Queria aqui louvar Ricardo Robles pelo seu sacrifício
altruísta e de elevado sentido teológico. Ele que é contra a lei Cristas que
permite a especulação imobiliária, sacrificou a sua alma condenando-se ao
inferno (na verdade, já lá está a arder e ainda não viu o dinheiro). E o que o
motivou? O desejo turvo de enriquecer? Não, mil vezes não. Quis salvar a alma
especuladora da direita e converter essa mesma direita numa encarniçada inimiga
da lei Cristas. E não é que conseguiu? Desde que se soube as pretensões
roblesianas de ir para o inferno dos ricos, que a direita, desde o Observador
às redes sociais, passando pelos militantes de província, não pára de ser anti
especulativa, de apontar a Robles aquilo que Robles apontava aos beneficiários
da lei Cristas. Esperam-se agora as petições contra a lei Cristas (sim,
petições como a esquerda costuma fazer), manifestações de rua e pedidos de
audiência ao Presidente, além de uma procissão penitencial. Tudo isto levanta
interessantes especulações (meu Deus, que palavra) teológicas. Será que Robles
é um judas que trai os pobres por avidez ou um judas que, por amor aos pobres e preocupado com a felicidade do maior número,
os trai para que a mole imensa dos que estavam perdidos se salvem e abjurem o
pecado especulativo em que viviam? [Postado no facebook ontem.]
segunda-feira, 30 de julho de 2018
sábado, 28 de julho de 2018
Robles e a especulação
A questão Ricardo Robles é particularmente interessante,
pois mostra que qualquer pessoa, mesmo do BE, sempre que pretende vender um
bem, acredita nos mercados. O mercado é o sítio onde se forma um preço através
de um acordo livre. Se o vereador do BE quer vender o prédio por 5 milhões de
euros e ninguém lhos der, então o prédio não vale 5 milhões de euros. Se
alguém estiver disposto a dar-lhe 10 milhões, então o prédio vale 10 milhões.
Se ele achar que 10 milhões é pouco, é livre de não vender. O problema todo é
que certa esquerda - como o BE - utiliza a palavra especulação a torto e a
direito, incluindo no mesmo saco coisas que são ilegítimas e coisas que são
absolutamente legítimas e que resultam da liberdade dos indivíduos. Há uma
coisa que é muito difícil de explicar quando se usa desenfreadamente a palavra
especulação. Se uma pessoa é dona legal (sublinho a legalidade) de um bem, se o
pretende vender por um certo preço que implica ganho de enormes mais-valias, se
há alguém disposto a pagar esse preço, por que razão deveria a pessoa vender o
bem por um preço muito abaixo? Se há uma lição que essa esquerda deveria tirar
do caso Robles é que a palavra especulação deve ser usada com muito maior rigor
e parcimónia em vez de ser uma arma que se dispara tanto contra negociatas
ilegítimas como contra o normal funcionamento da economia.
Torto e fora dos eixos
A minha crónica no Jornal Torrejano.
Tornou-se um lugar comum aproximar duas ideias que emergiram
na mesma época, mas em obras literárias diferentes. Em Hamlet, William Shakespeare fazia notar que “O mundo está fora dos
eixos. Oh! Sorte maldita! … Por que nasci para colocá-lo em ordem!”. Miguel de
Cervantes, em D. Quixote, escrevia,
mais ou menos na mesma altura “… é o meu ofício e exercício andar pelo mundo
endireitando tortos, e desfazendo agravos”. Tudo isto veio à luz logo no início
do século XVII, esse momento inaugural dos tempos modernos. O que está em
gestação, nesses dias, é o nascimento e a afirmação do sujeito – podemos dizer
mesmo o nascimento da individualidade – e a revolução científica. Primado do
indivíduo e conhecimento científico são, ainda hoje, os pilares em que assente
o nosso modo de vida.
Aquilo que, visto retrospectivamente, poderia ser
compreendido com um momento glorioso da humanidade ocidental talvez tenha sido
compreendido, por muitos, de uma forma bastante mais obscura. O mundo está fora
dos eixos ou, na versão de Cervantes, está cheio de tortos que é preciso endireitar. Alguma coisa está mal, fora do
lugar e precisa de ser colocada onde deve estar, necessita de ser posta nos
eixos. Em Hamlet há uma hiper-lucidez
que vê, na tarefa de colocar o mundo em ordem, uma maldição. Maldita é a sorte
daquele que foi destinado a pôr o mundo nos eixos. Contudo, no Quixote, a dissonância cognitiva, a
persistente ilusão, permitem ver o ofício de endireitar o que está torto como
uma tarefa gloriosa.
