domingo, 6 de julho de 2014

O culto das ruínas

Jorge Carreira Maia - Templo de Diana, Évora (2008)

No fim da Idade Média - se é que existiu uma Idade Média -, naquele tempo que é agora conhecido como Renascimento, desenvolveu-se o culto pelos testemunhos da época clássica greco-latina. Foram tempos de busca de um ideal que permitisse confrontar a realidade do presente. Este interesse pelos ideais clássicos foi, posteriormente, suplantado pelo fascínio com os tempos modernos, e os testemunhos do passado tornaram-se lugares para o exercício melancólico da memória, de uma memória vagamente colorida pela etiqueta cultura. As pessoas cultas, suspeita-se ou suspeitava-se, tinham interesse pelo passado e coleccionavam visitas às múltiplas e diversas ruínas que o tempo não conseguira ainda destruir.

Esta estranha melancolia, porém, talvez seja sintoma de uma outra coisa. As ruínas clássicas são metáforas que permitem o ambíguo exercício de ver a ruína que está diante dos olhos e evitar ser confrontado por ela. O que move os homens para este culto da ruína pode ser a experiência insuportável da ruína que o próprio presente traz consigo. Diante dos nossos olhos, as instituições desfazem-se, os modos de vida alteram-se drasticamente e os valores sofrem mutações inopinadas. Aquilo que ainda há uns anos seria impensável tornou-se lugar comum. Não são apenas os centros das cidades que caem. À nossa volta, o efeito do tempo tornou-se avassalador, arrastando na sua voracidade tudo aquilo que parecia ser sólido. O culto das ruínas representa o olhar fascinado e, ao mesmo tempo em pânico, de alguém que pressente a dissolução do seu modo de vida, mas que não tem a força suficiente para o suportar. Olha, como se não olhasse, para o destino do seu próprio mundo.