quarta-feira, 12 de julho de 2017

Alma Pátria - 29: João Villaret - Cântico Negro (José Régio)



Hoje a Alma Pátria sai dos caminhos da canção e entra nos da declamação poética. A rádio in illo tempore passava poesia (hoje, penso que só a Antena 2 o faz). Recordo Villaret e também Manuel Lereno. João Villaret morre em 1961. Se olharmos para a capa do disco "João Villaret no São Luís" há qualquer coisa que é inconcebível. Em plena ditadura, um actor consegue encher um teatro apenas para ser ouvido a declamar poesia. Mais, esse mesmo actor tinha um programa semanal na RTP, de larga audiência, onde dizia os grandes poetas. Esse mundo acabou. Ainda David Mourão-Ferreira e Mário Viegas tiveram programas do género, mas tudo isso está definitivamente morto, no contexto cultural pós-moderno em que vivemos. A poesia tornou-se um assunto esotérico, onde os que escrevem se lêem uns aos outros, quando se lêem. No vídeo, um poema de José Régio, um poema que li muitas vezes e que ouvi também muitas vezes declamado pelo meu colega de escola e amigo Luís Filipe Pisco. Dizia-o bem, muito bem.

terça-feira, 11 de julho de 2017

A desmedida


Volto a um dos meus temas políticos preferidos, o da educação do homem político. A raiz de toda a educação do candidato a homem político deveria ser a tragédia grega. Ela forneceria ao aspirante a político a possibilidade de uma meditação sobre os limites do homem e da sua acção. O resto - aquilo que hoje em dia parece ser fundamental - é mera informação e treino nas artimanhas dos jogos partidários. A tragédia tem o papel de nos dar a ver as consequências da desmedida (hübris). A némesis, a vingança dos deuses - isto é, da realidade - não deixará de ocorrer sempre que a desmedida se faz sentir na acção política.

Veja-se o caso do governo de António Costa e a desmedida - o optimismo e o contentamento exibido como uma humilhação dos adversários - com que ele se vinha comportando nos últimos tempos. A humildade que deveria ser a tónica de um governo assente num partido que perdeu as eleições e numa coligação inabitual foi, com os resultados do campo da economia, sendo substituída pela irresistível tentação de gerir a res publica como se o governo fosse constituído por heróis divinos acima dos mortais. A vingança dos deuses não se fez esperar e mostrou que a política não é só economia. Um fogo terrível, um roubo caricato e umas contas a ajustar com a justiça tornaram de imediato patente a natureza humana - demasiado humana e demasiado portuguesa - do governo.

Quer os políticos o creiam ou não, nada há pior para a sua carreira do que a desmedida. Muitas vezes, a hübris parece ser uma condição necessária para atingir os objectivos e triunfar sobre a concorrência. Na verdade, é uma artimanha para perder o herói. Sabemos também que a virtude da humildade não é coisa que tente os egos inflacionados daqueles que se dedicam à vida política. O contacto com o poder retira-lhes o discernimento dos seus limites e leva-os, como se isso fosse a coisa mais natural, a desafiar os deuses - isto é, a realidade. A factura muitas vezes não se faz esperar e mostra que os encargos de tal ousadia não compensam o prazer de se sentir deus por alguns instantes.

segunda-feira, 10 de julho de 2017

A Flor Precária 10. Anoiteceu

Adolf Rossi - Towards a end of a day, 1950’s

10. Anoiteceu

Anoiteceu.

E a casa é uma sombra
de silêncio
no lago da noite.

(A Flor Precária, 1979)

domingo, 9 de julho de 2017

Fantasmas

Nicanor Piñole - Escuchando la radio

O pintor post-impressionista asturiano Nicanor Piñole (1878-1978) fez uma série de desenhos sobre o fenómeno da escuta do rádio. O que me prendeu a atenção foi o sentido arqueológico destes desenhos. Mostram o momento em que as famílias passam de comunidades de indivíduos a locais de convívio de solidões. A comunhão de um destino começa a dar lugar ao ensimesmamento. Solicitados pela voz vinda de fora, as pessoas acabam por reforçar a sua singularidade num processo de contínua estranhamento relativamente aos que lhe são próximos. Como todos sabemos, o processo foi-se intensificando com a televisão e, hoje em dia, com a internet e as redes sociais. O discurso que vem de fora torna-se uma muralha que separa cada um do seu próximo. A destruição das relações de proximidade dentro da própria família foi um passo decisivo para que a ideia de próximo, tal como emergiu no discurso de Cristo, começasse a perder sentido. O que está próximo já não é um ser humano, mas o fantasma trazido pela mediação de um qualquer dispositivo tecnológico.

