sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Um mistério de Natal

A minha crónica de Natal em A Barca.

É Lucas, o evangelista, que nos conta a história do nascimento de Jesus no presépio. A palavra, na sua forma latina (praesaepe e praesēpĭu(m)), significa estábulo ou manjedoura. Aparentemente, na economia da mensagem cristã esta informação sobre o local de nascimento de Cristo era dispensável. Contudo, ela veio a revelar-se como uma atracção poderosa para a imaginação. E o espantoso é que o poder atractivo não deriva daquilo que, por norma, empolga os homens: o brilho, o esplendor, a riqueza, o glamour, o poder. Provém do seu contrário, da carência total, da completa ausência de poder, da mais pura pobreza. Cristo, o Deus feito homem, nasce no desapossamento e no abandono.

Que significado civilizacional e cultural tem este facto? Ele contraria a tendência natural dos homens para aquilo que distingue e dá segurança. O que o homem, por natureza, admira não é a pobreza, a falta de poder, a ausência de distinção. Olhamos para nós e para o que se passa à nossa volta e percebemos que a nossa índole pede riqueza, brilho, dominação, fama, glória. Muitas religiões são construídas de acordo com esse desiderato. O cristianismo, mesmo que os cristãos sejam pouco exemplares, propõe o contrário. Mais: faz com que o divino se revele no desprezível. Na óptica do que nós, homens, somos, o presépio é um absurdo. E é tão absurdo que não se descansou enquanto não foi colonizado pelo seu contrário. Basta ver as épocas natalícias a que estamos sujeitos.

Não é apenas este absurdo que é interessante na cultura de raiz cristã. É também espantoso que, apesar dos homens, o tema da pobreza e do desapossamento tenho feito caminho nas sociedades ocidentais. A atenção que o actual Papa, para indignação de tantos, tem dado aos pobres e à condição de pobreza é um dos sinais. Outro sinal é a emergência, a partir do trágico da Revolução Industrial, da preocupação política com os que nada têm, surgindo organizações políticas que os representam e os tomam como modelo para a transformação das sociedades. Sem a estranheza do presépio, um Deus que nasce no abandono e na carência, a permear a cultura, isso seria impossível. O cristianismo funda-se em dois grandes escândalos: a morte do Cristo na Cruz, o mistério da Páscoa, e o seu nascimento num estábulo, o mistério de Natal. Este é o tempo em que, apesar de tudo, o presépio trabalha sobre a nossa imaginação. E isso continua a ser um verdadeiro mistério de Natal.