quinta-feira, 2 de junho de 2016

A Feira Quinhentista


A minha crónica no Jornal Torrejano.

Este ano o Município de Torres Novas leva a efeito, pelo sétimo ano consecutivo e no âmbito das Memórias da História, a recriação ficcional de um dos momentos importantes da história do concelho. Não é do seu tema – D. Jaime de Lencastre no tempo das Confrarias –, do qual nada sei, que quero falar mas deste tipo de eventos. Há quem veja neles quase uma encarnação do mal absoluto, uma distorção da verdadeira História e, além do mais, um malbaratar de dinheiros públicos. Apesar de não frequentar este tipo de eventos, percebo muito bem a sua pertinência.

Na verdade, ninguém quer fazer destas feiras reconstituições históricas efectivas e com valor científico. Estes acontecimentos não pertencem ao domínio da ciência histórica e da alta cultura mas à indústria cultural e ao entretenimento. Ninguém que os frequente pensará que está a reviver literalmente a época que eles referem. Estamos perante ficções light, as quais não deixam, porém, de ter um importante papel político e social.

Do ponto de vista político, o que emerge, ao primeiro olhar, é que este tipo de festividade é uma consagração do poder do momento. Aparentemente, é. Mas só na aparência, pois ninguém ganha eleições por promover estas iniciativas. A importância política vem, de facto, de outro lado. Estas feiras fazem parte de um sistema de reforço das identidades locais e representam uma forma de as manter viva contra a erosão do tempo e as dinâmicas da modernização. Este reforço faz-se pela convergência do apelo à grandeza passada e pela iniciativa do presente. Ao lembrar o passado, o concelho torna-se mais vivo no dia de hoje.

Por outro lado, a importância social não é menor que a política. Estamos perante uma festa cívica. Curiosamente, é uma festa cívica que mobiliza as pessoas em vez de as afastar. Quem vai a este tipo de entretenimento obtêm dois tipos de satisfação. Em primeiro lugar, a participação propriamente dita na festa, o encontro com o outro, o reforço do laço cívico. Em segundo lugar, por muito ficcionais que estes acontecimentos sejam (e são-no), eles fornecem uma consolação ao nosso desejo, insaciável e irrealizável, de uma memória histórica que enquadre a nossa existência precária. E é nisto, que não é pouco, que reside a pertinência e a importância destas festas.

quarta-feira, 1 de junho de 2016

Escola pública

Juan Botas - School (1989)

A minha crónica de Maio em A Barca.

O braço-de-ferro entre o governo e os colégios privados que beneficiam de contratos de associação tem várias nuances, algumas das quais não estão a ser devidamente equacionadas. É verdade que, do ponto de vista do interesse público, não se percebe por que motivo, contrariando a Lei de Bases do Sistema Educativo, deve o Estado financiar escolas privadas quando, na sua zona, existem escolas públicas. É evidente que aquilo que o anterior governo fez, abrir esse financiamento a colégios onde existe oferta pública, tinha um claro objectivo político de desvalorizar as escolas estatais e, paulatinamente, entregar os dinheiros públicos a entidades privadas, enquanto deixava morrer o sistema público de ensino.

O principal problema, porém, vem de outro lugar e de uma ideia que está a ser passada com muita eficácia para a opinião pública. Em situações de igualdade de custos, as pessoas preferem, para educar os seus filhos, os colégios privados às escolas públicas. Estão convictas – e pouco importa que isso corresponda à verdade – que os colégios privados fornecem uma melhor educação do que a escola pública. Esta ideia vem fazendo o seu caminho há longos anos, tem um lobby poderoso e persistente por trás, muitos políticos e comentadores comprometidos com ela. Mesmo que não corresponda à verdade (e não corresponde), mesmo que o governo ganhe este conflito, a escola pública perdeu nestas últimas semanas. Quem observa a política, compreende que, num futuro retorno da direita ao poder, a escola pública será trucidada. Ficará apenas para aqueles que os colégios privados rejeitarem.

Temo que a esquerda preocupada com os contratos de associação não perceba o que está em jogo. E o que está em jogo é a defesa da qualidade na escola pública. Isso não se faz pondo fim a exames, inventando tutorias, e aumentando, mais uma vez, os controlos burocráticos da escola, que é o que está prestes a acontecer. É preciso olhar para a realidade e para aquilo que está a degradar a imagem da escola pública. Não basta a retórica da escola inclusiva. Que fazer com os alunos que sistematicamente boicotam as actividades lectivas e que a escola pública não pode pôr fora? Como resolver esse problema? Como dinamizar novas práticas lectivas e formas de aprendizagem, se tudo está pensado – desde o controlo central das escolas até à complacência na formação e recrutamento de professores, passando pelas salas de aula e organização das escolas – para se ensinar como no seculo XIX? Defender a escola pública passa, em primeiro lugar, por responder a estas perguntas desagradáveis. Espero o pior.

terça-feira, 31 de maio de 2016

A Noite e a Rosa - 9. A morte é um sopro

Salvador Dali - Sin Título - Esa muerte fuera de la cabeza/Paul Eluard (1933)

9. A morte é um sopro

A morte é um sopro
quase uma argúcia
uma luz de água
a cintilar ao tempo
a crescer no corpo,
o animal animado
que fulgura preso
ao vento, envolvido
no vendaval do cio.

segunda-feira, 30 de maio de 2016

Livre-arbítrio e ordem liberal

Julio Gómez Biedma - Un grito: ilibertad!