sábado, 8 de julho de 2017

A concubina infiel

Arkady Shaikhet - Express train, USSR (1939)

Para onde se dirige, tão soberbo e ufano, o comboio expresso soviético? A fotografia de Arkady Shaikhet é um hino à ideologia dominante na URSS de então. Quem conhece um pouco da história dos séculos XIX e XX é levado a pensar, num primeiro momento, que o expresso se dirige para o futuro. O comboio que vemos não é um comboio mas um deus, Hermes ou, na versão romana, Mercúrio, que corre para cumprir a sua missão de mensageiro e anunciar ao mundo e ao futuro o triunfo do progresso, que há-de chegar envolto em fumo e metalomecânica pesada. No entanto, se olharmos a data da fotografia percebemos de imediato que o comboio apenas se precipita em direcção à segunda guerra mundial e à morte. A história é uma concubina infiel que nunca deixa de trair aqueles que a amam.

sexta-feira, 7 de julho de 2017

Três avisos e uma remodelação

A minha crónica no Jornal Torrejano.

A governação de António Costa começa a abrir brechas que só a actual inépcia da direita tem evitado que se transformem num enorme desgaste político. Em pouco tempo, depois da euforia em torno do défice, o país frágil que somos, do ponto de vista institucional, enviou três avisos. O menos importante foi a história do exame de Português do 12.º ano. O mais trágico está ligado aos acontecimentos de Pedrógão Grande. O mais simbólico da nossa fragilidade, o roubo de armamento em Tancos. Todos estes acontecimentos têm um denominador comum. As instituições são frágeis e parecem acometidas por uma doença que impede o seu regular funcionamento. Estes acontecimentos são politicamente muito importantes e revelam, melhor que o cumprimento do défice, o estado da Nação.

É irrelevante dizer que isso poderia acontecer com outro governo qualquer. Também não terá grande sentido dizer que a degradação das instituições vem de há muito. Os governos são empossados para cuidarem das instituições e assegurarem que elas funcionem com regularidade e sem falhas clamorosas. Por muito que os governantes se achem inocentes nestes acontecimentos – e, certamente, são-no –, eles são responsáveis por eles. É evidente que o que aconteceu – fundamentalmente, em Pedrógão Grande e Tancos – é ainda consequência das políticas de austeridade que continuamos a seguir, mas não só. São fruto da leviandade que se instalou no Portugal democrático, leviandade essa que tem o PS como um dos principais expoentes, embora tenha boa companhia no lado da oposição.

Do ponto de vista político, parece claro que chegou a hora de António Costa fazer uma remodelação profunda no governo. O problema, porém, não será debelado com uma mera troca de ministros. O governo carece de uma legitimidade eleitoral cuja ausência, em momentos de crise e apesar da boa vontade do BE e do PCP, se torna de imediato patente. Os partidos de esquerda deveriam ponderar muito seriamente num governo onde todas as forças de esquerda estivessem representadas. Um governo que não viva apenas para o défice, a dívida e as devoluções. Um governo que cuide do país e da eficiência e democraticidade das instituições. O que está em jogo é evitar a degradação da situação política, a qual está ameaçada por estes acontecimentos, mas também com os previsíveis conflitos nas áreas da Saúde e da Justiça. A euforia governativa de há semanas atrás desapareceu num ápice. Pode ser uma oportunidade para olhar a realidade de frente e acabar de vez com os jogos florais. Pode ser o começo do descalabro.