Durante os quatro séculos que entretanto se passaram, nunca
o mundo deixou de ser sentido como estando fora dos eixos. Apesar das
revoluções científicas, políticas e tecnológicas, apesar de um crescimento
exponencial da civilização, do bem estar das populações e da esperança de vida,
o mundo continua fora dos eixos e cheio de tortos
que será necessário endireitar. O que as frases de Shakespeare e de Cervantes
nos ensinam, porém, mata qualquer quimera. Aquele que estiver plenamente
consciente de si sabe que pôr o mundo nos eixos não passa de uma maldição
insuportável de carregar aos ombros. Só aos loucos lhes é permitido o logro de
que têm por destino endireitar o mundo. Esta é uma lição que se adapta
demasiado bem aos dias de hoje. Não faltam no mundo loucos que, sob o aplauso
da multidão errante, tomam conta do poder crendo ser seu ofício endireitar o
que está torto e desfazer agravos. Esta não é, por certo, a melhor receita para
combater insónias. Boas férias.
sábado, 14 de julho de 2018
Sem enredo
Alguém se queixa não sem indignação, numa caixa de
comentários de um grande armazém de livros, de que os contos de uma certa
autora não têm nada que se pareça com um enredo. Com um plot, pois a queixa vem em língua inglesa. Percebo o drama dos que
contestam a literatura sem enredo. Usam a leitura como uma fuga ao mundo, uma
consolação que os protege do facto inaceitável de a sua vida não possuir
qualquer enredo. Coisas acontecem, umas repetem-se e outras não, mas, na verdade,
nas nossas tristes vidas o arbitrário, o ocasional e o acidental são a regra e
não a excepção, mesmo que teimemos no contrário, mesmo que pareça o contrário.
"O vento sopra onde quer; ouves-lhe o ruído, mas não sabes de onde vem,
nem para onde vai." Também o evangelista João sabia que a vida não tem
enredo. E se estamos todos in media res
isso significa apenas que estamos no meio de um turbilhão sem sentido nem
trama, esbracejando até morrer de cansaço.
quinta-feira, 12 de julho de 2018
Um concubinato de conveniência
A minha crónica no Jornal Torrejano.
Desde o início que a actual solução governativa sofre de um pecado
mortal. Este reside num governo onde só um dos partidos de esquerda tem
assento. Ao escolher o caminho mais fácil, a esquerda resolveu alguns problemas
de momento. António Costa evitou o fim da sua carreira política e o Partido
Socialista conseguiu não passar pelas humilhações que outros partidos socialistas
europeus sofreram. O Bloco de Esquerda alcançou o estatuto de força política
respeitável. Veja-se a condecoração póstuma de Miguel Portas, fundador e
dirigente do BE. O Partido Comunista, por seu lado, pôde apresentar-se como uma
força de construção de soluções governativas e não de mera contestação. Durante
mais de dois anos a fragilidade da solução foi disfarçada pelos aparentes
sucessos governativos.
Quando nos aproximamos do último orçamento da legislatura,
mesmo que haja uma convicção geral de que será aprovado, os problemas saltam
aos olhos de toda a gente. Estes problemas pouco têm a ver com as leis
laborais, a distribuição do dinheiro no próximo orçamento ou com as
reivindicações dos vários corpos da função pública. Tudo isto é apenas um
simples reflexo de uma debilidade estrutural existente desde o início desta
solução governativa. As esquerdas não têm um projecto político para o país, um
projecto ponderado, negociado e partilhado pelos vários partidos. Viveram até
agora num concubinato de conveniência meramente circunstancial. De facto, seria
muito exigente negociar um governo com todos os parceiros de esquerda, pois
isso implicaria duas coisas.
Em primeiro lugar, haveria que olhar seriamente para a
realidade do país. A debilidade financeira, a inconsistência da economia, a
frágil situação de grande parte dos portugueses (pobres e com pouca autonomia),
a dependência perante os parceiros da União Europeia e os chamados mercados
financeiros. Em segundo lugar, seria necessário um forte espírito de
compromisso, com todas as partes a terem de aceitar não apenas coisas agradáveis
mas também aquilo que lhes desagrada. Um governo assim fundado evitaria tudo a
que estamos a assistir, desde as aproximações de Costa a Rui Rio até ao retorno
do BE e do PCP às políticas de contestação. Teria outra virtude. Asseguraria ao
eleitorado que a esquerda possui um projecto credível para o país e não um mero
programa de entretenimento enquanto a direita se recompõe para chegar ao poder
e executar as suas políticas. Temo, porém, que os partidos de esquerda sejam
mais sensíveis às suas conveniências particulares do que aos anseios do
eleitorado.
domingo, 1 de julho de 2018
Futebol e Estado-Nação
A minha crónica em A Barca.
Olhamos para um campeonato do mundo de futebol e percebemos,
de imediato, uma das causas dos problemas políticos que atingem o projecto
europeu. O campeonato do mundo é um hino ao Estado-Nação. As selecções
representam os Estados-Nação e recebem um inequívoco apoio popular. As pessoas
sentem-se representadas pela sua selecção, vibram por ela, alegram-se com as
suas vitórias e sofrem com os seus desaires. A causa principal não reside no
facto de serem equipas de futebol mas de serem selecções nacionais. Um
campeonato do mundo é uma manifestação global de um nacionalismo soft.
Em nome do nacionalismo cometeram-se atrocidades sem fim. No
entanto, os Estados-Nação permitiram a evolução dos regimes políticos nacionais
para democracias representativas. Substituíram a ideia de superioridade da
nação, de um patriotismo como último refúgio dos canalhas, como dizia Samuel
Johnson, pelo patriotismo constitucional, fundamento de um Estado democrático e
de direito, como defende Jürgen Habermas. Se há um nacionalismo perigoso, onde
o pior do homem pode vir ao de cima com facilidade, há também um virtuoso, que
faz depender a vida política da lei e da liberdade.
