segunda-feira, 3 de março de 2014

Meditações dialécticas (25) - Desejo, competição e desordem

Jan Toorop - Desire and Gratification (1893)

Se não exaltar os talentosos, o povo não compete.
Se não valorizar o luxuoso, o povo não rouba.
Se não mostrar o desejável, o seu coração não se perturba.
Lao Tse, Tao Te King, III

No Tao Te King pensa-se as condições da sábia governação. O que está em jogo não é tanto o exercício duma dominação mas a busca da harmonia como princípio geral e fundamento da sociabilidade. Um príncipe sábio é aquele que, pelo seu não agir, assegura as condições dessa harmonia e evita a perturbação entre o povo. O excerto citado em epígrafe torna claro aquilo que é factor de cisão no corpo social: a exaltação dos talentosos, a valorização do luxuoso e a manifestação do desejável. Percebemos, então, que a harmonia social depende não da desvalorização do talento, do raro, e por isso luxuoso, e do desejável, mas da sua não hipertrofia aos olhos da comunidade.

O que se pretende evitar através deste jogo de equilíbrios? A competição entre as pessoas, o desrespeito pela propriedade e a perturbação dos indivíduos introduzida pela intensificação do desejo, o qual, percebe-se, é o factor dinâmico da competição e do desrespeito pela lei. Esta sabedoria tradicional chinesa encontrará, por todo o lado, perspectivas semelhantes, mais ou menos meditadas, mais ou menos fundamentadas. A possibilidade da existência nas sociedades tradicionais assentava, em última análise, na contenção do desejo.

O que a modernidade vem trazer de novo é a libertação do desejo e a sua exaltação paroxística. O desejo é o alvo a que a publicidade aponta as suas setas. Vivemos continuamente sob a estimulação da nossa faculdade de desejar. Desejar pessoas, bens, locais, situações, etc. Enquanto as sociedades tradicionais visavam a contenção do desejo nos limites do possível, as sociedades modernas intensificam, de forma massificada, a actividade desejante, sem ter em consideração as possibilidades daqueles que recebem o fluxo de estímulos que activam o desejo. Percebe-se facilmente como tudo isto pode gerar um grau de frustração e de insatisfação desmedido. O homem como máquina desejante ou a sociedade de consumo apenas sublinham esta nova situação.

Toda a modernidade é um programa de ruptura com aquilo que está retratado no texto de Lao Tse. A competição tornou-se essencial. Não apenas a competição entre empresas e mercadorias, mas a competição entre cada ser humano. Os tempos que vivemos sublinham bem esta nova condição. Aquele que está a meu lado não é o meu próximo, mas um competidor, um adversário e, em última análise, um inimigo. As relações humanas, introduzidas pela vitória da modernidade, têm como núcleo central uma categoria política dada no par conceptual amigo/inimigo. O que está em jogo, agora, não é a ocultação do talento mas a sua manifestação e avaliação como factor de inclusão ou de exclusão, criando-se a ideia de que não há lugar para os que não foram bafejados pelo talento ou pela eficácia.

A ligação estabelecida entre a competição entre indivíduos e a estimulação contínua do desejo constitui assim o núcleo central das sociedades modernas, a sua mola impulsionadora. O que poderemos esperar? Aquilo que se pode esperar não será muito diferente do que acontecia nas sociedades tradicionais. O que se pode esperar é a desordem. Nas sociedades tradicionais, devido à situação tecnológica, a desordem manifestava a escassez de bens para satisfazer as necessidades básicas, os limitados desejos básicos e socialmente permitidos. Hoje em dia, porém, os bens não são escassos, mas estão distribuídos de tal forma que as exigências desejantes de partes significativas da população, quase todas socialmente permitidas, são impossíveis de satisfazer. A diferença está em que a desordem de hoje nasce de uma estimulação contínua do desejo dos indivíduos, enquanto a desordem anterior nascia da impossibilidade de satisfazer os desejos mais básicos. Esta diferença não é, porém, meramente quantitativa. Ela traz uma qualidade nova. Nas sociedades tradicionais, a repressão do desejo, a sua sublimação, era fundamental. Nas sociedades actuais, passa-se o contrário, o desejo emancipou-se, mas um desejo sem gratificação possível, o que prefigura um grau de desordem incomensurável com aquele que existia nas sociedades tradicionais.