quinta-feira, 6 de julho de 2017

O sem destino

Adelino Lyon de Castro - Sem destino, Portugal, 1980

Ao cruzarmos a fotografia, a data e o título que lhe foi dada pelo fotógrafo, podemos ser tentados a ver nela uma metáfora sobre o destino - ou a sua ausência - de Portugal na transição da década de setenta para a de oitenta do século XX. As tentações nem sempre são boas conselheiras. Aquilo que vemos - ou que nos é dado a ver, o que não é bem a mesma coisa - é o outro lado da realidade portuguesa, não de 1980, mas de Portugal ao longo da sua história. Uma parte do país parece, muitas vezes, brilhante, de aspecto triunfal, tendo um caminho e um destino, mas isso é só parte da realidade. Existe a outra parte, aquela que a fotografia retrata, que, nos momentos mais inesperados, se manifesta estrondosamente, para depois, se ocultar silenciosa, até que uma qualquer câmara escondida - isto é, uma tragédia, uma crise financeira, etc. - a torna a trazer para o primeiro plano. Se não nos deixarmos iludir pela exaltação da retórica política, talvez descubramos que este sem destino é ainda um momento constitutivo do nosso próprio destino. Aquilo que somos enquanto comunidade faz-se no convívio e no conflito com a ameaça perpétua de perder a nossa destinação. Se eliminássemos esta parte ameaçadora, sempre presente, o mais provável seria deixarmos de ser o que somos. O mais provável é que possamos ir transformando, lutando contra ela, essa ameaça arcaica que nos constitui, mas não esteja nas nossas possibilidades eliminá-la. Ela mostra-nos a efemeridade das coisas e a nossa fragilidade. Dá-nos, desse modo, um saber. E é este saber que nos tem ajudado a sobreviver enquanto comunidade, contra todas as probabilidades, há quase nove séculos.

quarta-feira, 5 de julho de 2017

A Flor Precária 9. Traços de argila

André Louis Derain - Bacchic dance (1906)

9. Traços de argila

Traços de argila
na fímbria da mão.

Florestas de água
na névoa da manhã.

Tulipas de fogo
no rumor do corpo.

(A Flor Precária, 1979)

terça-feira, 4 de julho de 2017

A incúria e o desinvestimento

HAZIR REKA- REUTERS (Público)

O assalto aos paióis de Tancos está a dar azo à confusão de duas coisas que, igualmente graves, não devem nem podem ser confundidas. Não se pode confundir incúria institucional e desinvestimento nas Forças Armadas. Independentemente de haver ou não dinheiro, independentemente de haver ou não vídeo-vigilância, as instituições militares têm a mais estrita obrigação de cuidar de instalações como aquela que foi assaltada. Este acontecimento torna patente um profundo problema no funcionamento da instituição militar, o qual é apenas um sintoma do laxismo instalado nas instituições nacionais. A falta de dinheiro não explica tudo. Seja nas Forças Armadas, seja em qualquer outra instituição do Estado.

Dito isto, há que sublinhar a gravidade do desinvestimento na Defesa Nacional, desinvestimento esse fruto de uma espécie de pacto entre as elites políticos do arco governativo (e, neste momento, não há já elites políticas fora do arco governativo). O investimento em Defesa Nacional é impopular. Os militares - com os seus aparentes privilégios - geram, por norma, reacções de ressentimento social. E os governos têm aproveitado isso para deslocar recursos financeiros para sítios que se traduzem em votos. A situação, porém, é intolerável. Portugal - e a Europa - precisam de investir em defesa, por impopular que isso seja. Não estamos em tempo para brincar com coisas sérias.

Nota: o título original, A incúria e o laxismo, saiu por engano. O que se pretendia era o actual A incúria e o desinvestimento.

segunda-feira, 3 de julho de 2017

O anarquismo

Nadar  - Russian anarchist Michael Bakunin (1864)

As ideologia políticas têm tido, nas sociedades modernas, uma dupla função. As elites políticas assumem-nas como formas de legitimação do seu direito de ocupar o poder de Estado. Tanto os poderes autoritários como os democráticos precisam, para além da violência ou dos votos, de um discurso, de uma narrativa, que confira sentido e, por isso, legitimidade ao seu poder. Os cidadãos usam as ideologias como um véu de ilusão que os ajuda a suportar esse mesmo poder. A natureza do poder de Estado é tal que nunca é possível olhar para ele na sua crueza. A visão do poder tal como ele é em si mesmo é insuportável. Por isso, ele precisa de se cobrir com um véu e os cidadãos necessitam que ele se cubra com esse véu. No Antigo Regime, o véu ideológico seria a narrativa sobre o direito divino dos Reis a governar. Depois da Revolução Francesa, esse véu passou a ser constituído pelas ideologias políticas.

