étoilé, s'élargissant,
Se rapproche de nous; et que la nuit,
Derrière tant de feux, est moins obscure.
Et le feuillage aussi brille sous le feuillage,
Le vert, et l'orangé des fruits mûrs, s'est accru,
Lampe d'un ange proche; un battement
De lumière cachée prend l'arbre universel.

Il me semble, ce soir,
Que nous sommes entrés dans le jardin, dont l'ange
A refermé les portes sans retour.

                                                      (Ives Bonnefoy, L'été de nuit - I)

Parece-me, neste anoitecer
Que o céu estrelado, dilatando-se,
Se aproxima de nós; e que a noite,
Atrás de tantos fogos, é menos obscura.
Também a folhagem brilha sob a folhagem,
O verde, e o alaranjado dos frutos maduros, cresceu,
Candeia de um anjo que se aproxima; um estremecimento
De luz oculta inunda a árvore universal.

Parece-me, neste anoitecer
Que entrámos no jardim, cujas portas
O anjo para sempre fechou.

                                                      (Ives Bonnefoy, L'été de nuit - I. Tradução minha)

Este poema, em cujo núcleo dinâmico encontramos o céu estrelado, não pode deixar de evocar a célebre frase de Kant, inscrita no seu túmulo em Konigsberg: Duas coisas, quanto mais intensa e frequentemente o pensamento se ocupa delas, enchem-me a alma de crescente admiração e respeito: o céu estrelado sobre mim e a lei moral dentro de mim. Se poeta e filósofo podem admirar-se – ou espantar-se – perante o céu estrelado, as vias que seguem, posteriormente, afastam-se. Kant convoca o respeito e, através deste sentimento, faz entrar a razão. O respeito é um sentimento racional, independente da sensibilidade. Bonnefoy, por seu turno, mergulha no mundo sensível, no jogo das aparências, para inscrever a dinâmica do céu estrelado na narrativa mítica e exprimir o desejo de retorno ao jardim do Éden, de onde a humanidade foi, irrevogavelmente, expulsa.

O poema é posto, logo na abertura e também no início da estrofe final, sob o signo da aparência. Podemos perguntar, em primeiro lugar, o que distingue a primeira aparência da segunda; em segundo lugar, que dinamismo conduz o poema da primeira à segunda aparência. A primeira aparência é-nos dada por uma ilusão da sensibilidade. O céu estrelado parece dilatar-se e, desse modo, aproximar-se de nós. Também a noite, devido à presença das estrelas, é menos obscura. A sensibilidade é tocada pela luz estelar que dissolve o negro da noite. Luz e trevas confrontam-se no palco dos nossos sentidos. A segunda aparência, dada na estrofe final, leva-nos do mundo da experiência sensível para o mundo mítico do Paraíso, do qual fomos expulsos e cujas portas / o anjo para sempre fechou. A experiência da noite estrelada, no poeta e ao contrário de Kant, não produz respeito, mas a ilusão de um retorno ao lugar originário.

Este retorno ao paraíso resulta do jogo entre luz e trevas. Como? É o próprio dinamismo do céu que, pleno de fogos ou de luzes, gera uma sensação de dilatação da luz e do recuo da noite, que se torna menos obscura. E essa luz que se amplia não faz apenas recuar as trevas. Ela toca a própria natureza (a folhagem brilha sob a folhagem / o verde, e o alaranjado dos frutos maduros, cresceu) e metamorfoseia-a na luz sobrenatural de um anjo que se aproxima. É a dinâmica da luz celeste que transforma a experiência que temos da terra e abre, à imaginação, o caminho para o jardim, caminho iluminado pelo estremecimento / de uma luz oculta. O jogo das aparências torna-se, deste modo, uma evocação da experiência mítica originária do homem. A admiração, na poesia, não dá lugar ao respeito e à convocação da razão, mas à evocação daquilo que dorme sob o manto da imaginação humana.