terça-feira, 3 de setembro de 2013

Meditações dialécticas (17) Análise poética

André Breton - Cadavre exquis (1930)

Pegamos num poema, lemos, relemos. Ela toca-nos. Por que razão tem ele esse poder? Interrogamo-lo e ele, como todos os textos, repete o que disse, numa iteração sem fim. Essa iteração tem uma dupla consequência. Por um lado, possui um efeito encantatório, aumenta o charme do texto no coração do leitor. Por outro, ao intensificar o seu mistério, o poema irrita a razão, mostra-lhe os limites, sublinha-lhe a derrota. Não exigiu Sócrates que, para o aceitar como discípulo, Platão queimasse os seus versos? Perante o encantamento produzido pelo poema, podemos sempre usar a análise. É preciso, contudo, ter consciência que a análise é um processo da razão, de uma razão derrotada, impotente, irritada. E isso enviesa a análise – qualquer que ela seja – de um texto poético. Talvez ela nos devolva, no lugar da solução do mistério encantatório do poema, um cadáver. Um cadavre exquis? Não, apenas um cadáver esquartejado.