sábado, 28 de novembro de 2020

Beatitudes (33) Noites de Inverno

Hiroshi Hamaya, Winter starts on peak of Mount Fuji. Japan, 1962

Não os Invernos reais, mas aqueles que imaginamos terem acontecido alimentam longos sonhos que, pela noite fora, se sonham diante da lareira. A neve a cair, o vendaval desabrido, o frio que a tudo cobre. Por vezes, acorda-se e bebe-se uma bebida bem forte para enfrentar o frio, não porque na casa esteja frio, mas porque se sonha com ele. Nessas noite longas, pensa-se, no meio de dois sonhos, que pouco faltará na perfeição do mundo. 

sexta-feira, 27 de novembro de 2020

Nocturnos 39

Ivan Nikolaevič Kramskoj, Moonlit Night, 1880
Não há como a noite para um longo abandono à melancolia. O corpo descansa, a solidão cresce envolta em sombras e o luar deixa correr fios de luz sobre a paisagem, para que o coração se entregue a um longo devaneio, enquanto a consciência é cruzada por mil pensamentos que mal nascem logo se desvanecem.

quinta-feira, 26 de novembro de 2020

Descrições fenomenológicas 60. Um porto

Esteban Vicente, Goyescas, 1983

Da porta da pequena ermida situado no outeiro, quase em cima da costa, vê-se o movimento marítimo de um porto antigo. À direita, as grandes construções, armazéns e, um pouco mais ao fundo, estaleiros, entregues à construção e à reparação de barcos de pequeno e médio porte. Levados pela necessidade, operários e homens do mar atravessam apressados o cais, enquanto gente aturistada deambula por ali ávida, como todos os turistas, de ver aquilo que nunca haverá de ver e muito menos compreender. O céu está mesclado de nuvens que ora coam a luz, criando uma atmosfera de irrealidade, uma paisagem de fantasia, o exercício romântico de um pintor obcecado com o sublime das emoções que lhe perturbam a alma, ora deixam o campo aberto para que os raios solares incendeiem as águas e ateiem súbitas e estranhas cintilações de fogo nas pedras do molhe, que se vê à esquerda. As águas, tranquilas até à afabilidade, entretêm-se nesse jogo de mudança de cores, ora cinzentas, ora verde-azuladas, ora quase acastanhadas. Não é dia de grande tráfego portuário. Alguns veleiros sulcam as águas, as velas desfraldadas, uns aproximando-se de terra, outros afastando-se, diminuindo de tamanho até se tornarem um ponto a desaparecer na linha do horizonte. Num dos cais, à borda das águas, mesmo alinhado com a ermida, está, sobre um pilar de pedra cinzenta, um oratório não muito grande, encimado por cruz de madeira. Diante dele, está parada uma pequena embarcação. Dois homens inclinam a cabeça e permanecem assim por largos minutos, murmurando súplicas e desfiando gratidões. Depois, põem o barco em movimento e afastam-se lentamente, enquanto o sol irrompe de novo e resplandece como se tivéssemos voltado ao quarto dia da criação e os grandes luzeiros acabassem de ter sido colados pela mão de Deus na tela gigantesca do firmamento.

quarta-feira, 25 de novembro de 2020

Simulacros e simulações (3)

Roy Pinney (att.), sem título, c. 1950
A perspectiva dissolve o mundo e aquilo a que o hábito atribui realidade transforma-se na pequena sombra de uma sombra gigantesca que desliza pelas ruas, na sua inquietante desmesura, furtiva e vacilante, envolta no silêncio calcinado pelo sol.

terça-feira, 24 de novembro de 2020

A Garrafa Vazia 29

Ricardo da Cruz-Filipe, Questions du Réel, 1976
Um punhal de peçonha
desliza no tempo,
abra-te
uma fístula
na parede das artérias,
na lei do mundo,
a mão vazia
com que seguras
a garrafa
e bebes o sol da cicuta
no crocitar do Inverno.

