quinta-feira, 24 de julho de 2014

Literatura de aeroporto

Edward Hopper - Boceto de Girlie Show (1941)

Longe de mim ser um inimigo jurado e público dos órgãos de comunicação social. No entanto e apesar da importância que lhes atribuo, nunca deixo de ter presente a sua especial perversidade. Não me refiro sequer à adulteração das imagens da realidade social ou à manipulação das consciências. Há um exercício, por muito execráveis que sejam os referidos, que me parece bastante mais tenebroso. Trata-se da transformação dos acontecimentos da vida em espectáculo, o qual visa despertar o entusiasmo dos auditórios e anestesiar as consciências. Mais uma vez isso está a suceder com a detenção de Ricardo Salgado e a tragicomédia do Grupo Espírito Santo. Como noutros casos, assistimos à voracidade dos media e preparamo-nos para uma longa telenovela. 

A combinação de uma justiça lenta e de uma comunicação social ávida e fundada no desejo de espectáculo tem um efeito absolutamente deletério sobre a consciência social das pessoas. Todos os acontecimentos perdem a sua realidade e são compreendidos como uma mera encenação. Aquilo que faz parte do espectáculo que os media oferecem é acolhido como uma mera ficção, sem qualquer compromisso com o real e a verdade. Ninguém acredita já seja no que for, seja na culpabilidade ou na inocência de um banqueiro em apuros (se é que em Portugal há banqueiros em apuros), seja na bondade ou maldade de um político no poder ou em ascensão. Tudo isso faz parte do entretenimento ficcional com que as consciências são brindadas pelos media, tudo isso não passa de literatura de aeroporto.