Num artigo intitulado The FreeWill Scale, Stephen Cave, ao referir-se ao livre-arbítrio, considera que não estamos inclinados a atribuir uma grande dose de livre-arbítrio a quem vê apenas um possível curso de acção, especialmente em situações em que esse curso não está a resultar. Podemos pensar a situação dos países do Sul da Europa a partir daqui. A retórica dominante na direita europeia é a de que não há alternativa às políticas que são impostas e que resultam dos tratados que instituíram o Euro. A verdade, porém, é que essas políticas estão a falhar por todo o Sul da Europa e quanto mais falham mais se grita que não há alternativa e se impõe mais do mesmo. Este exercício parece longe de confirmar que a espécie humana é possuidora de uma vontade livre.

Quando se acredita que os homens são dotados de livre-arbítrio, acredita-se que eles são capazes de encontrar várias alternativas para poderem escolher a mais adequado ao bem que procuram. Aquilo que dizemos acerca dos indivíduos pode dizer-se das suas comunidades, ainda por cima se elas forem democráticas. Serão tanto mais livres quanto maiores forem as alternativas que consigam produzir para atingir os seus fins e alcançar os bens a que se propõem. O que está a acontecer na Europa, sob os ventos do neoliberalismo e do ordoliberalismo, é paradoxal. São os próprios defensores da ordem liberal que negam o livre-arbítrio e que, sob o desígnio do não há alternativa, impõem uma necessidade férrea em tudo semelhante àquela que vigorava nos países comunistas. Na verdade, o que nós assistimos na Europa é o crescimento, em nome do liberalismo, de uma atitude iliberal, negadora do livre-arbítrio e adepta incondicional de uma visão marcada pela necessidade determinista proveniente do velho mecanicismo nascido no século XVII.

domingo, 29 de maio de 2016

Livro do Êxodo 10. O endurecido coração

Jim Dine - Heart

Endurecido, o duro coração entrega-se às trevas da manhã, e no rasto sombrio ergue, tão alto, a vara de salgueiro. Encostado ao bordão de cinza, deixa-se flutuar, como se fora máquina de aço inoxidável, tão pura e tão inoxidável, tão tonitruante máquina era o coração. Árvores cobrem-se de folhas e, num prenúncio do tempo a vir, juncam de sombras, tão sombrias, o chão. Ali, naquele território sombreado, os cães arrastam-se, entre leves ganidos, em busca da floresta, da casa que um dia por morada tão demoradamente haverão de ter. O Sol, o cintilante astro de ruídos e tumultos, contrai-se, torna-se a cada dia que passa mais pequeno, arrasta pelos céus o perdido fulgor de forasteiro, aquele a quem nestas casas por hóspede não se quer.

Severas imagens assim se projectam diante do olhar, os jardins suspensos por cordas de sisal, ranúnculos, anémonas, jacintos-de-água e uma violeta de ferro vinda das terras da monção, negras praias de mar ondulante, um súbito tremor na tremura tremeluzente do horizonte. Se pudesse contar-te um conto de fadas, príncipes, leves princesas, se a minha voz se soltasse do silêncio, compreenderias a férrea violeta, nestes jardins à gravidade tão avessos. Acode-me uma palavra de névoa, mas logo a esqueço, e se me inclino para dizer o teu nome, suave delíquio atormenta-me a fronte, dobra-a em direcção à sombra e recolhe no segredo, no secreto sigilo, as palavras, todas as que tinha para dizer.

Em silêncio olho as falenas. Anunciam os odores que aos pés paralisam e os prendem às janelas, onde o tempo se vê passar, entristecido de a si se ter perdido no rio que não desagua, nessas águas tintas de sangue e grandes cardumes, os peixes que fogem das manhãs marítimas, da maresia que dissolve o mar e o deposita na areia da loucura, da imprudência de um coração endurecido, entregue à insensatez do excesso, às severas imagens que o olhar vê projectadas no ecrã da memória. Atravessado bem no centro por um triste, tão triste, caminhante, o coração, no duro pulsar dos dias, envolve-se na crosta, uma terra quebradiça e quase castanha, que o sangue ao secar, no processo lento da evaporação das águas, sobre ele faz cair, numa precipitação ruidosa, que até os olhos, tão serenos perante a estrídula tonitruância, se calam.

sábado, 28 de maio de 2016

Ali também estão os deuses

Marcel Duchamp - A Fonte (1917)

Uma brincadeira de um rapaz de 17 anos levou uma série de visitantes do Museu San Francisco de Arte Moderna, nos EUA, a admirarem um par de óculos colocados propositadamente (e provocatoriamente) no chão pelo jovem bem-humorado. As pessoas aproximavam-se respeitosamente da “obra de arte”, mantendo a distância convencionada. Houve quem tirasse fotografias (ler aqui). Li comentários onde se verberava a tolice dos espectadores. A verdade, porém, é que a brincadeira com a arte moderna – que não é a primeira e, certamente, não será a última – levanta um inusitado problema. Talvez o público reverente do par de óculos não seja tão idiota.