É aqui que cabe perguntar se o anarquismo é uma ideologia política. Em aparência, será, mas o anarquismo defende a extinção do poder do Estado. Mais do que uma ideologia comparável com o liberalismo, o socialismo ou o conservadorismo, o anarquismo é expressão de um sonho da humanidade. O sonho de não ter de se submeter ao império do outro. O sonho de não ter de obedecer ao arbítrio de terceiros. Como acontece com os sonhos, os sonhadores sabem que, devido à nossa natureza, o sonho anarquista é uma pura impossibilidade. E apesar de não o levarem a sério, não deixam de olhar para ele com a simpatia que devotam aos seus devaneios mais queridos. O anarquismo é o negativo da nossa condição. Ele não está no horizonte das nossas possibilidades, nem corresponde à nossa natureza retorcida e, para usar a linguagem da religião, decaída. Seria a forma de organização social em que gostaríamos de viver se não fôssemos aquilo que somos.

domingo, 2 de julho de 2017

Alma Pátria - 28: Tristão da Silva - Aquela Janela Virada para o Mar



Quem fez o upload deste vídeo para o You Tube diz que Tristão da Silva terá escrito esta canção enquanto estava preso, por ser oposicionista à ditadura. Não consegui confirmar a história e tudo indica que seja falsa. Existem algumas pequenas biografias na rede, mas em nenhuma delas encontrei referência que confirmasse essa tese. Na wikipédia refere-se o facto de Tristão da Silva ter sido oposicionista (pronto, também havia cantores românticos na oposição), mas também se diz que nunca esteve preso, não tendo a sua carreira artística sido afectada pelas suas convicções políticas. Por outro lado, vi, no Portal do Fado, que a letra e a música são da autoria de Frederico de Brito, o que parece bastante credível. Independentemente do autor e do lugar, esta canção passava bastante na rádio nos tempos do Prof. Salazar. É uma das imagens de marca do cantor – ou do cançonetista, como então se dizia – e faz claramente parte da música que acompanhou, nas emissoras dos anos sessenta, as gerações que assistiam, ainda um pouco incrédulas, à afirmação, muito ponderada e respeitosa, da televisão nesta paróquia perdida na periferia da Europa, pastoreada por um catedrático de província com a bênção de um cardeal amigo.

sábado, 1 de julho de 2017

Um desafio


A minha crónica no jornal A Barca.

Uma das consequências do fim do bloco de leste e da consequente derrota política e ideológica do socialismo foi a perda de sentido para as vitórias eleitorais da esquerda. Por perda de sentido refiro-me à ideia de que essas vitórias seriam – como então se pensava à esquerda – um passo no progresso para uma sociedade melhor e mais justa, uma verdadeira sociedade socialista. Não é que a realidade confirmasse que qualquer vitória eleitoral da esquerda tivesse o condão de deslocar a sociedade em direcção ao fim que ela almejava. Não deslocava. Permitia, quando permitia, algumas reformas tendentes a uma maior democratização no acesso a certos bens sociais. Contudo, o sentido estava ali a dar uma coerência e uma finalidade à história vivida.

Hoje em dia, nada disso existe. Uma vitória eleitoral da esquerda não é um passo em direcção a coisa nenhuma. Permitirá, eventualmente, algumas reformas menos duras na sociedade, mas não traz consigo nenhuma ilusão de um progresso em direcção a uma outra sociedade. As vitórias eleitorais da esquerda são apenas um momento que dará lugar a futuras vitórias eleitorais da direita. A ilusão de que nos estaríamos a aproximar de algo melhor e mais justo acabou, e acabou porque pura e simplesmente não há lugar nenhum mais justo que nos espere no futuro. Esse território da sociedade melhor que a actual – o que fazia da política de esquerda uma política de contínua extra-territorialização, de estar a caminho de outra coisa – nem como ilusão consistente existe hoje em dia.

