terça-feira, 7 de outubro de 2014

Falsificar a realidade

Escolas Primárias de Torres Novas (Arquivo Municipal) (1956)

A presente trapalhada da colocação de professores neste ano lectivo mereceu um artigo de apoio ao Ministro Crato por parte de José Manuel Fernandes (JMF). Este artigo é um hino a tudo o que é mau nos debates da esfera pública portuguesa. Em resumo, o articulista acha que a culpa é dos sindicatos e não do ministro. O motivo dessa culpa reside no amor desmesurado que os sindicatos têm pelo concurso centralizado baseado na nota profissional e no tempo de serviço, enquanto JMF, bem como o ministro, acha que se deve avançar, como no caso actual e que deu o brilhante resultado que temos perante nós, para que as contratações se façam segundo o arbítrio do director de cada escola. Se ele é responsável, então terá de ter o direito de escolher quem muito bem entender, segundo critérios que definirá. Sob este manto está a ideia de que cada director escolherá os melhores professores que puder para a sua escola. Eu sei que os leitores já estão a contorcer-se de riso, mas vamos por partes.

JMF falsifica a realidade escondendo que não são apenas os sindicatos que não gostam deste tipo de concursos. São também os professores, incluindo os melhores professores, os mais dedicados, os mais preocupados com a formação dos alunos. JMF oculta este dado para não discutir aquilo que é essencial. Por que motivo os professores, mesmo os melhores, temem os concursos de escola? Por que motivo, apesar de tudo e daquilo que tem de negativo, preferem um concurso centralizado e com regras iguais para todos? Por um simples motivo, porque vivem em Portugal e temem, fundados num saber ancestral, que, no momento em que for dada total liberdade de contratação, muitos directores escolham não os melhores mas aqueles lhe são mais próximos, aqueles que as câmaras lhes indicarem, aqueles que eles queiram dar emprego. Não estamos na Finlândia, nem numa cultura protestante. Ser melhor em Portugal pode ser até motivo para não ser contratado, podem crer. Não serão todos os directores assim. Mas com o tempo isso passará a ser assim na generalidade. A cultura dominante, que em Portugal é a do nepotismo, da cunha e da influência do poder político, prevalecerá e acabará por expulsar todos aqueles directores que, sendo justos e profissionais, não queiram obedecer aos ditamos dos poderes fácticos que rodeiam a escola.

JMF sabe tudo isto e finge que não sabe. Ou será que ele não vive nem conhece o país sobre o qual derrama em abundância as suas opiniões? O mais estranho é que os ultra-defensores do liberalismo em Portugal sejam tão complacentes com a cultura iliberal, que nem se apercebam que a liberdade de escolha de um director ficará de imediato condicionada pelos poderes reais, legítimos e não legítimos, que rodeiam as escolas? Famílias poderosas, empresários, poderes autárquicos, tudo isso fará da escola pública - como fará das escolas privadas (não se tenha ilusões sobre isso) - um pasto para empregar as pessoas certas, isto é, os professores que tenham os padrinhos adequados. O artigo de JMF é um caso claro de ausência de um debate sério sobre os problemas. Cada parte, e umas mais do que outras, escamoteia a verdade da situação, para tentar vender ideologia.