Uma das marcas fundamentais dos países que fundaram a União
Europeia (UE) – e daqueles que, posteriormente, aderiram ao projecto europeu –
é serem exemplos do patriotismo constitucional. São Estados-Nação, regulados
pela lei e com regimes democráticos. O problema é que, a partir de determinada
altura, dentro da UE, se sonhou com o fim dos Estados-Nação europeus e se
começou a socavar os seus alicerces. Não foi um jogo claro e limpo. Pelo
contrário. Foi acção obscura, feita nas costas dos eleitorados pelas elites
políticas que, com a ajuda de alguns meios universitários, tentaram vender a
narrativa de que a destruição do Estado-Nação seria inexorável e um passo para
o paraíso.
O resultado deste desvario tem sido catastrófico. O sinal
mais claro foi o Brexit, e o
crescimento da extrema-direita nacionalista tornou-se uma moda que chegou já ao
poder em vários países europeus, começando a destruir os fundamentos
constitucionais das democracias. Um campeonato do mundo de futebol é sempre uma
manifestação do peso que o Estado-Nação tem no coração das massas populares. Se
esse coração não for cultivado por uma ordem nacional constitucional e democrática,
então o desvelo com que vemos as massas populares a apoiar as suas selecções
nacionais transferir-se-á para o pior dos nacionalismos que começam a pulular
por todo o continente.
quinta-feira, 21 de junho de 2018
Dias difíceis
A minha crónica no Jornal Torrejano.
A situação política está mais confusa do que parece. Só há
um dado claro e inequívoco. Exceptuando os socialistas, todos os actores agem
com o objectivo de evitar que o PS obtenha maioria absoluta nas próximas
legislativas. CDS e PSD pretendem recuperar terreno e penetrar no centro
político. BE e PCP sabem que uma maioria absoluta dos socialistas será obtida à
custa dos votos da esquerda. Ainda menos interessado numa maioria de António
Costa está Marcelo Rebelo de Sousa. Isso libertaria o governo da actual submissão
ao Presidente da República e tiraria a este qualquer possibilidade de
influenciar decisivamente a governação do país, como tem feito desde os
incêndios do ano passado.
Numa sondagem da Aximage, as intenções de voto no PS caem
pelo quarto mês consecutivo. Este declínio – aliado aos conflitos laborais, ao
preço dos combustíveis e à memória da tragédia dos incêndios – torna imprevisíveis
as negociações do próximo orçamento de Estado. Até há pouco toda a gente estava
convicta de que se o BE e o PCP derrubassem o governo socialista teriam pesadas
perdas eleitorais. Esta percepção, porém, pode estar a mudar. Neste momento,
não é claro que, em eleições antecipadas, os socialistas consigam ir buscar
votos à sua esquerda. Devido, principalmente, à acção do Partido Comunista,
instala-se a convicção, em parte do eleitorado de esquerda, de que um voto no
PS é um voto inútil, caso esse PS não esteja dependente dos partidos à sua
esquerda.
Os socialistas pensaram que iriam capitalizar o sucesso
político da solução governativa e ficaram presos nesse sucesso. A retórica da
saída da austeridade abriu a porta para que no Estado as reivindicações dos
vários corpos existentes se tornassem cada vez mais impiedosas. A narrativa do
fim da austeridade desfaz-se perante essas exigências e, também, o cansaço da
sociedade civil com a carga fiscal. Por outro lado, uma certa arrogância típica
dos socialistas está a escavar-lhe as bases de apoio. António Costa, que
parecia ter uma vida fácil, tem, a cada dia que passa, a vida mais complicada.
Nem os seus adversários políticos, nem os aliados actuais, nem o Presidente da
República, nem a população parecem dispostos a estender-lhe um dedo. Pelo contrário.
Desde há uns tempos que olho para António Costa e me lembro de Agamémnon, o rei
grego que encontrou a morte – isto é, a derrota – no regresso vitorioso de
Tróia. Dias difíceis para o PS.
quinta-feira, 7 de junho de 2018
O governo e os professores
A minha crónica no Jornal Torrejano.
O que terá levado o ministro da Educação a afirmar que, perante
a posição dos sindicatos, o governo, que tinha prometido recuperar quase três
anos do tempo em que as carreiras dos professores estiveram congeladas, não
contará qualquer tempo para a progressão docente? O ministro pode achar que é
uma estratégia brilhante para enfrentar os sindicatos, mas não percebeu como
ela é humilhante para os professores, que se sentem tratados como crianças que
são castigadas por um ministro a quem, na verdade, não reconhecem qualquer
autoridade política ou educativa. Como professor, não vou aqui advogar em causa
própria. O assunto é complexo e ambas as partes possuem razões que devem ser
ponderadas com sensatez e serenidade. O que me interessa é o aspecto político.
O governo, ao optar pela intransigência, acordou de imediato
na memória de muitos professores os tempos de Sócrates e de Lurdes Rodrigues.
