quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Livros velhos

Jacob Lawrence - A Biblioteca (1960)

Manhã em Óbidos, toda a vila concentrada no turismo, nas gentes que vão e vêm, num fluxo de excursões ávidas de fotografias e surtidas familiares, as tradições inventadas ontem, a inevitabilidade de que as coisas sejam assim ou, então, morram desamparadas pelo tempo, pela ânsia de futuro, pela comodidade do presente. Nas nossas sociedades, o passado só tem futuro se render dinheiro. É a natureza das coisas. O que me levou lá, na verdade, foram as livrarias Ler Devagar, agora parte do projecto de indústria cultural que, com a sagacidade inerente aos nossos dias, o Município de Óbidos tem vindo a pôr de pé.

Mas não é disso que quero falar, mas da visita à Ler Devagar alfarrabista, uma livraria incrustada em caixas de fruta, de acordo com o típico da região Oeste. Quando se folheiam livros velhos, coisas que na altura, apesar de desejadas, não se compraram e agora, que já não interessam,  estão ali à disposição, há sempre um sentimento de nostalgia por um mundo que acabou ou por algo que acabou dentro de nós, que apenas deixou um leve traço, uma breve reminiscência. O pior de tudo, porém, são aqueles livros que têm uma assinatura e uma data, a prova de uma propriedade e um sintoma do apressado rolar do calendário. Esses livros incomodam-me, como se estivessem ali salvos de um naufrágio, pobres marinheiros à deriva, a prova da finitude de todos os projectos humanos, a antecipação do que acontecerá um dias aos livros que amei e que fazem parte da minha biblioteca, muitos deles assinados e datados.