Quase cem anos antes, em 1917, Marcel Duchamp, sob o pseudónimo de R. Mutt, envia um urinol de porcelana (denominado por ele A Fonte) para a Exposição da Sociedade de Artistas Independentes de Nova Iorque. O Presidente da sociedade rejeita a obra, alegando não tratar-se de arte. Encontramos em Nigel Warburton a argumentação corrente em sentido contrário. A Fonte é arte porque o autor “pegou num objecto vulgar do dia a dia, colocou-o de modo que o seu significado útil desaparecesse sob o novo título e perspectiva – criou um novo pensamento para esse objecto”. É a reconceptualização do objecto, a alteração semântica e a concomitante mudança de estatuto ontológico que o transformam em arte.

Entre o episódio de 1917 e o de 2016 percebe-se que a atitude do público se alterou radicalmente. Da rejeição do Presidente da Sociedade de Artistas (que pode ser visto como um porta-voz do público) até à admiração respeitosa dos óculos farsantes, em 2016, vai um longo caminho. Se a proliferação de objectos ansiosos, como A Fonte, de Duchamp, no campo das artes, pretenderia questionar os limites do que é e não é arte, dessacralizando-a, retirando-lhe a aura com que a cultura a tinha investido, o efeito, contudo, não deixa de ser surpreendente. Não são os objectos artísticos que perdem a aura, são os objectos banais e quotidianos que a ganham, desde que entrem em certos espaços.

Aqui devemos mobilizar as velhas categorias de Mircea Eliade, o sagrado e o profano. Observe-se o comportamento do público perante o par de óculos (aliás, o comportamento normal num museu ou numa galeria de arte). Uma atitude reverente e de admiração, marcada pela justa distância que se deve ter perante o que é sagrado e uma aproximação suficiente para que a graça presente no objecto artístico transborde para a nossa compreensão do mundo. Ora, perante estas situações, a questão que se levanta é o que é arte e o que não é. O público intuiu pelo menos uma coisa. A arte não depende da intenção do produtor do objecto. É arte aquilo que entra no espaço sagrado, que é arrancado à dimensão profana da existência e, por ter entrado num certo topos, é sacralizado. O topos sagrado pode ser físico (um Museu, uma galeria, etc.), mas pode ser meramente conceptual. Um espaço mental, composto por conceitos, juízos e argumentos, onde se sacraliza como arte certos objectos que são de alguma forma atraídos para esse espaço.

Dir-se-á, então, que tudo pode ser arte. Só a ideia indispõe muita gente. A resposta a esta questão começou a ser dada logo no início da Filosofia, por Tales de Mileto: tudo está cheio de deuses. Tudo tem um carácter sagrado. Sendo assim, tudo tem em si a possibilidade de ser trazido para o espaço sagrado e ser reconhecido como objecto artístico. Não é a intenção do autor que dá o estatuto artístico a um objecto. É a unção que lhe é conferida, é o estar num certo espaço sagrado (museu, galeria, templos, etc.). O par de óculos jocosamente deixados no chão por um adolescente bem-humorado ganhou o estatuto de arte porque o espaço onde estava o investiu com esse estatuto. O objecto articulava-se sintacticamente com os outros objectos e integrava-se, já sem qualquer inovação, no campo semântico da arte. O que esta história tem de mais interessante é a revelação de que a autonomização da arte relativamente à religião é impossível. O sagrado volta sempre, nem que seja sob a forma de uns óculos provocatoriamente postos ali para testar o público. E o público respondeu compreendendo, como Tales e Mileto, que ali, naquele singelo par de óculos, também estão os deuses.

sexta-feira, 27 de maio de 2016

A Noite e a Rosa - 8. Rio, gelo frio e fluido

Caspar David Friedrich - The Source of the River Elbe (1830)

8. Rio, gelo frio e fluido

Rio, gelo frio e fluido,
água nascente,
força hidráulica
e pura
a cantar na fonte.
Na fonte,
ao sol poente.

quinta-feira, 26 de maio de 2016

O cartaz da JSD


Este cartaz da JSD suscitou uma indignação moral - aqui e ali - e levou mesmo Mário Nogueira ameaçar processar (ou a processar mesmo) a JSD. Eu votei na coligação de esquerda, não estou de acordo com alguns aspectos importantes da política educativa da esquerda (embora concorde com o governo no casos dos subsídios aos colégios privados) e acho que o facto de Mário Nogueira ameaçar processar a JSD é uma patetice. Seja como for, Mário Nogueira teve uma excelente oportunidade, mesmo sem cortar o bigode, de demonstrar que não é um adepto estalinista e que acha a comparação ofensiva. Em vez de processar a JSD, deve agradecer-lhe a oportunidade.