Isto é o pior que pode acontecer para qualquer governo. A maioria absoluta de
Sócrates desfez-se com as peripécias de Lurdes Rodrigues. Quando Passos Coelho
chegou ao governo, a sua maioria foi conquistada com um apoio inesperado e
inusitado dos professores. As pessoas não se lembram já, mas o fim dessa
maioria começou num duro conflito entre o ministro Crato e os professores. Estes
que tinham dado o seu apoio ao PSD numas eleições retiraram-no nas seguintes.
Assim como Sócrates e Lurdes Rodrigues, também Crato e Passos Coelho
desapareceram do panorama político. Esse desaparecimento não se deve aos
conflitos com os professores, mas foi neles que as maiorias políticas se
começaram a desagregar. O conflito com os professores funciona como uma espécie
de profecia do fim.
Não compreendo como António Costa não percebe no que se está
a meter com este tipo de provocação. Se ele pensa que se vai poder gloriar como
uma certa ministra que proclamava que tinha perdido os professores mas ganho a
população, então não percebeu nada da realidade. Apesar da redução drástica do
número de docentes, o professorado é um corpo profissional enorme e com uma
presença capilar na sociedade portuguesa. Um corpo cansado de ser vexado desde
2005, um corpo profissional que, a continuar a ser tratado como o foi pelo
actual ministro, não hesitará em contribuir para enviar António Costa para o
limbo político onde residem os seus antecessores. Repito, há razões dos dois
lados que merecem ser ponderadas, mas tratar os professores como o fez Brandão
Rodrigues pode ter um preço político incalculável para António Costa.
sábado, 2 de junho de 2018
Um desafio ao Estado
A minha crónica em A Barca.
Volto ao futebol. Em A Barca de Agosto do ano passado, escrevi sobre o tribalismo que se apossou
desse jogo e como a vida tribalizada é necessária para os negócios, a começar
pelos da comunicação social. Os acontecimentos nas instalações de um dos
maiores clubes portugueses, com a sua invasão por um exército de adeptos e o
espancamento subsequente de jogadores e treinadores, manifestam a escalada
desse tribalismo para níveis inusitados. O que se passou na Academia
sportinguista de Alcochete não foi um mero acto arruaceiro ou uma simples acção
criminosa. Há algo muito mais grave do que as cenas de espancamento.
Para perceber a gravidade da situação é necessário tentar
olhar para o que desencadeou os acontecimentos. Na origem do ocorrido está, na
verdade, um conflito laboral. Uma parte – mesmo que ínfima – dos adeptos, isto
é, de alguém que se sente como fazendo parte da entidade patronal, não está
contente com o desempenho profissional dos empregados do clube e toma a decisão
de agir. O que significa isto? Significa que uma função essencial do Estado – a
da justiça – foi tomada de assalto não se sabe bem por quem. Secretamente, um
conjunto de indivíduos instituiu um processo informal a esses funcionários,
julgou-os, proferiu uma sentença e executou-a ou fê-la executar.
A acusação de terrorismo imputada aos adeptos presos parece
deslocada, mas a usurpação de funções soberanas do Estado é clara. Assistimos a
uma das tribos do futebol a constituir-se efectivamente como um Estado dentro
do Estado, a agir segundo uma lei privada e dentro de instituições alternativas
ao Estado. O que se viu não foi um mero exercício de violência mas a
manifestação indisfarçável da fragilidade das nossas instituições políticas.
Não foi o Sporting que saiu mal na fotografia, não foi o futebol nacional que
foi vilipendiado. Tudo isso é irrelevante.
Relevante é o facto do país ter sido humilhado ao tornar-se
patente que as suas instituições são desafiadas por instituições secretas de
natureza tribal, com os seus códigos do trabalho e penal, cerimónias
processuais e procedimentos de execução de penas. Um Estado dentro do Estado. O
mais preocupante é a complacência instalada. Instalada na comunicação social.
Instalada nas elites políticas. Estas assobiam para o lado como se o que
aconteceu tivesse sido uma escaramuça entre adeptos exaltados. Não foi. Foi um
desafio deliberado à soberania nacional e ao ordenamento jurídico que determina
que o Estado possui os monopólios da justiça e da violência legítima.
quarta-feira, 30 de maio de 2018
A eutanásia, dois problemas
Salvador Dali, El caballero de la muerte, 1934
Ontem foram discutidos na Assembleia da República quatro
projectos de lei que visavam legalizar a eutanásia. Todos os projectos foram
chumbados. Contudo, segundo alguns deputados, o problema voltará ao parlamento
na próxima legislatura. A questão parece-me demasiado complexa para que não
haja sobre ela uma discussão muito mais ampla e profunda. Até à tomada de
posição do Partido Comunista Português, a questão estava inquinada com a
suspeita de que a oposição à eutanásia se devia, em última análise a motivações
religiosas, as quais não podem ser impostas a não crentes. A recusa do PCP em
apoiar a legalização deslocou a discussão para outro plano que não o religioso.
Há dois problemas que me afligem na legalização da eutanásia.
O deputado comunista João Oliveira argumentou que "a legalização da
eutanásia não pode ser apresentada como matéria de opção ou reserva
individual". É aqui que se encontra um dos principais problemas. Não terá qualquer
pessoa o direito à propriedade de si mesma e a dispor de si e da sua vida como
entender? Não estará incluído no direito de dispor de si o direito a determinar
a sua morte? Coloquemos de lado o espinhoso problema de alguém ser propriedade
de si mesmo. Poderá haver um direito a morrer?
