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| Ernst Haas, Homecoming soldier, Vienna, 1946-1948 |
segunda-feira, 22 de novembro de 2021
O progresso moral da humanidade (4)
sábado, 20 de novembro de 2021
Vírus, clima, PSD e futebol
1. O vírus resiste. Depois de uns meses de acalmia, volta o espectro do confinamento. Isto apesar da vacinação em Portugal ter corrido muito bem. O problema é que a vacinação, embora sendo uma condição necessária para combate à COVID-19, não é suficiente. A etiqueta introduzida pela pandemia – lavagem frequente das mãos, uso de máscara e afastamento entre pessoas – continua a ser necessária. Veremos se este ano, com as festividades do Natal e do Ano Novo, não se cometem os erros que se cometeram o ano passado. O vírus não está derrotado. Resiste.
2. Cimeira do clima. Sempre que há uma cimeira referente aos problemas do clima deparamo-nos com uma enorme expectativa inicial e uma desilusão no fim. A deste ano não foi excepção. Os países mais populosos do mundo precisam de carvão. Sem ele, muito provavelmente, os respectivos regimes políticos implodiriam. A implosão dos regimes chinês e indiano poderia ser também uma enorme catástrofe. Talvez valesse a pena congregar esforços e dinheiro na ciência e na tecnologia – tal como aconteceu com a vacina contra a COVID-19 – para apressar a eficiência e a disponibilidade de energias menos sujas que o petróleo e o carvão.
3. O PSD. Olha-se de fora para o principal partido da oposição e um dos construtores do regime democrático e fica-se perplexo. Tanto Rui Rio como Paulo Rangel acabam por ser estranhos figurantes. Rio é um actor que, ao fim de todos este tempo, ainda não encontrou o seu papel. Rangel, por seu lado, está convencido de ter um papel, mas não parece ter dimensão para o que deseja. Não haverá mais ninguém no PSD para dar rumo ao centro-direita? Quem se ri é André Ventura. O seu grande inimigo, de momento, é o PSD. Depois de ter dizimado o CDS, sonha fazer o mesmo ao PSD. É possível que o aumento exponencial que se espera de deputados do Chega seja feito à custa da bancado do PSD.
4. Portugal – Sérvia. Uma confissão, para começar. Não percebo grande coisa de futebol. Em tempos gostei do jogo, hoje é-me quase indiferente. A meio da primeira parte do Portugal-Sérvia, decidi abrir a televisão e ver a partida. Fiquei sempre com a sensação de que a Sérvia tinha mais três ou quatro jogadores que Portugal. Onde estivesse a bola, havia muito mais sérvios que portugueses. Depois, ao contrário dos portugueses, os sérvios queriam mesmo ganhar o jogo. Só vi uma selecção em campo, a que ganhou. Embora não baste, para ganhar é preciso ter vontade de o fazer. Nunca percebi isso nos jogadores portugueses.
quinta-feira, 18 de novembro de 2021
A persistência da memória (5)
Irving Penn, Four Guedras (Morocco) 1971 |
segunda-feira, 15 de novembro de 2021
A Garrafa Vazia 71
sábado, 13 de novembro de 2021
Simulacros e simulações (28)
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| Alexej Titarenko, Saint Petersburg, 1999 |
quarta-feira, 10 de novembro de 2021
Ensaio sobre a luz (92)
segunda-feira, 8 de novembro de 2021
Nocturnos 68
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| Robert Frank, Fourth of July, Coney Island, 1958 |
sábado, 6 de novembro de 2021
Quem paga a conta do chumbo do orçamento?
Julgo que os eleitores tanto do BE como do PCP não compreendem as razões
que levaram ao chumbo do Orçamento de Estado. Quando falo em eleitores desses
partidos não me estou a referir aos militantes e simpatizantes partidários que
rodeiam esses militantes, mas às pessoas que votam nesses partidos não por fé
ideológica, mas porque acham que eles são instrumentos para a defesa dos seus
interesses e do bem comum. Nos eleitores de esquerda, incluindo os do PS, havia
a expectativa da continuidade do governo, de uma gestão equilibrada do período
pós-pandemia, se é que estamos em período pós-pandemia, e o que menos queriam
era eleições. O orçamento, tal como estava, não representava um ónus para as
classes populares e médias. Pelo contrário.