Do ponto de vista da eficácia política, o cartaz vale zero. É quase tão mau quanto o do BE sobre a dupla paternidade de Cristo (embora este fosse pior, pois era um tiro no pé). A generalidade das pessoas está-se nas tintas para o Mário Nogueira, muita gente não faz ideia quem foi Estaline e quem sabe tem discernimento suficiente para perceber que Mário Nogueira não é um proto-Estaline nem o ministro da educação é assim manipulável. Mesmo os anti-comunistas sabem que a ameaça bolchevique é uma coisa da história. O cartaz, porém, é bastante interessante pois diz muito do que são as juventudes partidárias. O cartaz não foi feito para ganhar eleitores (quem vai votar na direita por causa daquele cartaz?). O cartaz foi feito para irritar o outro lado. O espírito é igual ao das picardias de futebol entre os adeptos dos grandes clubes. Uma infantilidade. Uma graçola que deve gerar umas larachas lá na sede da congregação, mas sem qualquer relevo político.

O mais importante, porém, é sublinhar que a possibilidade deste tipo de graçolas virem a lume é um bem fundamental. Faz parte da liberdade de expressão. E este é, na vida em sociedade, o bem mais importante. O que me aborrece nestas coisas é que as partes atingidas (agora foi a esquerda, outras vezes é a direita) não têm fair-play e mostram-se sempre muito ofendidas, prontas para rasgar as vestes em público. Não há paciência para isso. Quem está na vida pública está sujeito a este tipo de coisas. Na política não há lugar para virgens que se ofendam ao primeiro piropo rasca. Depois, sabemos que o discurso político é sempre hiperbólico. A hipérbole é, num regime onde o conflito político se trava pelo discurso, a estratégia fundamental. Exageram-se os vícios dos adversários. Exageram-se as virtudes próprias. Acima de tudo, a liberdade de expressão é um bem intocável.

quarta-feira, 25 de maio de 2016

Não a verdade mas a razoabilidade

Nikolaas Mathijs Eekman - Le philosophe (1973)

Há, quando se olha para a política, um equívoco que vem desde o tempo de Platão. O equívoco centra-se na ideia de que há uma ligação entre verdade e boa governação. A figura platónica de Rei-Filósofo não é outra coisa. O problema é que a política não é um exercício epistemológico e a verdade não é a virtude dos sistemas políticos. Naquilo que há de essencial na vida política poucas são as coisas que não estejam sujeitas à controvérsia, aos interesses e às paixões que estes interesses suscitam. Não há nenhuma solução que seja a realização prática de uma verdade. As soluções são boas ou más conforme os interesses com que jogam. Para uns serão boas, para outros serão más. A mais das vezes são soluções de compromisso, que não agradam a ninguém, mas que amortecem os conflitos.

Isto não quer dizer, porém, que o debate político não melhoraria se ele fosse fundamentado mais substantivamente no conhecimento das teorias filosóficas que sustentam os diversos pontos de vista possíveis. Por vezes, as argumentações usadas pelas partes em confronto são de tal maneira frágeis que chegam a roçar a indigência. Fundamentar as crenças políticas não significa, porém, introduzir citações e referências de autoridade a cada instante. Significa que se tem uma teoria robusta com que se fundamenta a crença política proclamada, e que as tomadas de posição estão de acordo com aquilo que se diz defender.

Não quero com isto dizer que essa fundamentação torna a opção política mais verdadeira ou mais próxima da verdade. Quero apenas sublinhar que ela seria melhor argumentada, mais bem meditada e exigiria do outro lado uma atitude semelhante. Significaria ainda que os compromissos a que se chegasse trariam um grau superior de razoabilidade. E isso não seria pouco. O que está em jogo não é a verdade mas a razoabilidade da acção. Não precisamos de Reis-Filósofos, governantes com acesso à verdade, mas de políticos razoáveis que agem e se comprometem no território incerto e conflitual da vida política.

terça-feira, 24 de maio de 2016

Instabilidade ortográfica


Tenho estado a ler textos na ortografia do português do século XIX. Mesmo nos romances de Eça de Queirós, ainda tão próximos de nós pelo Portugal que desenham, há uma ortografia que, aos olhos da actual, parece fantasmática. O leitor sente-se fora de casa, apesar da beleza gráfica que descobre nos lexemas. Ao olhar o texto, parece ter sido escrito noutra língua. Se comparo esses textos (ainda que de forma impressionista, pois não sou conhecedor da matéria) com textos franceses do século XIX e mesmo do XVIII, fico com a sensação de que a ortografia francesa é muito mais estável que a nossa. Existem diferenças, mas ao olhar para os textos, sinto-me em casa, aquele foi o francês que aprendi e que leio ainda hoje. Pode ser que seja uma ilusão óptica, mas até na ortografia vivemos em constante instabilidade. A coisa que mais me impressiona, porém, é a disponibilidade revolucionária dos portugueses para patetices como as reformas ortográficas. Um povo tão dado à quietude e tão remexido na ortografia é um mistério, ou talvez não. Talvez seja a quietude popular que permite estes arroubos desfiguradores de uma língua, este terrorismo contra o património histórico presente na ortografia. Não há governação que não se preocupe com a estabilidade governativa, mas quanto à instabilidade ortográfica não há quem ponha fim ao desmando. (averomundo, 2010/02/07, acrescentado)

segunda-feira, 23 de maio de 2016

A Noite e a Rosa - 7. No céu do norte

João Queiroz - Sem título (2007-2008)