Uma das consequências disso é a actual solução governativa portuguesa. Foi o sentimento difuso existente no BE e no PCP de que não há nenhuma sociedade socialista à nossa espera que os tem obrigado a apoiar ao governo de António Costa. Esse sentimento, porém, precisa de ser transformado em análise racional da realidade social e política que nos cabe. O desafio que se coloca hoje à esquerda é apenas – pois não há outro – o de melhorar as instituições económicas, sociais e políticas em que vivemos. Ora esta política de melhoria não pode ser construída apenas pela reivindicação de devoluções e de reposições de certos bem sociais perdidos. Esta é ainda uma política reactiva. A esquerda, se quer continuar a influenciar os destinos do país, precisa de ter políticas activas que melhorem o funcionamento da sociedade, que limitem drasticamente a corrupção, que combatam a incúria e que fomentem uma economia de mercado mais adequada, mais justa e com menos influência no Estado. Dito de outra maneira, que ajudem a melhorar o capitalismo.

quinta-feira, 29 de junho de 2017

A Flor Precária 8. Uma paisagem destilada pela mágoa

Claude Monet - Haystack in Winter, Giverny (1891)

8. Uma paisagem destilada pela mágoa

Uma paisagem destilada pela mágoa.
Uma folha de luz a cintilar no oceano.
Uma nuvem de sal na porta da penumbra.

Se a neve caía pela escarpa do Inverno,
os pássaros da infância refulgiam
na roseira do céu ou na ruína da rua.

(A Flor Precária, 1979)

quarta-feira, 28 de junho de 2017

Poderes encantatórios

IOP – Institute of Physics, Reino Unido - Descrição geométrica das formas do fotão

Em pequena escala, a luz chega a uma superfície como se fosse um chuvisco de partículas.

Compreender como a luz pode ser tanto uma onda electromagnética quanto, ao mesmo tempo, um enxame de fotões exigirá a completa construção da mecânica quântica. (Carlo Rovelli, Reality Is Not What It Seems: The Journey to Quantum Gravity)

Deve-se a Max Weber a constatação de que no Ocidente se teria dado um processo de desencantamento do mundo. Isso significa, ao nível religioso, a mitologia e as práticas mágico-rituais teriam sido substituídas por práticas de carácter ético. Um factor central neste processo de desencantamento do mundo foi a emergência da ciência moderna a partir da revolução científica dos séculos XVI e XVII. A ciência teria substituído as interpretações míticas e metafísicas do mundo por um saber positivo, fundado na aliança entre a experiência e a razão.

Se se ler com atenção o texto, citado em epígrafe, do físico italiano Carlo Rovelli descobrimos que talvez a morte do mundo encantado tenha sido uma notícia precipitada. Observe-se a estratégia que ele segue para falar da luz. Num primeiro momento, utiliza o tropo da comparação. A luz é como um chuvisco de partículas. Dá a ver aquilo que é invisível aos nossos olhos, a luz, através da comparação com um fenómeno físico, o chuvisco, um pequeno aguaceiro. O mundo desencantado da ciência toma agora uma coloração que o reabre ao encantamento.

O processo, porém, está apenas no seu início. À comparação segue-se a metáfora. A luz é um enxame de fotões. Ao tentar tornar intuitiva a compreensão de um fenómeno que os nossos sentido são incapazes de perceber, Rovelli não tem outra solução que não a de retornar ao território encantado do mito. E esse retorno é intensificado pelo resultado do uso da metáfora. Dizer que a luz é um enxame de fotões implica arrastá-la para o território do animismo. Podemos agora imaginar a luz como sendo constituída por exércitos de abelhas – ou vespas – luminosas. Nada que o mito, nos tempos encantados pré-modernos, não tenha feito.

Tudo isto permite compreender a possibilidade de perceber o mito, a magia, o encantamento religioso e a própria especulação metafísica como tendo origem não num não saber, numa ignorância fundamental do real ou numa desatenção à experiência, mas na faculdade humana da linguagem e da sua constituição intrinsecamente tropológica. O encantamento do mundo é o resultado de nós, seres humanos, possuirmos linguagem, uma linguagem sempre equívoca, onde as ditas figuras de estilo, ou tropos, são o elemento central. Mal usamos a palavra, o mundo encanta-se. E não há positivismo, moralização da religião, desconstrução dos mitos ou definição conceptual que possa alguma coisa contra o poder encantatório da linguagem. Enquanto o homem for um ser de linguagem, o mundo nunca deixará de se encantar.

