sábado, 24 de agosto de 2013

Os olhos atópicos do poder

Anónimo Românico - Os olhos atópicos do Querubim (Santa María d'Esterri d'Àneu)

Há duas ideias acerca do controlo que o poder exerce sobre os indivíduos que me parecem erróneas. Uma que sublinha o facto de se estar a viver numa sociedade liberal, na qual as liberdades individuais são maximizadas e a vigilância se dirige apenas para as zonas negras do crime. A outra diz-nos que as nossas sociedades são uma emulação das ficções distópicas, nomeadamente do Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, do 1984, de George Orwell, ou de O Zero e o Infinito, de Arthur Koestler. Estas distopias ficcionais são alegorias das sociedades modernas. O que marca a modernidade, ao nível do controlo dos cidadãos é a vigilância centralizada. O dispositivo emblemático deste controlo é-nos dado pelo chamado  panóptico de Bentham (pode ver uma imagem aqui). 

Nos tempos em que vivemos, as sociedades liberais, contrariamente à propaganda dos adeptos, são sociedades de intensa vigilância e controlo dos cidadãos. Contudo, contrariamente a certo pensamento de esquerda, esse controlo já não se faz de uma forma tópica centralizada. Uma metáfora sobre as novas formas de vigilância pode ser dada a partir de uma pintura românica anónima. Nos olhos atópicos do Querubim encontramos uma representação das actuais formas de controlo dos cidadãos e de vigilância de cada um. Os olhos estão em todo lado, embora não estejam em nenhum lugar específico. Não estão centralizados, mas qualquer centro de poder tem capacidade para, de um momento para o outro, recolher a informação necessária sobre alguém. Se as utopias modernas deram origem às distopias das sociedades totalitárias, as actuais utopias liberais, conjugadas com a terceira revolução industrial, estão a gerar aquilo a que se pode chamar atopias, onde o poder, etéreo como um querubim, retirando-se do espaço físico, nos observa e controla em qualquer lado. Vivemos, todos nós, sob os olhos atópicos do poder.