Nunca haverá consenso sobre quem teve a culpa da ruptura. Os socialistas dirão que se esforçaram o máximo para satisfazer as exigências à sua esquerda, dentro dos apertados limites impostos pela situação do país, mas que os partidos à sua esquerda colocaram os interesses partidários à frente dos do país. BE e PCP argumentarão que, no fundo, as eleições são desejadas por António Costa, pois este almeja uma maioria absoluta. É irrelevante saber quem tem razão. Como o professor Salazar muito bem sabia, em política aquilo que parece é. E aquilo que parece, a narrativa, para usar uma expressão em moda, mais forte é aquela que tende a dizer que o orçamento foi chumbado – e vamos a eleições, como avisou o PR – por culpa do BE e do PCP. Isto pode não ser completamente verdade, mas parece que é. E é isso que conta.
Do ponto de vista eleitoral, há duas incógnitas relativas ao comportamento dos eleitores. Estes limitar-se-ão a penalizar os aparentes culpados do chumbo do orçamento, BE e PCP, ou tenderão a penalizar a esquerda no seu conjunto, oferecendo uma vitória à direita, mesmo que esta esteja desconjuntada? Uma coisa esta história já assegurou, a não ser que haja um milagre. O Chega vai tornar-se o terceiro partido em peso eleitoral. Veremos até que ponto os eleitores se lembram dos tempos de Passos Coelho. É um facto que Rui Rio não é Passos Coelho, tem uma disposição mais social e poderá ser mais cauteloso na penalização dos mais frágeis e das classes médias. Nada assegura, todavia, que seja Rui Rio o chefe da direita nas próximas eleições. É possível que o PSD se entregue a Rangel e com este virá toda a tralha ultraliberal de que a geringonça nos tinha libertado. Se a direita ganhar as eleições, o BE e o PCP terão contas muito desagradáveis a prestar aos seus eleitores e ao povo de esquerda, digamos assim.
quarta-feira, 3 de novembro de 2021
A Garrafa Vazia 70
segunda-feira, 1 de novembro de 2021
Orçamento, uma convergência à esquerda
O BE talvez imagine que poderá recuperar a sua antiga imagem de partido jovem, rebelde e movido por causas. O PCP imaginará que voltará a adquirir o seu estatuto anterior à geringonça e apagar a imagem de muleta do PS. Os socialistas fantasiam que mais vale ir a eleições agora, enquanto o PSD está à procura de rumo, do que daqui a um ano, com a direita com a casa arrumada. Pensam ainda que poderão ter o bónus de se livrarem da companhia do PCP e do BE. Não se sabe, no cálculo dos partidos, quanto há de ilusório, mas só um ingénuo acreditará que o chumbo do orçamento se deve ao orçamento.
Se a crise nada tem a ver com o orçamento, o chumbo deste mostra uma outra coisa. A impossibilidade de a esquerda, na sua pluralidade, oferecer uma política coerente para governar o país nas condições em que ele se encontra. E que condições são essas? Pertença à União Europeia e ao Euro, compromissos drásticos com a dívida e uma orientação do mundo para uma visão liberal da economia e das relações laborais. Seis anos não foram suficientes para a esquerda, na sua pluralidade, oferecer um projecto viável para reformar o país. A experiência de 2015 salda-se, deste modo, num rotundo fracasso e mostra aos eleitores que não há um projecto das esquerdas para a governação.
Apesar de a direita estar à procura de rumo, pode acontecer que os cidadãos fiquem zangados com a esquerda, os seus jogos florentinos, a sua real impotência, e a castiguem, como aconteceu nas autárquicas de Lisboa. Pode acontecer que o mirífico Plano de Resiliência e Recuperação mude de administrador, o que daria à direita uma perspectiva de muitos anos na governação. À esquerda brinca-se aos feitiços, mas nada garante que estes não se virarão contra os feiticeiros. Ninguém pode prever, neste momento, a resposta do eleitorado, nem o sentimento de decepção e desânimo que o chumbo do orçamento trará aos eleitores de esquerda, que se sentirão traídos. A traição aos seus eleitores, eis a autêntica convergência das esquerdas nacionais.