7. No céu do norte

No céu do norte,
a noite é um lago
de madeira,
silente e frio,
um rumor
preso no céu
a luz luminosa
que em si caiu.

domingo, 22 de maio de 2016

Livro do Êxodo 9. As viúvas caídas

Francisco Arjona - Viuda (1978)

Os cálamos da noite deslizam entre mãos, e os farrapos do tempo, se o verde mancha a candura das colinas, são soprados eternidade fora. As vozes, as vozes calam-se no zumbido das trevas, e as mães, de cansada memória, repetem histórias de viúvas caídas na desgraça do dia, perdidas no horizonte onde são sombra silente e sombria, oculta sombra as habita. Nos céus, as viciadas viúvas vicejam lentamente, crescem para dentro da santidade, são máquinas abertas ao silêncio, fátuo silêncio as alimenta.

Um som sibilado toca a parturiente um instante e a criança chega: o esgar da face desvanece-se e o horror, pois horror é, toma do mundo a rédea. Cruza-se gente, vai e vem, os olhos rolam em direcção à terra; nela as pragas crescem, como se ainda um deus dos homens o destino, friável destino, soubesse, como se uma viúva virginal trouxesse, no anteparo da sua viuvez, um dragão puro e uma víbora de escamas e solidão.

Sobre a inconstância do coração nada se desenha: um rumor de espinhos une à vida a sombra disforme. Aí o que caminha tem o seu corpo e com ele cria um espelho de urtigas e ervas azedas, um vidro tão fosco como as colinas onde o Sol, cansado de iluminar a terra, se põe. No rosto da cidade, há carros embuçados, calam-se, quando tudo se desvanece na viuvez da tarde, nos olhos virginais que nos olham, no sexo húmido das viúvas inconstantes, viúvas caídas, pelos calámos da noite bebidas até ao vazio do último copo, do último corpo.

A virtude da humildade

Masaccio - A Virgem da Humildade

A minha crónica no Jornal Torrejano.

Não quero deixar passar em claro a oportunidade, oferecida pela conquista do 35.º campeonato pelo Sport Lisboa e Benfica, para reflectir numa virtude que, no actual contexto cultural, parece ter sido completamente desvalorizada: a humildade. Se há um factor central no triunfo do clube da Luz, esse é a humildade, virtude encarnada na pessoa de Rui Vitória e que transbordou para toda a equipa e pessoal dirigente. Mesmo no momento da consagração, assistiu-se a grande contenção nas palavras e a nula vanglória.

A humildade significa o reconhecimento dos seus limites. Significa também a clara percepção de que, nos negócios humanos, aos quais o futebol pertence, nem tudo é controlável, e que uma parte do sucesso se deve, para além do trabalho duro, à fortuna, para falar à moda dos antigos romanos, ou à graça, se se quiser uma tonalidade mais cristã. O treinador do Benfica, sem nunca abdicar do empenho no que estava a fazer, pautou-se por uma atitude discreta e comedida. Evitou o pior dos males, aquele que os gregos diziam atrair, na figura das Erínias, a desgraça. Evitou a arrogância e a desmedida.

A humildade não é apenas uma virtude social, uma virtude onde a pessoa evita mostrar-se superior aos outros, sendo-o ou não. É também uma virtude pessoal que conduz ao reconhecimento de que não se é um deus e que, em tudo o que se faz, há uma enorme imperfeição. E é este reconhecimento da imperfeição das nossas obras que é o motor central para que se ultrapassem falhas, defeitos e limitações. Só aquele que tem a clara consciência da sua imperfeição julga ter de se ultrapassar.

Foi isso que se viu com Rui Vitória. Foi isso que, contra todas as expectativas, lhe trouxe a glória. É nisso que todos nós deveríamos meditar. Não está na moda ser humilde. O culto dos homens de sucesso é, por norma, o culto de egos inflacionados. As televisões e as redes sociais ajudam a essa inflação, divinizando, por curtos instantes, aquele que se deixa embalar no canto da sereia. O que a nossa sociedade precisa, porém, não é de gente com umbigo dilatado, mas de exemplos que nos ajudem a perceber que o caminho para melhorar passa pela humilde aceitação das suas imperfeições e limitações. Exemplos como o de Rui Vitória. Espero que não mude.

sexta-feira, 20 de maio de 2016

Da presunção de superioridade moral da esquerda

 Adolph von Menzel - The Iron Rolling Mill

Uma das coisas que mais indigna as pessoas de direita é a ostentação, pela esquerda, de uma presumida superioridade moral. Esta presunção não vem claramente do facto dos indivíduos de esquerda serem mais virtuosos moralmente que os de direita. Não é um problema de consciência moral singular. Também não vem de qualquer constatação empírica que, hoje em dia, possamos fazer dos regimes políticos não democráticos, onde só a esquerda governou. A história dos últimos três séculos ajuda, porém, a perceber o fenómeno. Ajudar a perceber um fenómeno não significa, todavia, que forneça argumentos suficientes para justificar a sua racionalidade. Três acontecimentos, da história mundial, são centrais na emergência e manutenção dessa crença difusa acerca da superioridade moral da esquerda. A história não justifica, embora ajude a compreender.