A morte é o momento em que cessa a capacidade de uma pessoa
reivindicar os seus direitos. Reivindicar um direito a morrer é exigir um
direito para fazer cessar a capacidade de reivindicar qualquer direito. Ora os
direitos humanos – onde vem em primeiro lugar o direito à vida – são considerados
no mundo ocidental inalienáveis. Será compatível com a estrutura dos direitos
humanos um suposto direito a morrer, isto é, um direito a alienar todos os seus
direitos? Se considerarmos os direitos humanos – entre eles, o direito à vida –
como incondicionais, então não me parece possível, sem que o direito à vida se
relativize e se torne alienável, invocar um direito a ser auxiliado a morrer.
Vejamos o caso de outro ponto de vista. A morte, na verdade,
não é um direito é um facto. Um indivíduo, com poder para isso, pode produzir
esse facto suicidando-se. É um acto privado que se funda numa capacidade
pessoal e não em qualquer direito. Muitos doentes terminais não estão em
condições de o fazer. A defesa da legalização da eutanásia responde a essa
incapacidade criando a possibilidade de, em certas circunstâncias, o Estado não
criminalizar a participação de terceiros na morte daquele que é incapaz de pôr
fim à vida.
O que significa isto? Significa que se passa do suicídio
como acto privado para o suicídio assistido e a eutanásia voluntária como actos
públicos, juridicamente permitidos. Esta transição não é inócua. Será admissível
ao Estado permitir, através do reconhecimento do direito a executar a eutanásia,
que alguém participe na morte de outra pessoa, mesmo que a pedido desta? Se
exceptuarmos o caso extremo da guerra, o Estado não apenas não permite que
alguém mate outra pessoa como se impediu a si próprio de matar. Legalizar a
eutanásia é permitir que alguém ponha fim a uma vida e, se o Serviço Nacional
de Saúde fosse convocado para tal, é conferir a um serviço do Estado o poder de
tirar a vida.
A eutanásia, para além das questões religiosas, as quais
dizem apenas respeito aos crentes e não podem ser projectadas sobre a vida dos
não crentes, e dos dramas terríveis que envolvem as pessoas em estado terminal,
vem colocar em cheque duas crenças fundamentais do nosso modo de vida. Nós
acreditamos que os direitos humanos são incondicionais e inalienáveis. A
permissão da eutanásia mostra-os como relativos e alienáveis. Acreditamos que o
Estado não pode permitir que alguém mate e que ele próprio não pode matar. A
eutanásia vem abrir uma excepção numa crença tida, também ela, como
incondicional. A sociedade precisa de pensar mais maduramente o problema.
sexta-feira, 18 de maio de 2018
Maio de 68 e democracia
A minha crónica no Jornal Torrejano.
Passam este mês 50 anos dos acontecimentos que ficaram
conhecidos por Maio de 68, um conjunto de revoltas estudantis que se
prolongaram numa onda grevista, sem precedentes, dos operários franceses. Por
norma, salienta-se a natureza excepcional desses acontecimentos, onde se
aliaram reivindicações libertárias dos estudantes, na área dos comportamentos
sociais e sexuais, com as exigências sindicais bem mais prosaicas por parte
significativa da mão-de-obra francesa. Aos acontecimentos – fundamentalmente,
às exigências estudantis – ficou adstrito todo um folclore que nunca deixou de
assombrar a política de uma certa Europa. Nem sempre se afirma, porém, com
suficiente clareza, que as eleições democráticas de 30 de Junho desse ano
liquidaram, no plano político, o processo começado na Universidade de Paris,
Nanterre, com o movimento espontaneísta e libertário do 22 de Março.
As autoridades francesas começaram por tentar travar a crise
estudantil através da repressão, recorrendo à violência policial. Foi como usar
gasolina para apagar uma fogueira. Os acontecimentos políticos duraram cerca de
dois meses e morreram nas eleições antecipadas. Ao devolver a palavra à
população, o problema político ficou resolvido. O poder adquiriu uma nova
legitimidade, embora o fim político do general de Gaulle tivesse ficado
traçado. A revolta dissolveu-se como que por encanto. Passados cinquenta anos,
numa altura em que a democracia representativa parece sofrer de uma grave
doença, que alguns parecem desejar que seja fatal, não será descabido sublinhar
este facto tantas vezes esquecido pela nostalgia dos soixante-huitards reais ou imaginários.
O Maio de 68 foi uma porta por onde passou muito do que
estava em gestação na sociedade francesa e ocidental. O Vaticano II, a guerra
do Vietname, a descolonização da Argélia, a prosperidade do pós-segunda-guerra,
a descoberta e legalização da pílula, tudo isso tinha gerado tensões de
natureza social, política e comportamental, as quais precisavam de uma abertura
para emergirem no palco do mundo. O Maio de 68 foi essa abertura. Muito do que
entrou por essa porta tornou-se o nosso modo de vida. Isso e a mitologia que
foi produzida nos anos subsequentes criaram uma névoa que oculta o essencial.
