quarta-feira, 19 de abril de 2017

O desprezo pela ciência

Bill Jacklin - The Benches, Towards the Rape of Reason (1992)

O problema social colocado pelo surto de sarampo e a manifestação de uma contra-cultura de saúde baseada na recusa da medicina científica e da vacinação como profilaxia da doença é a face, agora mais visível, de uma crescente desvalorização do papel da razão na vida dos homens. Se há um sector que tem sido extraordinariamente enriquecido e protegido pelo avanço da razão científica é o da saúde e da esperança de vida das pessoas. Quanto mais as práticas médicas assentam as suas raízes na ciência moderna maior é a eficácia na luta contra a doença. Curiosamente, o espectacular êxito da medicina científica tem tido a capacidade de suscitar estranhas oposições baseadas em crenças sem qualquer fundamento ou controlo racional.

Isto não significa dizer que a medicina seja infalível, que a ciência possua a verdade ou que a razão não tenha os seus limites. Os médicos e a medicina são falíveis, os conhecimentos científicos, em busca da verdade, vão sendo revistos, reformados ou abandonados e substituídos por outros mais de acordo com a realidade, a razão humana tem os limites inerentes à própria humanidade. Dito isto, convém sublinhar o seguinte: a ciência – e a filosofia numa outra perspectiva – é o campo de produção de crenças mais fiável, mais controlado e mais avaliado criticamente.

Os conhecimentos e práticas derivados da ciência são falíveis, mas o seu grau de fiabilidade é desmedidamente superior às crenças que contestam a pertinência da vacinação ou que põem em causa a medicina científica ou a própria ciência. A medicina científica – por vezes, designada com intenção pejorativa como medicina ocidental – é muito mais segura e capaz de enfrentar a doença do que as putativas medicinas não científicas e as crenças obscuras de uma opinião sem qualquer fundamento, que as redes sociais – esse território onde todos os devaneios pretendem aparentar-se à verdade – têm ajudado a espalhar.

Esta situação – que do ponto de vista da saúde, está ainda longe de ser catastrófica – torna patente que alguma coisa não está a funcionar nos sistemas de educação pública. Não se trata de uma falência do ensino das ciências. Elas estão bem representadas no currículo nacional e a sua aprendizagem tem registado claras melhorias. O problema é outro. Pode ser formulado da seguinte maneira: o facto de se ensinar, cada vez melhor, os saberes científicos não assegura uma educação racional e o desenvolvimento de atitudes críticas perante a realidade e as crenças do senso comum. Há uma dificuldade de transitar da transmissão de conhecimentos para o desenvolvimento de uma capacidade crítica e racional.

Todas estas crenças new age que proliferam um pouco por todo o lado são fruto de uma atitude que é incapaz de avaliar criticamente a razoabilidade das crenças. Os sistemas de ensino modernos e democráticos foram erigidos em nome da razão, transmitem crenças racionais e razoáveis, estruturadas nos currículos nacionais, mas têm tido pouca capacidade de fomentar nos indivíduos uma atitude e comportamento razoáveis. Daí que qualquer disparate, sem fundamento, propagado pelas redes sociais encontrar um sem número de adeptos que o põem em prática, muitas vezes com resultados trágicos. A racionalidade crítica tem limites, mas está longe de poder ser dispensada. Pelo contrário, é necessário que ela seja cultivada e transformada em atitude avaliadora das opções existenciais. Só ela, apesar da sua fragilidade, pode evitar tragédias que a opinião acrítica tem a capacidade de atear. O desprezo pela ciência só nos pode conduzir a lugares inabitáveis pelo homem.