quarta-feira, 18 de maio de 2016

Utopias e paranóia política

Simón Bolívar

A Venezuela é um caso exemplar de como a utopia e a eliminação da concorrência política conduzem a visões fantasiosas da realidade (ver aqui o devaneio conspirativo que se abate sobre o cérebro de Maduro) e, muito pior que isso mas no seu seguimento, ao desastre económico, social e político (ver análise aqui).  No caso venezuelano, aquilo que me interessa é a presença de dois elementos que parecem estar sempre presentes nos grandes dramas políticos. São, como referi acima, a utopia e a eliminação efectiva da concorrência política. A Venezuela é interessante não por ser um caso da governação de esquerda, embora o seja, mas por manifestar traços que fomentam a degradação da vida política e que estão presentes tanto à direita como à esquerda.

O primeiro problema da Venezuela nasce da constatação, por Chávez, de uma situação social profundamente injusta. É esta injustiça profunda que dinamiza o pensamento utópico. Todo o pensamento político utópico é um pensamento mágico. Vê na política um instrumento de rápida reconfiguração social. A realidade é desfigurada e faz-se uma reconfiguração, mas esta é sempre excessiva e deslocada do espaço e do tempo (é utópica). A política é assim uma varinha de condão que, ao tocar a realidade social, a transforma para melhor. O problema, porém, é que a realidade resiste. Raramente, a realidade se submete ao desígnio revolucionário. Aquilo que poderia ser um programa paulatino de reformas, de criação de forças sociais mais modernizadas e de uma atitude mais dinâmica da população, transforma-se num triste espectáculo. Caudilhos, conspirações, mobilizações populares, bandeiras ao vento, retóricas revolucionárias. Tudo isto fruto de uma utopia - a qual, no caso da Venezuela, transbordou para outros países da América Latina, sob a designação de bolivarismo -, de uma não coincidência entre o desejo e a realidade.

A deriva paranóica deste tipo de utopias leva ao segundo problema. Uma interpretação delirante da realidade, servida por uma sistematicidade lógica, conduz à eliminação da concorrência política. Esta eliminação pode ser total, como nos casos das ditaduras e regimes totalitários, ou parcial, onde a concorrência política não é formalmente eliminada, mas é limitada através de expedientes que contrariam as concepções de democracia, assentes na liberdade de organização e participação política e no respeito pelas minorias conjunturais. E foi para aí que caminhou a utopia venezuelana. Por muitas vitórias eleitorais que Chávez tenha tido (com Maduro já nem isso), um observador imparcial percebia que o regime era pouco democrático e claramente populista. Os resultados de tudo isto estão à vista.

Tendo isto em consideração, convém sublinhar duas coisas. Pode-se argumentar que ou a utopia populista ou a velha situação fundada nas antigas oligarquias. Isto, porém, constitui uma falácia, a falácia do falso dilema. Esta falácia lógica arrasta consigo uma consequência política, a da eliminação da prudência reformista na transformação paulatina das sociedades. Elimina o esforço sistemático de encontrar equilíbrios e de dar passos pequenos, mas decisivos, em direcção a sociedades mais justas. Em segundo lugar, estes casos, com todo o seu aspecto caricatural, têm a capacidade de revelar a natureza paranóica de todo o tipo de poder (à esquerda ou à direita), inclusive o que existe nas sociedades democráticas. Nestas, manifesta-se em expressões como "não há alternativa", as quais são outra forma de aniquilar a concorrência política e, de forma mansa, instaurar utopias delirantes, cujo resultado, como acontece sempre, é o da destruição dos equilíbrios, da prudência e da justa medida.