As dinâmicas libertária e esquerdista do movimento, ambas claramente
antidemocráticas empalideceram e morreram na consumação de um acto eleitoral. É
desconsolador chamar a atenção para o facto, mas nestes dias difíceis para a
democracia, é bom não esquecer os recursos que esta possui.
sexta-feira, 4 de maio de 2018
A nossa pátria
A minha crónica no Jornal Torrejano.
Ao comprar a nova tradução de Frederico Lourenço da Odisseia de Homero, lembrei-me da
célebre frase de Fernando Pessoa ou, melhor, de Bernardo Soares: Minha pátria é a língua portuguesa. Há
nesta frase um equívoco qualquer. A língua portuguesa, como outras, é apenas
uma pátria de acolhimento. Na verdade, somos uma espécie de refugiados de uma
pátria mais arcaica e fundamental. Que pátria é essa? É aquela que Frederico
Lourenço, através das suas traduções de Homero e da Bíblia, está a expor aos
portugueses. Não é uma pátria territorial, mas uma herança com cerca de três
milénios.
A nossa pátria é a poesia dos gregos. De Homero, de Hesíodo,
de Píndaro, de Ésquilo, de Sófocles e de muitos outros. A nossa pátria é a
filosofia de Platão e de Aristóteles. A nossa pátria é a poesia latina de
Horácio, Ovídio, Virgílio. Inclui Cícero, Marco Aurélio, Tito Lívio. A nossa
pátria é o Antigo Testamento e o Novo Testamento, Agostinho de Hipona e Tomás
de Aquino. Apesar de esforços hercúleos de alguns – como Frederico Lourenço –,
a nossa pátria arcaica está a ser corroída pelo abandono a que nós, seus filhos
e cidadãos, estamos a votá-la.
É nos autores clássicos greco-latinos e nos dois Testamentos,
que constituem o livro sagrado do Cristianismo, que estão os fundamentos
daquilo que somos. É lá que residem as fontes que nos alimentaram nos últimos
milénios. A descristianização e o abandono, na instrução escolar, da leitura
dos clássicos estão a introduzir, desde há décadas, uma brecha entre as
gerações actuais e fundo cultural que lhes deu origem, sentido e substância. A
partir de certa altura, parece ter-se constituído uma conspiração com a
finalidade de cortar as novas gerações da ligação ao passado e apagar, na sua
memória, o conhecimento dessa herança que nos trouxe até aqui.
A aventura do homem ocidental não começou com a revolução
científica do século XVII, o Iluminismo, a revolução industrial e tecnológica,
o liberalismo e a democracia. Começou muito mais cedo, começou nesse tempo e
com essa herança que hoje queremos esquecer. Esquecer a nossa origem não é
apenas um problema de má memória mas um efectivo suicídio colectivo. Sem a
memória do passado, a identidade torna-se de tal maneira frágil que seremos
levados por um qualquer vendaval que a História está sempre pronta a oferecer.
A leviandade com que estamos a descartar os clássicos greco-latinos e o
Cristianismo, a matar a nossa pátria arcaica, é o sintoma de uma doença que tem
todo o ar de ser fatal.
segunda-feira, 30 de abril de 2018
No reino da caricatura
A minha crónica em A Barca.
Nos anos 90 do século XX vivia-se uma onda de
democratizações, a qual teve início em Portugal, no ano de 1974, e se prolongou
com o fim dos Estados ditos socialistas na Europa de Leste. A democracia
representativa parecia ser o destino final de qualquer regime político. Seria
uma questão de tempo para que Estados autoritários se tornassem democráticos.
Passados vinte anos, a democracia representativa está moribunda em muitos
lugares e mesmo na Europa e nos Estados Unidos apresenta sintomas de doença
grave.
As causas económicas, sociais e políticas da patologia são
múltiplas. Deixo-as de lado, para comentar um outro aspecto que os próprios
regimes democráticos, pela sua natureza, não conseguem ver. Trata-se da
dessacralização do poder. As democracias nasceram da decomposição dos Estados
absolutos ou, mais recentemente, de regimes autoritários. Tanto num caso como
no outro, a figura do governante estava sacralizada de tal maneira que o
cidadão comum quase via uma auréola à volta da cabeça do homem político.
As democracias vivem da separação entre o poder político e a
religião. Essa separação, contudo, não implicou de imediato que o governante de
uma democracia fosse visto como um homem normal. A sacralidade do poder,
herdada dos regimes depostos, envolvia-o ainda e dava-lhe uma legitimidade
simbólica que completava a legitimidade dos votos. A partir de certa altura,
com o crescimento dos órgãos de comunicação de massas, em especial da
televisão, a visão do homem político pelos cidadãos muda. As pessoas começam a
perceber que ele é um homem como qualquer outro e não um representante da
divindade.
Com o advento das redes sociais, a dessacralização do
político torna-se total. Escrutinado impiedosamente dia e noite por voyeurs ávidos, caluniado por
adversários sob a cobertura do anonimato, o homem político emerge aos olhos das
pessoas em toda a sua venalidade. A máscara da velha gravitas do poder cai. Vaidoso, arrogante, mentiroso, pleno de
caprichos, muitas vezes corrupto, é isto que o homem comum vê nos políticos,
agora que o véu sagrado que cobria o poder foi queimado na praça pública.