Comecemos por onde começou a divisão, a Revolução Francesa. Na Assembleia Nacional, os partidários do Ancien Régime sentavam-se à direita do presidente, os adversários estavam à esquerda. O carácter iníquo do Ancien Régime, pleno de privilégios para uns e de exacerbadas corveias para outros, de estatutos sociais completamente fechados, etc., colou-se, talvez de forma indelével, à direita, mesmo quando a direita é, pela sua própria natureza liberal, adversária do Ancien Régime. A iniquidade do Ancien Régime era de tal modo clara que mesmo revolucionários moralmente pouco recomendáveis, como depois se viu na época do Terror, pareciam um catálogo de virtudes morais e cívicas. A direita que estava em causa, porém, era uma direita feudal, digamos assim.

Um segundo acontecimento histórico chega-nos de Inglaterra. Está ligado à Revolução Industrial e, fundamentalmente, à forma como, através de expedientes legais (absolutamente imorais), como a Lei dos Cercados, se constituiu o proletariado que trabalhou nas fábricas da Inglaterra dos finais do XVIII e no XIX. A destruição dos velhos direitos medievais atirou uma quantidade incalculável de gente livre (uma ironia, livre do senhorio mas também da terra que a sustentava) para a proletarização e para condições de trabalho atrozes. Quando os movimentos operários nasceram, quando a esquerda social emergiu, a imoralidade dos processos de expulsão dos campos e da situação nas fábricas vai contribuir, também ela, para colocar o rótulo imoral à direita política que sustentou o processo e, ao mesmo tempo, dar uma caução moral aos partidos operários. A direita que está em causa, neste caso, aproxima-se já bastante da direita liberal, e pouco tem a ver com o caso francês.

O terceiro acontecimento está ligado à história do século XX e à subida ao poder dos fascismos e do nazismo. E estes movimentos subiram como forma de poder das direitas nacionalistas. Com carácter ora mais totalitário, como nos casos de Itália e Alemanha, ora mais ditatorial-paternalista, como no caso de Portugal, estes regimes, claros inimigos dos movimentos operários mas também da democracia liberal e do liberalismo clássico, tinham práticas políticas e sociais que feriam os princípios, por frouxos que fossem, de qualquer consciência moral. Embora por essa Europa fora as esquerdas não tenham sido as únicas forças políticas a oporem-se-lhes, foram, na verdade o grande motor de denúncia e de oposição. Em Portugal, porém, só as esquerdas se opuseram sistematicamente ao salazarismo, enquanto as direitas, com a exclusão da ala liberal de Sá Carneiro (um pequeno clube de meia dúzia de membros) durante o marcelismo, estiveram completamente comprometidas com o regime. Também isto contribuiu para esse sentimento de superioridade moral da esquerda, mesmo que o exemplo da Revolução Bolchevique fosse, desde o início, moralmente muito pouco recomendável.

Esta descrição histórica justifica a presunção de que a esquerda, hoje em dia, é moralmente superior à direita? Não, não justifica. Pois esquerda e direita são conceitos mutáveis, não é sempre a mesma direita que está em causa, nem sempre é a mesma esquerda que reivindica essa superioridade moral. Também sabemos que regimes políticos onde a esquerda eliminou a concorrência política se transformaram em regimes de grande abjecção moral. Embora a política nada tenha a ver com a moral, os movimentos políticos, por necessidade instrumental de legitimação perante a opinião pública, reivindicam para si posições morais. Num próximo post far-se-á uma análise das posições morais/imorais das direitas e das esquerdas que existem nos regimes democráticos.

quinta-feira, 19 de maio de 2016

A Noite e a Rosa - 6. Um fogo, uma pedra

Luis Fernández - Rose (1961)

6. Um fogo, uma pedra

Um fogo, uma pedra:
sal a cantar na noite.
Se as mãos enunciam
o linho e o lírio,
o teu corpo, uma
casa submissa
sumptuosa e suada
no fogo do fogão
no cristal duma rosa.

quarta-feira, 18 de maio de 2016

Utopias e paranóia política

Simón Bolívar

A Venezuela é um caso exemplar de como a utopia e a eliminação da concorrência política conduzem a visões fantasiosas da realidade (ver aqui o devaneio conspirativo que se abate sobre o cérebro de Maduro) e, muito pior que isso mas no seu seguimento, ao desastre económico, social e político (ver análise aqui).  No caso venezuelano, aquilo que me interessa é a presença de dois elementos que parecem estar sempre presentes nos grandes dramas políticos. São, como referi acima, a utopia e a eliminação efectiva da concorrência política. A Venezuela é interessante não por ser um caso da governação de esquerda, embora o seja, mas por manifestar traços que fomentam a degradação da vida política e que estão presentes tanto à direita como à esquerda.

