sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Dissonância cognitiva


Este estranho termo, dissonância cognitiva, refere-se ao conflito interior provocado pela existência de duas crenças inconciliáveis. Lembrei-me deste conceito devido à Exortação Apostólica, Evangelii Gaudium, do Papa Francisco. A dissonância cognitiva atinge, neste momento, um apreciável número de pessoas que, sendo católicas, apoiam as políticas do actual governo, bem como a orientação da economia mundial. Será possível a um católico suportar e aplicar estas políticas? Vejamos o que diz o Papa.

Podemos começar pela questão da relação entre economia e violência: "Mas, enquanto não se eliminar a exclusão e a desigualdade dentro da sociedade e entre os vários povos será impossível desarreigar a violência. Acusam-se da violência os pobres e as populações mais pobres, mas, sem igualdade de oportunidades, as várias formas de agressão e de guerra encontrarão um terreno fértil que, mais cedo ou mais tarde, há-de provocar a explosão (§ 59)." Isto é, as actuais políticas geram violência e guerra, pois fomentam a exclusão. A sua avaliação da economia global, aquela que nos arrastou para a presente situação, é demolidora: ”Enquanto os lucros de poucos crescem exponencialmente, os da maioria situam-se cada vez mais longe do bem-estar daquela minoria feliz. Tal desequilíbrio provém de ideologias que defendem a autonomia absoluta dos mercados e a especulação financeira. (§ 57)”. Ou então: "Os mecanismos da economia actual promovem uma exacerbação do consumo, mas sabe-se que o consumismo desenfreado, aliado à desigualdade social, é duplamente daninho para o tecido social" (§ 60).

Mas a afirmação mais decisiva surge no § 53: "Assim como o mandamento «não matar» põe um limite claro para assegurar o valor da vida humana, assim também hoje devemos dizer «não a uma economia da exclusão e da desigualdade social». Esta economia mata." O Papa diz, taxativamente, que a actual orientação da economia e das políticas que a suportam mata, e ao matar infringe o mandamento divino "não matarás!". Dito de outra maneira, o prosseguimento deste tipo de políticas é, do ponto de vista religioso, um grave pecado mortal.

Percebo o drama dos católicos apoiantes da actual governação. Como poderão conciliar os seus interesses e visões ideológicas ultra-liberais com uma religião que sempre professaram e cuja autoridade máxima veio agora dizer o que disse? Como poderão aceitar que as suas opções políticas e económicas são não apenas imorais, mas homicidas, violando gravemente a tábua dos dez mandamentos?