Perante o desencantamento, o eleitor parece ter um plano de
vingança. Se aqueles que têm governado, apesar da gravidade e ar respeitável
que ostentam, são pessoas comuns e venais, então que se escolham aqueles que não
disfarçam. Os eleitores passaram a eleger autênticos clowns, gente claramente não confiável e, muitas vezes, risível. Através
de escolhas caricatas, o eleitorado – irado e irónico – parece apostado, agora
que lhe roubaram a ilusão de um poder sagrado, em transformar as democracias em
reinos da caricatura.
sexta-feira, 20 de abril de 2018
O desafio
A minha crónica no Jornal Torrejano.
Tenho
estado a ler The Benedict Option: A
Strategy for Christians in a post-Christian Nation, um livro do conservador
Rod Dreher. O autor, um cristão ortodoxo americano, defende que os
Estados Unidos são já uma sociedade pós-cristã. O livro apresenta uma proposta
de resistência dos cristãos ao modo de vida actual. Uma parte dessa estratégia
passa pela educação das novas gerações. Dreher defende que as famílias cristãs
devem evitar educar os filhos nas escolas públicas. Caso não tenham dinheiro
para uma escola de orientação religiosa, a opção é fazer a escolaridade em
casa, para as novas gerações não serem contaminadas pela cultura existente na
sociedade pós-cristã.
Deixando de lado a visão apocalíptica do autor, há um
problema crucial que se coloca relativamente à educação das novas gerações. E
esse problema toca a cristãos, agnósticos e ateus. Como fazer passar os valores
familiares para os filhos? A questão surge pelo peso desmesurado que os grupos
de amigos, que se constituem, por norma, na escola, têm na formação dos jovens.
Esses grupos inscrevem-se numa cultura que rompe, de forma radical, com os
valores da família, cultura essa que é um produto híbrido entre a imaturidade
das novas gerações e a manipulação a que elas são sujeitas por adultos
obscuros, mas poderosos, escondidos atrás dos produtos de consumo, dos grandes
meios de comunicação de massas e das redes sociais. As chamadas culturas
juvenis fomentam, no mundo ocidental, a afirmação do jovem não pela emulação de
um modelo parental mas pela revolta sistemática contra ele.
O resultado de tudo isto é aquilo a que o sociólogo polaco
Zygmunt Bauman chama modernidade líquida. Nada no mundo contemporâneo é sólido.
Não o são as instituições e ainda menos o é a cultura. As culturas ditas
juvenis são uma das principais armas de liquefacção do mundo e introduzem
rupturas, quase sempre dolorosas, entre gerações. O diagnóstico de Rod Dreher
não é despropositado, pois o problema é real, tanto nos EUA como na Europa. A
rasura dos valores das gerações anteriores é um problema não apenas porque
afecta a transmissão de uma identidade colectiva, mas porque desarma os jovens
perante as ciladas do mundo. Ao contrário do que propõe Dreher com o seu
anátema da escola pública, precisamos de uma estratégia em que famílias e
escolas (públicas e privadas) encontrem meios que ajudem as novas gerações a
enfrentar o mundo e a preservar as tradições morais e culturais, de âmbito
religioso ou não, que lhes darão uma identidade sólida mas adaptável a um mundo
em dissolução contínua. É este o desafio.
sábado, 7 de abril de 2018
Alma Pátria - 43: Manuel Freire - Pedra Filosofal
Da realidade do sonho. Pedra Filosofal é uma das canções emblemáticas
do fim do salazarismo e do início da chamada primavera marcelista. Na verdade,
é, se se estiver atento e não embotado pela saudade ou enviesado pela
ideologia, a confissão de uma impotência ou, melhor, de um desejo a que falta potência. A realidade, essa meretriz que se
vende a quem tem o poder, era pouco dada ao devaneio onírico. Restava tomar o sonho por realidade, a boa e desejável
realidade que “eles” não conhecem. Este “eles”, na sua imprecisão referencial,
é sintomático de um tempo de censura, mas também de uma incapacidade de inscrição
do desejo na realidade, para falar à maneira de José Gil. Eles não sabem nem sonham / Que o sonho comanda a vida. O pior de
tudo no devaneio onírico é que o sonho de uns é o pesadelo de outros. Uma bela balada.
sexta-feira, 6 de abril de 2018
Transparência e terror
Raoul
Hausmann, Corbeilles de lumière,
1931
A caminho da completa transparência. "Pensamentos" transformados em palavras através de um dispositivo com inteligência artificial. Esta notícia deveria alarmar-nos, mas não alarma. Pelo contrário, é observada com boa disposição. No entanto, transformar o nosso diálogo interno em sons é abrir as portas para o inferno. O inferno é a transparência absoluta. Até hoje, a vida interior estava resguardada pelo silêncio. Há coisas que pensamos e que não queremos que ninguém saiba. Há coisas em nós que nós próprios não sabemos e não queremos saber. Fazem parte do fundo sombrio que todos os seres humanos trazem em si e que, por norma, aprendem a domar ou a recalcar. A vida de cada um de nós é, e deve ser, translúcida. Nem completamente opaca, nem completamente transparente. Esta descoberta inscreve-se no caminho para a total transparência. A transparência total é a destruição da privacidade e, em última análise, a destruição da pessoa, com a possibilidade da sua total exposição pública. Não se trata já de se saber tudo o que fazemos e tudo o que dizemos, mas também de tudo o que pensamos e, mais grave ainda, aquilo que se pensa em nós, apesar da censura que lhe fazemos. Estamos alegremente a criar os dispositivos para um terror absoluto.