O primeiro problema da Venezuela nasce da constatação, por Chávez, de uma situação social profundamente injusta. É esta injustiça profunda que dinamiza o pensamento utópico. Todo o pensamento político utópico é um pensamento mágico. Vê na política um instrumento de rápida reconfiguração social. A realidade é desfigurada e faz-se uma reconfiguração, mas esta é sempre excessiva e deslocada do espaço e do tempo (é utópica). A política é assim uma varinha de condão que, ao tocar a realidade social, a transforma para melhor. O problema, porém, é que a realidade resiste. Raramente, a realidade se submete ao desígnio revolucionário. Aquilo que poderia ser um programa paulatino de reformas, de criação de forças sociais mais modernizadas e de uma atitude mais dinâmica da população, transforma-se num triste espectáculo. Caudilhos, conspirações, mobilizações populares, bandeiras ao vento, retóricas revolucionárias. Tudo isto fruto de uma utopia - a qual, no caso da Venezuela, transbordou para outros países da América Latina, sob a designação de bolivarismo -, de uma não coincidência entre o desejo e a realidade.

A deriva paranóica deste tipo de utopias leva ao segundo problema. Uma interpretação delirante da realidade, servida por uma sistematicidade lógica, conduz à eliminação da concorrência política. Esta eliminação pode ser total, como nos casos das ditaduras e regimes totalitários, ou parcial, onde a concorrência política não é formalmente eliminada, mas é limitada através de expedientes que contrariam as concepções de democracia, assentes na liberdade de organização e participação política e no respeito pelas minorias conjunturais. E foi para aí que caminhou a utopia venezuelana. Por muitas vitórias eleitorais que Chávez tenha tido (com Maduro já nem isso), um observador imparcial percebia que o regime era pouco democrático e claramente populista. Os resultados de tudo isto estão à vista.

Tendo isto em consideração, convém sublinhar duas coisas. Pode-se argumentar que ou a utopia populista ou a velha situação fundada nas antigas oligarquias. Isto, porém, constitui uma falácia, a falácia do falso dilema. Esta falácia lógica arrasta consigo uma consequência política, a da eliminação da prudência reformista na transformação paulatina das sociedades. Elimina o esforço sistemático de encontrar equilíbrios e de dar passos pequenos, mas decisivos, em direcção a sociedades mais justas. Em segundo lugar, estes casos, com todo o seu aspecto caricatural, têm a capacidade de revelar a natureza paranóica de todo o tipo de poder (à esquerda ou à direita), inclusive o que existe nas sociedades democráticas. Nestas, manifesta-se em expressões como "não há alternativa", as quais são outra forma de aniquilar a concorrência política e, de forma mansa, instaurar utopias delirantes, cujo resultado, como acontece sempre, é o da destruição dos equilíbrios, da prudência e da justa medida. 

terça-feira, 17 de maio de 2016

Uma educação liberal

Juan Botas - School (1989)

A educação deve ter um cariz liberal. O termo liberal aqui deve ser entendido como o era na Idade Média, em contraponto com a servidão. Nessa educação liberal, o fundamental é a conversação e o contacto com as grandes obras, os clássicos, e também com grandes professores. A educação deve servir para levar cada um a extrair o melhor que há em si. De certa maneira, não há educação que não vise uma certa aristocratização do educado. Deste ponto de vista, toda a educação deve ser nobilitante. Embora, a partir de um certo grau de ensino comum, os percursos se devam diferenciar conforme as aptidões de cada indivíduo. Mas desde que uma criança entra na escola deve-se-lhe propor como horizonte o tirar de si aquilo que tem de melhor, seja uma vocação científica, técnica, política, artística ou outra dentro do que é determinado como socialmente aceitável.

Só esta educação, que é verdadeiramente uma educação do carácter através da aquisição de um currículo, pode tornar os homens livres e capazes de iniciativa. Só uma educação liberal e democraticamente aristocrática, assim entendida, é capaz de gerar respeito pelos valores da democracia. Se se falhar nisto, em vez de homens livres, formar-se-ão escravos. Escravos dos seus próprios desejos, incapazes de uma satisfação diferida, e escravos dos outros a quem se venderam por falta de carácter e incapacidade de resistir a si mesmos. O actual debate sobre o financiamento público ou não das escolas privadas é importante. No entanto, o grande debate fazer é para que serve a educação. Qual a grande finalidade que deve estar presente, como orientadora, do investimento em educação. Isso deixou de ser claro, se alguma vez o foi, há muito.

segunda-feira, 16 de maio de 2016

Livro do Êxodo 8. O anjo aquático

Edward Burne Jones - O anjo (1881)

Feriu o pó e levantou as suas tremendas asas, erguendo-se. Não era pássaro, nem máquina que pelo engenho voasse, mas simples anjo, daqueles que desfilam em procissões de aldeia, vestidos de branco, o rosto coberto de suor e os pés exaustos, a tanta erva pisaram. Subiu, enquanto na terra alteavam-se vozes à luz vagarosa e sombria da macieira.

Nos outros dias, colava-se à parede e aí ficava, imagem era, tão estático, no rosto um medo se lhe desenhava, tomava conta das faces, invadia lábios, caía em borbotões pelo queixo, levemente recolhido, inclinado sobre o peito. Nas asas azuis tinha então escamas por penas; era um anjo aquático, habitava os poentes na fina dobra da praia.

