sábado, 23 de abril de 2016

Matemáticos ou músicos?

Guillermo Péres Villalta - El arte está a éste lado de la realidad

Uma antiquíssima distinção, proveniente da Antiguidade Grega, entre matemática e música pode ajudar-nos a compreender o drama em que vive a arte contemporânea. A matemática referia-se às áreas do saber que exigem um processo de aprendizagem e de instrução para que possam ser compreendidas. A música – e aqui era pensada, naquele tempo, a poesia, a retórica, etc., e podemos nós pensar todo o tipo de arte – referia-se ao que poderia ser entendido sem se passar por um processo de aprendizagem. Utilizando uma linguagem contemporânea, dir-se-á que as ciência e a filosofia exigem um processo de instrução para serem compreendidas. Estes saberes podem, na esteira da tradição grega, ser, por isso, denominados matemáticos. Os objectos artísticos, pelo contrário, podem ser entendidos sem que para tal haja necessidade de instrução. São objectos, por isso mesmo, musicais.

Os objectos artísticos abriam os seus segredos à intuição imediata e não esclarecida do consumidor (o conceito tem má fama, mas é abrangente) desses objectos, ao leigo que, nada conhecendo do processo de produção desses objectos, encontra neles um determinado prazer, ao qual se convencionou dar o nome de prazer estético. O que a arte do século XX, em todos os campos, vai trazer de novo é a ruptura dessa relação imediata entre o consumidor e o objecto artístico. Desconfia-se de um objecto artístico que estabeleça essa relação imediata e que culmina com o prazer estético. As artes, tal como evoluíram a partir dos finais do século XIX, vieram exigir um novo tipo de consumidor. Alguém que passasse também ele por um processo de aprendizagem e fosse, de certa forma, um especialista, um matemático da arte.

O resultado desta orientação foi o afastamento do público, mesmo do público culto, da generalidade das manifestações artísticas tidas como inovadoras. O público deixou de as compreender intuitivamente e afastou-se delas. Os poetas escrevem para outros poetas e para meia dúzia de especialistas. A música erudita do século XX atinge, dentro do já reduzido universo de amantes de música erudita, uma pequeníssima parcela. O cinema e o romance como formas artísticas, e não como mero entretenimento, atingem um público excessivamente restrito e idiossincrático. O mesmo se passa noutras artes, como a dança ou as artes plásticas. Por todo o lado, a ruptura entre o objecto artístico e a compreensão intuitiva pelo consumidor foi rompida, exigindo a arte um novo tipo de público, composto por aqueles que, de alguma forma, se tornaram matemáticos dessa arte.

A questão que se coloca do ponto de vista da arte e da sua produção é idêntica à da quadratura do círculo. Será possível restabelecer essa relação intuitiva da obra de arte com o público (e aqui refiro-me apenas um público culto e não à massa dos homens comuns)? Será possível compatibilizar a procura de inovação e de ruptura com o mundo visual, linguístico e auditivo corrente – mundo esse onde habita esse público culto que se recusa à arte contemporânea – com a produção de obras de arte abertas a um prazer estético intuitivo e que não necessita de aprendizagem? Este é o grande desafio que se coloca à arte do século XXI, fazer com que a autonomia das linguagens artísticas não se perca e, ao mesmo tempo, se abra para quem, fazendo parte do público, não as domina. Poderá a arte recuperar a sua natureza musical?