sábado, 30 de outubro de 2021
O amor ao clima
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| Pedro González, Carros, 1995 |
quinta-feira, 28 de outubro de 2021
O gato de Schrödinger e o chumbo orçamental
terça-feira, 26 de outubro de 2021
Nocturnos 67
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| Elliott Erwitt, Arkansas, 1954 |
domingo, 24 de outubro de 2021
A Garrafa Vazia 69
sexta-feira, 22 de outubro de 2021
Orçamento, um triste espectáculo
Vale a pena lembrar dois acontecimentos. O primeiro é o caso Syriza, na Grécia. Chegou ao poder para introduzir um conjunto de rupturas com o Euro, a União Europeia, etc. No momento em que tiveram de tomar uma decisão de rompimento, os dirigentes perceberam que a alternativa seria uma catástrofe para os gregos, muito pior do que as exigências de Bruxelas. Tiveram o bom-senso de compreender a realidade e de se adequar à máxima de que a política é a arte do possível. Num mundo global não existe lugar algum, a não ser o inferno, como alternativa àquele onde se está. Essa ideia do socialismo como alternativa ao capitalismo está morta há muito. A certidão de óbito foi passada em 1989, e nessa altura há muito que o cadáver cheirava mal.
O segundo acontecimento é recente e passou-se em Lisboa, nas eleições autárquicas. A divisão das esquerdas ofereceu a câmara da capital à direita, dando-lhe uma plataforma para reanimação e, muito possivelmente, saída do estado catatónico em que se encontrava. Existe em largos sectores da esquerda a crença ilusória de que ela será sempre maioritária no país, que haverá sempre uma geringonça para evitar dores de cabeça. É uma crença falsa. Os eleitores cansam-se e procuram novos caminhos. É a virtude da democracia.
O triste espectáculo actual em torno do orçamento pode muito bem ser o prelúdio de que as coisas estão a mudar e não há vontade nem imaginação para encontrar um caminho sólido à esquerda. Os socialistas esperam que os dinheiros de Bruxelas os ajudem a manter-se no poder. Não aprenderam com Lisboa. À sua esquerda parece não haver uma política para o país, mas apenas um conjunto de reivindicações sectoriais e linhas vermelhas que servem para a barganha orçamental, uma tentativa de segurar eleitorados, mas não são uma ideia realista para Portugal. Tudo isto se paga.
quarta-feira, 13 de outubro de 2021
Um olhar sobre as eleições concelhias
Antes das últimas eleições autárquicas, pensava que os resultados do PS e da lista de António Rodrigues (AR) estariam muito mais próximos, não descartando a possibilidade de este retornar à presidência do município. Pensava que ele teria uma maior capacidade de penetração no eleitorado socialista, assim como no da direita concelhia. Pensava ainda que o BE e a CDU seriam menos afectados pela candidatura de AR que o PSD-CDS. Estas crenças baseadas na intuição revelaram-se todas completamente erradas. AR não teve qualquer capacidade de penetrar no eleitorado de direita. Esta, no seu conjunto (com Chega e IL), alcançou mais 389 votos do que em 2017. Também não teve capacidade para dividir o eleitorado socialista. O PS perdeu um pouco menos de mil votos (11,2%) em relação a 2017. Onde AR teve capacidade de penetrar fundo foi nos eleitorados do BE e CDU. O BE perdeu 1303 votos (52,2%) e a CDU, 558 votos (34,7%). A soma dos votos perdidos pelo PS, BE e CDU perfaz, quase na totalidade, a votação obtida por AR.