terça-feira, 27 de junho de 2017

Um Deus pessoal

Leonardo da Vinci - Vitruvian man

Há em todos nós – talvez esta generalização não seja precipitada – um persistente e melancólico desejo de que os outros sejam melhores. Mais civilizados, mais honestos, mais atenciosos, mais competentes. Nunca as qualidades e as virtudes dos outros, por maiores que sejam, são suficientes para fazer esquecer a sombra viciosa que os toca aos nossos olhos. Este desejo de perfeição do outro não hesita em tomar palavra e desdobrar-se em textos e proclamações orais. A contrapartida disto não é menos interessante. Olhamos para nós, quando o fazemos, e o desejo de perfeição cessa. Os nossos vícios são, aliás e sabiamente, virtudes. É uma dupla graça que recebemos de Deus. Não só nos dotou com um olhar agudo com que perscrutamos o vício alheio como, ao criar-nos à sua imagem e semelhança, não se esqueceu, ao contrário do que aconteceu com os outros, de derramar em nós a sua ilimitada perfeição. Não há nada como um Deus pessoal, pensamos gratos.

segunda-feira, 26 de junho de 2017

Tentações igníferas

Gustavo Torner - Átomos - Los Cuatro Elementos. Fuego (1986)

Quando se tornou patente a enorme desgraça que se abatera em Pedrógão Grande percebeu-se, não através do discurso oficial mas do rumor militante das redes sociais, que a direita tudo iria fazer para lançar uma nova fronda. O terrível do acontecimento seria uma oportunidade, se não para liquidar de vez o odiado António Costa, para o desgastar de forma irremediável. Com o passar dos dias, esse rumor começa a tentar estruturar-se nos agentes políticos. Veja-se o infeliz caso dos suicídios invocados por Passos Coelho (ver aqui) ou a intervenção na televisão do angélico Marques Mendes. Apesar do assunto ser de tal maneira melindroso e ameaçar incinerar quem o transformar em mais um episódio da batalha pelo poder, a tentação, devido à espectacularidade das consequências, é muito grande. Neste momento, governo e oposição ponderam como limitar os danos políticos ou tirar proveito do acontecido. Nem uns nem outros pensam noutra coisa.

O problema para as elites políticas - aquelas que nos têm governado em democracia - é que todas elas são responsáveis por decisões e omissões que contribuíram para criar condições para que acontecessem fenómenos como os de Pedrógão Grande. O caso SIRESP, a crer no que a imprensa tem relatado, é um exemplo - um pequeno exemplo - desse conluio de irresponsabilidade que une, muito para além das diferenças de cor partidária, as várias governações. Exceptuando os que possuem identidades e inclinações políticas mais definidas e militantes, a generalidade das pessoas percebe isto. No entanto, o problema é mais complexo. Não são apenas as decisões políticas e a eventual inépcia técnica as responsáveis. Há todo um modo de vida que se instalou no país, partilhado por cidadãos e dirigentes, que contribui para que acontecimentos destes tenham um tão terrível desfecho.

O pior que poderá acontecer é que a desgraça de Pedrógão Grande se transforme no início de uma batalha pelo poder. Não porque a direita possa ganhá-la. Não porque a esquerda possa ganhá-la. Fundamentalmente, porque isso ofuscará o que está em jogo. E o que está em jogo são as opções que têm sido tomadas ao longo de muitas décadas por múltiplos governos. O que está em jogo é a natureza do funcionamento das nossas instituições, a sua fragilidade estrutural. O que está em jogo é a própria atitude dos cidadãos. Enfrentar estes problemas - que nascem de hábitos implantados e bem consolidados - é muito mais difícil e desagradável do que lançar uma fronda e combater nela. 

Em última análise, essa fronda seria benéfica para o governo e para a oposição. Asseguraria que o essencial se manteria tal como está. Evitaria que se enfrentassem os problemas difíceis e se tomassem decisões desagradáveis, muito desagradáveis, que poriam a nu a natureza maléfica de muitas opções do passado e do presente, que chocariam com os interesses instalados e que seriam contestadas pelos próprios cidadãos. Passado o impacto do momento, o mais provável é que o instinto político dos protagonistas evite enfrentar o desagradável e a tentação frondista se imponha - de início, com certo cuidado - para ocultar os reais problemas que se manifestaram no incêndio de Pedrógão Grande.

sábado, 24 de junho de 2017

A doença do optimismo

Pablo Picasso - Cabeza de hombre (1969)

Um dos argumentos que a direita, entre ela os liberais mas não só, com mais pertinência usou contra o marxismo e as suas pretensões foi o da risibilidade do optimismo antropológico inerente às crenças socialistas e comunistas. Crer que a maldade humana é o fruto de uma sociedade classista e com o fim desta - e da propriedade privada dos meios de produção - essa maldade desapareceria para dar lugar a uma espécie de paraíso na terra, no qual a própria política perderia sentido, é acreditar numa fantasia que nenhum facto corrobora ou sequer indicia.

