quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Os caminhos que se bifurcam

Milo Winter - A raposa e as uvas (1919)

Segundo a teoria de Everett, a cada instante que uma escolha é feita, seja pelo acaso, seja pela mente humana, o universo divide-se em dois: um para cada escolha possível. Em um universo, decidi casar. Em outro, comprar uma bicicleta. Ambos os universos existem simultaneamente. Everett desenvolveu uma robusta estrutura matemática para demonstrar que, ao menos em teoria, seria possível que a realidade fosse composta de inúmeros universos, todos existindo paralelamente, e cada um diferindo dos demais pelo somatório das escolhas realizadas por todos nós (e, na verdade, pelas escolhas também feitas pelo “acaso”). Em cada um desses universos, haveria versões de nós próprios, e cada versão seguiria um destino diferente (Victor Lisboa).

Cheguei a este texto a partir do título de uma ficção de Jorge Luís Borges, O Jardim dos Caminhos que se Bifurcam, o qual, como me acontece muitas vezes com múltiplas coisas e sem qualquer razão, penetrou na minha consciência e começou, de forma obsessiva, a martelar-me o pensamento. Estava a fazer alguma coisa ou pensar em certo assunto e lá me vinha à mente o jardim dos caminhos que se bifurcam. Li esse conto pela primeira vez há muitos anos. Tornei a lê-lo, mas mesmo esta releitura foi já há bastante tempo, de tal modo que a intriga entrou no reino do esquecimento, permanecendo apenas, agora de forma obsessiva, o título. Mais do que o título é a ideia de caminho que se bifurca que me parece atormentadora. Se sigo por um caminho no jardim e ele, a dado momento, se divide em dois caminhos desejáveis fico com um problema. Contrariamente ao que se pode pensar, o problema não está na dúvida ou hesitação em escolher um caminho e não outro. O problema reside no facto de não poder seguir nos dois caminhos ao mesmo tempo. Ter de escolher um caminho é optar por uma felicidade em detrimento de outra. A cisão dos caminhos é o princípio da infelicidade.

A teoria física de Everett acaba por representar não uma consolação mas uma duplicação do fardo da infelicidade. Se é matematicamente possível que eu esteja nos dois caminhos ao mesmo tempo, mas em universos paralelos, que se ignoram mutuamente, então isso significa que eu, devido à ignorância de mim no outro universo, sou duplamente infeliz. Sou-o neste, onde tomei a decisão de seguir pelo caminho da esquerda, perdendo o da direita, e sou-o no outro onde tomei a decisão de seguir pelo caminho da direita, perdendo o da esquerda. Quanto mais alternativas existirem, mais universos existirão onde eu estou presente, mas em todos eles a minha consciência será infeliz, motivada pela perda que sofre ao escolher em cada um deles. Imaginemos, porém, que eu acredito absolutamente na teoria de Everett e sei que, ao escolher o caminho da esquerda neste universo, terei escolhido o da direita no outro. Esta convicção servirá de consolo? Far-me-á menos infeliz? E é aqui que se torna patente os limites da razão para tornar os homens felizes. Eu creio racionalmente que estou ao mesmo tempo no caminho da esquerda e no caminho da direita, mas a verdade é que esse saber ainda torna mais lúgubre a minha situação. Agora não sofro apenas porque ao escolher eliminei uma experiência. Sofro também porque não tenho acesso à experiência que eu tenho no outro universo. Não perco apenas um caminho, perco-me também a mim próprio num universo que me é estranho.

Dito de outra maneira, a felicidade só seria possível se, apresentando-se duas ou mais alternativas desejáveis, eu pudesse realizá-las todas ao mesmo tempo, se eu conseguisse unificar todos os caminhos que se bifurcam diante de mim. É verdade que, em vez de devanear com universos paralelos ou de querer tudo ao mesmo tempo, posso sempre pensar que a verdadeira felicidade está na humildade de aceitar a condição humana e, concomitantemente, aceitar que uns desejos têm de ser frustrados para que outros se realizem. Na verdade, apenas estou a comportar-me como a raposa da fábula atribuída a Esopo.