Estes resultados tornam patente, em primeiro lugar, que grande parte do eleitorado está contente com a governação socialista do município e que sufraga o seu programa para os próximos 4 anos. Em segundo lugar, a direita concelhia, apesar de mais dividida, conseguiu estancar a perda continua de eleitorado. Em terceiro lugar, a figura política de António Rodrigues é muito menos atractiva do que se imaginava. Em quarto lugar, o eleitorado deu uma nota negativa muito forte às políticas autárquicas do BE e da CDU, dispensando a sua presença no executivo e reduzindo-a na Assembleia Municipal. Do ponto de vista puramente político, não da gestão do município, os próximos quatro anos colocam alguns problemas interessantes. Como vão os socialistas gerir a substituição de Pedro Ferreira? Terá o PSD uma oportunidade para reaver uma câmara perdida há muito? A perda de votos de BE e CDU foi conjuntural, efeito de AR, ou será estrutural?
terça-feira, 5 de outubro de 2021
Virtudes Militares
Liderar a vacinação em massa da população não exigirá a coragem requerida pelos campos de batalha, mas necessita de outras virtudes existentes na instituição militar. Disciplina, organização, rigor, definição de objectivos realistas, espírito de missão e, acima de tudo, espírito de serviço à comunidade. Quem observa o processo de vacinação fica com a nítida impressão de que o líder da task-force possuía todas essas virtudes, as quais são trabalhadas e desenvolvidas pela instituição militar. Levou-as para o terreno, liderando o processo como se ele fosse uma batalha decisiva contra um inimigo astuto e cruel. Num tempo em que os valores correntes na sociedade são os do interesse pessoal e da sobreposição deste aos interesses da comunidade, é reconfortante ver a acção de alguém que evidencia como valor supremo o espírito de serviço.
Como em todo os lugares, também nas Forças Armadas haverá gente venal, que tenta tirar partido pessoal do lugar onde se encontra, por vezes infringindo a própria lei. O ethos da instituição, porém, não é esse, mas o de servir a comunidade até ao sacrifício supremo, se for esse o caso. Muitas vezes, isso é esquecido. O exemplo do processo de vacinação deveria acordar a sociedade portuguesa não para o desejo de ser governada por militares – o que envergonharia militares e civis – mas para o bem que seria a comunidade deixar-se contaminar pelas virtudes militares exibidas por Gouveia e Melo. Repito-as, disciplina, organização, rigor, definição de objectivos realistas, espírito de missão e espírito de serviço. Tornariam a sociedade mais forte e os indivíduos mais capazes e mais exigentes consigo e com aqueles que governam. É possível – ou provável –, porém, que não se tire qualquer lição do exemplo que tem sido dado a todos. Infelizmente.
sábado, 25 de setembro de 2021
A disciplina de Ciência Política
Desde o ano lectivo de 2016/17, apenas com uma interrupção no ano passado, tenho feito uma experiência, enquanto professor, muito interessante. Lecciono a disciplina de opção, no 12.º ano, de Ciência Política. Tem um programa muito bem elaborado, que foca os principais temas do funcionamento da política de forma objectiva e sem fazer catequese ideológica. Em Ciência Política, o professor ajuda os alunos a olhar o fenómeno político de forma ampla e distanciada. Não para os manter afastados da cidadania e da política, mas para lhes dar uma compreensão profunda desse mundo e, assim, torná-los cidadãos mais competentes e, caso o decidam, actores políticos com uma preparação mais elevada. Se os Ministérios da Educação dos diversos governos estivessem realmente interessados numa formação cívica não catequética dos alunos, teriam na Ciência Política, tornando-a obrigatória no 12.º ano, um instrumento de alta qualidade.
Haveria, contudo, que ter em consideração alguns aspectos essenciais. Em primeiro lugar, a garantia contínua da cientificidade do programa, sem permitir que ele se tornasse catequese partidária. Se queremos formar cidadãos e jovens políticos, então há que ensinar-lhe a olhar objectivamente a política. Em segundo lugar, tornar a disciplina não em mais uma que está sujeita a exame e aos rituais tradicionais de avaliação e transmissão de conhecimento, mas num lugar de novas experiências pedagógicas, onde os alunos desempenhassem um papel importante na forma como se trabalha o currículo e como este é ligado à realidade. Em terceiro lugar, uma séria formação dos professores capazes de leccionar a disciplina. Formação técnico-pedagógica, formação científica, formação política e formação ética. A disciplina de Ciência Política, no 12.º ano, altura em que os alunos estão a atingir a maioridade, seria um instrumento curricular poderoso na formação cívica das novas gerações. Objectiva e sem catequese ideológica.
sábado, 11 de setembro de 2021
Qual o perigo da direita populista?