O mais espantoso é que o cepticismo antropológico que a direita, com acuidade e justeza, dirigiu à utopia marxiana se transforma num complacente optimismo perante a iniciativa privada, o mundo dos negócios, a liberalização e desregulação de tudo e mais alguma coisa. Nem os mais patentes casos de polícia e as desgraças disseminadas que tomam o nome de crises são factualidade suficiente para que a direita se recorde do pessimismo antropológico com que enfrentou o marxismo.

Ora um pessimismo persistente sobre a natureza dos homens é a melhor maneira de tornar a vida civilizada. A civilidade não nasce porque acreditamos na bondade do homem, mas porque desconfiamos dele, das suas intenções e das consequências dos seus actos. Só um pessimismo antropológico persistente suporta, em todas as áreas, políticas prudenciais que limitam sonhos (isto é, desejos de triunfar sobre os outros) e utopias (e como se sabe há utopias comunitárias e utopias individuais). A prudência não resolve tudo, porque há coisas que ultrapassam a medida e o poder dos homens, mas pode impedir que certas catástrofes se tornem um drama sem fim.

Por detrás dos acontecimentos de Pedrógão Grande há um longo percurso fundado no optimismo antropológico, na crença na bondade dos interesses e desejos dos homens. O resultado foi um comportamento generalizado onde a prudência esteve longe, muito longe, de ser preocupação dos políticos (não apenas dos vários governos, mas de vários regimes), dos empresários que vivem da floresta, das instituições e das próprias pessoas. Por norma, estas coisas não se notam, mas há momentos, como o actual, em que tudo se conjuga para tornar patente que a nossa conduta é há muito, e também agora, errada e viciosa.

Aprendemos alguma coisa? Obviamente que não. Iremos passar o tempo a discutir questões técnicas e a tentar tirar proveito político. As facas estão já a ser afiadas e a natureza dos bandos, passado o pudor inicial, virá ao de cima. Não é porque 64 pessoas morreram e arderam uns milhares de hectares que o optimismo antropológico inerente às várias seitas e capelas em confronto irá ser abandonado. Claro que alguma coisa irá mudar, mas apenas para que, como ensinou Tomasi di Lampedusa, tudo continue na mesma. Amanhã outra coisa qualquer ocupará o lugar da indignação, que é a reacção sentimental e naïf pela falência da crença na bondade do homem, no optimismo antropológico.

sexta-feira, 23 de junho de 2017

A Flor Precária 7. A morte espreita na soleira da porta

Odilon Redon - The Masque of the Red Death (1883)

7. A morte espreita na soleira da porta

A morte espreita na soleira da porta,
ergue-se nas ruínas do calendário,
fruto na boca cansada de erva.

Vem vestida de ócio e larvas no olhar.
Vem no carro triunfante de deusa.
Vem no ruído da árdua e escura clareira.

(A Flor Precária, 1979)

domingo, 11 de junho de 2017

Angela Merkel

A minha crónica no Jornal Torrejano.

O comportamento do presidente Donald Trump na sua estadia em solo europeu teve a utilidade de mostrar que a defesa europeia, através da NATO, se encontra nas mãos de alguém que não é minimamente previsível, sem quaisquer princípios políticos ou, tão pouco, sentido de Estado e das conveniências. A presidência americana não está nas mãos dos republicanos, mas de um self made man sem pedigree político nem humildade para perceber a natureza do jogo perigoso que está a jogar. Isto parece entusiasmar intensamente os amantes de aventuras radicais e os adeptos da teoria de quanto pior, melhor. Para as pessoas sensatas é, todavia, um perigo, pois confirmou-se que o amigo americano nos voltou as costas. Este corte pode, contudo, ser uma oportunidade para o projecto europeu.