quinta-feira, 5 de abril de 2018
Ensaio sobre a luz (33)
Deborah Turbeville, Anh Duong and Marie-Sophie in Emanuel Ungaro, VOGUE, Chateau Raray, France, 1984
A luz que se esconde no negro da nostalgia abre-se radiosa sobre a pele e, pura, traça um caminho de esperança no corpo em expectativa.
quarta-feira, 4 de abril de 2018
No Limiar da Porta 4. Um rumor rasga
Claude Monet, The Bodmer Oak, Fontainebleau Forest, 1865
4. Um rumor rasga
Um rumor rasga
os trilhos da
aurora.
Morros e medronhos.
Casas de cinza.
A armada da manhã
no bulício do
bosque.
terça-feira, 3 de abril de 2018
Descrições fenomenológicas 32. A Praça do Silêncio
Lucio Fontana, Concetto sapziale, Attese, 1959
Ao fundo, erguem-se as torres da catedral, crescem para o céu, fendem
a névoa e a noite. No cimo de uma, a luz rasga a escuridão e deixa um sinal
para os que esperam a agrura da aurora ou ainda sonham uma salvação. A chama dos
candeeiros públicos deixa suspeitar o vazio silencioso que cobriu a praça. Sob as
arcadas de um prédio antigo, o comércio dorme embalado pelo longínquo murmúrio
da cidade. Ninguém passa por ali, como se o lugar fosse interdito e uma
maldição caísse sobre o transeunte incauto. O cedro, a única árvore que se
avista daqui, treme e inclina-se pelo peso do vento. Um anjo de bronze repousa
hirto num pedestal de betão. As asas presas nas costas anunciam a sua condição.
A cabeça inclina-se para a frente e o olhar fixa-se na terra. Ao lado, a poucos
metros de distância, outro pedestal suporta o peso de um homem de bronze.
Também ele inclina a cabeça e olha para o chão. Anjo e homem, despidos, exibem
os sexos. A luz de um candeeiro reverbera naqueles corpos metálicos e deixa ver
os braços decepados. O silêncio progride no vazio da praça. Um cão atravessa-a
e deita-se junto ao pedestal do anjo. Espera.
segunda-feira, 2 de abril de 2018
No reino da caricatura
A minha crónica em A Barca, de Abril.
Nos anos 90 do século XX vivia-se uma onda de
democratizações, a qual teve início em Portugal, no ano de 1974, e se prolongou
com o fim dos Estados ditos socialistas na Europa de Leste. A democracia
representativa parecia ser o destino final de qualquer regime político. Seria
uma questão de tempo para que Estados autoritários se tornassem democráticos.
Passados vinte anos, a democracia representativa está moribunda em muitos
lugares e mesmo na Europa e nos Estados Unidos apresenta sintomas de doença
grave.
As causas económicas, sociais e políticas da patologia são
múltiplas. Deixo-as de lado, para comentar um outro aspecto que os próprios
regimes democráticos, pela sua natureza, não conseguem ver. Trata-se da
dessacralização do poder. As democracias nasceram da decomposição dos Estados
absolutos ou, mais recentemente, de regimes autoritários. Tanto num caso como
no outro, a figura do governante estava sacralizada de tal maneira que o
cidadão comum quase via uma auréola à volta da cabeça do homem político.
As democracias vivem da separação entre o poder político e a
religião. Essa separação, contudo, não implicou de imediato que o governante de
uma democracia fosse visto como um homem normal. A sacralidade do poder,
herdada dos regimes depostos, envolvia-o ainda e dava-lhe uma legitimidade
simbólica que completava a legitimidade dos votos. A partir de certa altura,
com o crescimento dos órgãos de comunicação de massas, em especial da
televisão, a visão do homem político pelos cidadãos muda. As pessoas começam a
perceber que ele é um homem como qualquer outro e não um representante da
divindade.
Com o advento das redes sociais, a dessacralização do
político torna-se total. Escrutinado impiedosamente dia e noite por “voyeurs”
ávidos, caluniado por adversários sob a cobertura do anonimato, o homem
político emerge aos olhos das pessoas em toda a sua venalidade. A máscara da
velha gravitas do poder cai. Vaidoso,
arrogante, mentiroso, pleno de caprichos, muitas vezes corrupto, é isto que o
homem comum vê nos políticos, agora que o véu sagrado que cobria o poder foi queimado
na praça pública.
Perante o desencantamento, o eleitor parece ter um plano de
vingança. Se aqueles que têm governado, apesar da gravidade e ar respeitável
que ostentam, são pessoas comuns e venais, então que se escolham aqueles que não
disfarçam. Os eleitores passaram a eleger autênticos clowns, gente claramente não confiável e, muitas vezes, risível. Através
de escolhas caricatas, o eleitorado – irado e irónico – parece apostado, agora
que lhe roubaram a ilusão de um poder sagrado, em transformar as democracias em
reinos da caricatura.
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