O que torna a democracia liberal um regime virtuoso é o facto de o poder estar dividido e de todos os responsáveis políticos estarem submetidos à lei. O poder democrático está divido em legislativo, executivo e judicial. Apesar de haver uma relação de proximidade entre os poderes legislativo e executivo, a questão central está na completa independência do poder judicial. Nenhum governante tem capacidade para perseguir por motivos políticos um opositor ou qualquer outra pessoa – onde se inclui o leitor – utilizando o poder judicial.
Se queremos perceber o que pretendem estes movimentos da direita radical, o primeiro sítio para onde devemos olhar é para o Absolutismo, onde o Rei concentrava nas suas mãos todos os poderes. A democracia e o Estado de direito nasceram contra o Absolutismo. Não é que estes movimentos sejam monárquicos, mas pretendem concentrar nas mãos do líder todos esses poderes, através de um processo de desgaste contínuo das instituições democráticas. Este é o ideal regulador de todos os movimentos populistas, à direita e à esquerda.
Se o Absolutismo político é uma realidade distante, encontramos exemplos de como certos regimes políticos actuais aniquilaram ou reduziram drasticamente a divisão de poderes que permite aos cidadãos viver em paz e sem medo. Rússia, China, Irão, Venezuela, Coreia do Norte, Turquia, etc. Os problemas que têm surgido com a Polónia e a Hungria estão relacionados com tentativas de submeter o poder judicial ao executivo. Os ataques de Bolsonaro ao Supremo Tribunal Federal pertencem à mesma estratégia.
Quando em Portugal se fala em pôr fim ao regime ou se louva um putativa IV República é disto que se trata. Encaminhar o país para uma situação em que o detentor do poder político consiga dominar os poderes legislativos e judiciais, em que o líder esteja acima da lei. Sempre que isto acontece, existem perseguições, violência, eliminação de direitos civis e políticos. Instaura-se uma ditadura, mesmo que haja um simulacro de democracia. Os defensores desses movimentos deveriam estudar o que lhes pode acontecer. Uma das coisas que os tiranos mais gostam é de eliminar quem os ajudou a chegar ao poder.
quinta-feira, 2 de setembro de 2021
E alterar drasticamente o estilo de vida?
As alterações climáticas e a degradação ambiental devidas à acção humana estão directamente ligadas ao estilo de vida que se tornou prevalecente no mundo. Se olharmos para os países ricos, nenhum partido que queira ganhar eleições se propõe baixar o nível de vida dos cidadãos, diminuir a riqueza produzida, tornar as pessoas menos aptas a consumir. Pelo contrário, aquilo em que os cidadãos votam é no crescimento económico, no aumento dos rendimentos individuais, na democratização plena dos consumos. Ninguém vota sequer numa democratização do empobrecimento, que afectaria todas as classes sociais. Quanto aos países pobres, os seus cidadãos desejam copiar os dos países ricos e assim consumir segundo o desejo de cada um. Todas as promessas governamentais de combate às alterações climáticas são falsas. Os governos não têm capacidade para fazer aquilo que ninguém quer: alterar drasticamente o estilo de vida.
Há ainda um outro problema. Expressa-se na seguinte proposição: as alterações climáticas são inevitáveis, muitas zonas da Terra podem tornar-se inabitáveis ou com condições de vida muito rigorosas, então há que tomar posse dos lugares onde a vida humana poderá ainda ser vivida sem grandes incómodos. Este tipo de pensamento nunca é expresso. Contudo, ele dirige já a acção de muitos seres humanos, fundamentalmente das classes privilegiadas e com maior responsabilidade no aquecimento global. Iremos assistir a uma intensificação da luta de classes, não no sentido da tradição marxista, mas de uma forma muito mais radical. Não se trata agora de uma disputa sobre meios de produção e rendimentos, mas de uma autêntica guerra sobre os melhores lugares para viver, aqueles que estarão mais abrigados dos efeitos destrutivos das alterações climáticas, deixando para os perdedores os lugares onde a vida será cada vez mais infernal. Estamos a caminhar para tornar as distopias ficcionais em realidade viva.