Depois do brexit e da visita de Trump, a União Europeia encontra-se numa encruzilhada. Pode ceder à pressão anglo-americana e entrar num processo de autodestruição ou pode encontrar, na nova situação, o combustível para refazer esse projecto e dar passos na consolidação da União como um dos grandes pólos da política mundial e não apenas um espaço comercial mais ou menos rico e apetecível. O retorno às velhas soberanias, tentador em sectores cada vez mais largos dos eleitorados, não será apenas um problema económico derivado da destruição do grande mercado europeu. Será o retorno aos nacionalismos e às velhas rivalidades que conduziram o mundo a duas guerras mundiais. Será também a condenação das nações europeias à irrelevância geopolítica. O projecto europeu continua a ser a única alternativa credível a uma decadência irreversível de parte substancial das nações europeias.

Esse projecto precisa de um conteúdo e de uma liderança forte. Quanto ao conteúdo, ele deve ter, agora que os americanos voltaram as costas, um pilar militar estruturante de uma defesa comum credível. Deve, por outro lado, continuar o processo de modernização das economias e dos estados europeus e, ao mesmo tempo, estabilizar os diversos estados sociais. Primeiro, como forma de reforço da coesão interna através do compromisso dos cidadãos com a União e, depois, como barreira ao crescimento eleitoral dos nacionalismos. Estes conteúdos – que não geram consensos facilmente – precisam de uma forte liderança política. E no actual quadro, tendo em conta os dirigentes políticos existentes, a liderança digna desse nome e com capacidade para dar um rumo à União Europeia é Angela Merkel. A chanceler alemã parece ser a única personagem política europeia que detém a autoridade e a força políticas para evitar a queda no abismo e encontrar um caminho de redenção do projecto europeu.

sábado, 10 de junho de 2017

Esperança

A minha crónica em A Barca.

Portugal vive tempos mais confortáveis. Algumas vitórias internacionais em vários domínios, o controlo do défice, animação na economia, com especial destaque para o turismo, onde se soube aproveitar – o que não é mérito pequeno – a crise por que passa o Médio Oriente. O estado de espírito da comunidade é, hoje em dia, diferente do de há uns tempos. Contrariamente ao que defendem alguns, ressentidos pelo simples facto de actual solução governativa ter sido capaz de dar credibilidade a si mesma e ao país, o que se está a passar não é uma mera ilusão. O êxito de um país, contudo, deve-se sempre à conjugação do esforço da comunidade e à iniciativa dos indivíduos.

Devemos ter a noção clara de que a situação continua difícil. O problema da dívida não deixou de existir, a situação internacional é problemática, a competitividade das empresas está longe do necessário, a modernização do Estado é incipiente, a demografia não ajuda, temos uma larguíssima fatia dos portugueses a viver no limiar da pobreza e uma parte não despicienda da população em idade activa não possui nem qualificações nem formação necessárias para enfrentar as duras exigências da economia globalizada. Do ponto de vistas da cultura da comunidade, existem também obstáculos a que possamos ir mais longe. A  inveja e o desprezo pelo mérito continuam muito arreigados, assim como a pouca iniciativa dos indivíduos, os quais confiam mais na cunha do que no mérito próprio.

Este quadro de dificuldades não tem de nos ofuscar e eliminar o princípio de esperança que deve orientar o país. Essa esperança, contudo, não deve ser encontrada em grandes decisões dramáticas, em opções radicais que ponham em causa o conjunto de compromissos que o país possui. Essa esperança, para ser efectiva, terá dois pilares. O primeiro diz respeito à política. Continuar o actual trabalho de quadratura do círculo. Conseguir, ao mesmo, tempo cumprir os compromissos internacionais e evitar que grandes e graves clivagens cresçam na comunidade nacional. O segundo tem de vir da sociedade civil. Esta deve tornar-se mais autónoma, cultivar o espírito de iniciativa e valorizar o mérito. O alicerce desta esperança estará menos no futebol, na eurovisão e mais, muito mais, nas novas empresas que se afirmam no mercado internacional e nas equipas de cientistas que continuam a trazer muitos milhões de euros em projectos de investigação para Portugal. O alicerce da esperança é a vontade de correr riscos, a valorização do mérito e o fomento do conhecimento.