Quando não havia procissão e assim se cobria de asas  escamadas de azul, envergava uma túnica de cíclames e cruzava as delicadas mãos sobre o peito. Nesses dias, não voava, nem procurava do mar as águas. Olhava, olhava, olhava para o indefinido ponto onde a geometria das horas nascia e traçava mapas em sua mente, trabalho de geógrafo perdido em funestas dunas já desfolhadas pelos desertos de areia.

À noite nunca o mensageiro dormiu. Por vezes, despia-se. Horroriza-o o vazio lugar do sexo e cobria com as mãos o rosto, espelho algum devolveria a cegueira da sua vergonha. Cansado, deitava-se em cama de pedras e sonhava com searas de trigo a secar sobre as águas marinhas, peixes de pão secos pela inclemência de um sol, a primavera o esventrara.

Um dia, veio de entre as algas um pássaro e olhou-o, depois inclinou tão ao de leve a cabeça e voou para norte. Um silêncio de carvão soltou-se do fundo da alma e o anjo, agora um querubim, pela primeira vez, sentiu lágrimas. Adormeceu sobre as pedras e quando acordou doíam-lhe as costas. As asas, um simples papel de seda, desprenderam-se. Quando despiu a túnica, a nenhum corpo a luz iluminou.

domingo, 15 de maio de 2016

A Noite e a Rosa - 5. Adormeço num olor

Egon Schiele - Two Girls, Lying Entwined (1915)

5. Adormeço num olor

Adormeço num olor
a raparigas verdes
pele branca sob flanelas.

Frágeis e oblíquas
ardem-me nos dedos
se as toco e repouso nelas.

sábado, 14 de maio de 2016

O respeito pela dignidade do homem

Edvard Munch - Workers Returning Home (1913-1915)

Trabalhadores obrigados a usar fraldas por não poderem ir à casa de banho. Não acredita? É o que se passa, imaginem, nos EUA, com quem trabalha em aviários (ver aqui). Por que razão os sindicatos e a esquerda são necessários? Não o são para trazerem um mundo novo, mas para enfrentarem a deriva desumana que habita, desde sempre, no coração do capitalismo. A ameaça da esquerda serve para civilizar um capitalismo que, tendencialmente, é propenso ao desrespeito pelos seres humanos. Desde a Revolução Industrial que se manifestou na economia de mercado uma faceta bárbara que substituiu a crueldade da escravatura pela crueldade inerente à consideração da mão-de-obra como uma mera mercadoria, isto é, uma coisa.

Tratar seres humanos como nos aviários norte-americanos ou nas empresas asiáticas infringe não apenas os direitos sociais mais básicos mas a dignidade última de um ser racional. Se a utopia ultraliberal triunfasse completamente, se a esquerda desaparecesse e os sindicatos fossem abolidos, se a desregulação fosse levada até ao fim, aquilo que se passa nos aviários dos EUA multiplicar-se-ia em todas as áreas do trabalho humano. Até as empresas exemplares nas relações de trabalho, e são muitas, seriam coagidas pela concorrência a tornarem-se bárbaras e impiedosas. A necessidade de uma oposição política e sindical a este desejo de retorno à barbárie não deriva, como os nossos candidatos a liberais julgam, da infestação doutrinária do marxismo. O que está em jogo não é Marx mas Kant.

O filósofo de Konigsberg, numa das suas fórmulas do imperativo categórico, definiu claramente aquilo que em qualquer tipo de relação entre seres humanos é inadmissível. Cito: Age de tal maneira que uses a humanidade, tanto na tua pessoa, como na pessoa de qualquer outro, sempre e simultaneamente como fim e nunca simplesmente como meio. Usar a humanidade de uma pessoa apenas como meio, como uma mera coisa ou um simples instrumento para lucro do empregador, é o que acontece quando se olha para as pessoas como uma mercadoria e só uma mercadoria, como mão-de-obra. Não se respeita a pessoa como um ser racional que tem valor intrínseco. E isto é moralmente repugnante e inadmissível.

Contrariamente ao que certa a direita radicalizada pelo fascínio do ultra-liberalismo pensa, a esquerda e os sindicatos não existem para trazer um mundo novo ou para destruir o espírito de iniciativa privada. Se um dia o pensaram como contraponto à barbárie da revolução industrial, descobriram já que não há nenhum mundo novo à nossa espera. Esquerda política e sindicatos existem para assegurar que a civilização e o respeito pela dignidade do homem não desaparecerão num mundo desregulado, onde os mais fortes pura e simplesmente liquidariam, para seu interesse, a humanidade nos outros homens. Não é a herança de Marx que a esquerda tem hoje para defender. É a herança de Kant, a herança de um mundo civilizado onde as pessoas são tratadas como seres racionais e não meras coisas. Um mundo onde adultos têm de usar fraldas (e que maior símbolo pode haver do que as fraldas para sinalizar a redução desses adultos à menoridade?), como se fossem crianças, porque as relações de trabalho lhes são completamente adversas. Não se trata de criar um paraíso na terra, mas de encontrar um equilíbrio entre o espírito de iniciativa e uma vida digna de ser vivida por todos.