Dezembro de 2019

segunda-feira, 23 de novembro de 2020

Perfis 9. O monge

Jakub Schikaneder, Contemplation (Monk on the sea shore), 1893

Não é uma estátua nem um homem que a natureza tenha petrificado. Não está perdido, nem anda à deriva. No silêncio rumorejante das águas e na infinidade das areias, procura uma voz, uma palavra, o eco reverberante de um mistério. Talvez a sua alma não seja ainda suficientemente pura e nela haja, escondida em secreto desvão, uma gargalhada transbordante por aqueles que se alvoroçam e agitam com os negócios do mundo, as dores da riqueza ou da miséria, as ânsias do poder ou da servidão. Ele tem o seu caminho. Percorre-o ao crepúsculo, mesmo ao sol do meio-dia, mesmo nas trevas da noite. Nunca a luz que o guia é demasiado cintilante, nunca se apaga, mas persiste hora após hora naquela suave claridade que a tudo deixa ver e a que a tudo oculta. Vigia o oceano, observa o voo das gaivotas, contempla o revérbero de um minúsculo grão de areia, escuta o silabar do vento, e em tudo isso encontra sempre uma outra figura e uma outra voz. Dá pequenos passos como se temesse esmagar a terra, como se não tivesse pressa de chegar a lado algum, pois qualquer sítio é o seu lugar. Pára, respira com suavidade e deixa-se tomar pela ondulação do tempo. Nela, tacteia a eternidade e sente o aroma do infinito. Torna a caminhar. Atrás dele ficam as marcas dos seus passos, mas não olha para trás, para aquilo que as ondas apagarão. Por vezes, coloca a mão sobre os olhos e enfrenta o Sol que se esvai no horizonte. Logo se volta e olha a terra. Mais um passo e os sentidos perdem-se dentro de si. Ouve um cântico. Não sabe de onde vem, se das esferas celestes, se do ventre da terra, se das águas volúveis. A sua voz deixa-se arrastar e ele canta, pois aquele é o seu cântico, o que escutava antes de ser, o que entoará ao deixar de ser.

domingo, 22 de novembro de 2020

Nocturnos 38

Caspar David Friedrich, Sea Shore in Moonlight, 1835-36

O mar chegou envolto na luz da Lua. Trouxe consigo as nuvens de Inverno, um aroma de água salgada empurrado pelo vento e frágeis veleiros mergulhados na aventura da noite oceânica, temerosos das tempestades, desejosos de um porto, onde os marinheiros se possam sentar ao lume e beber o vinho velho da solidão.

sábado, 21 de novembro de 2020

Pandemia e a vantagem do meio termo

Depois de uma pequena acalmia, a pandemia de COVID-19 escalou. Contágios, internamentos, utilização de cuidados intensivos e mortes, tudo isso apesenta números que são já assustadores. É fácil criticar os governos, difícil, porém, é ter, com os recursos existentes e com os conhecimentos disponíveis, respostas que agradem a todos ao mesmo tempo. Este artigo não versa sobre o combate epidemiológico, sobre o qual não tenho ideia alguma, nem, tão pouco, sobre a gestão política concreta. Pretendo chamar a atenção para um outro aspecto que a resposta a dar a esta pandemia suscita.

Assiste-se, não poucas vezes, a um combate feroz entre duas ideias sobre a sociedade. Para uns, a colectividade deve sobrepor-se ao indivíduo, por vezes de tal maneira que abole as liberdades deste e sufoca-o no meio da massa. Para outros, a comunidade é uma ficção, só os indivíduos, com os seus interesses próprios, existem. Entre estes dois extremos, há concepções intermédias. A pandemia surge como uma razão forte para preferirmos, seguindo a lição da moral aristotélica, o meio termo entre o colectivismo e o individualismo.

A espécie humana não conseguirá  responder a esta pandemia com o mínimo de sucesso se os mecanismos comunitários, de onde se destacam as instituições públicas de saúde, não funcionarem, se o Estado, enquanto representante da comunidade, não mobilizar mecanismos de solidariedade que atenuem o impacto na economia e na vida das pessoas. A força da comunidade tem um papel muito importante na presente situação. No entanto, ela é apenas o outro lado da dimensão individual. O combate à pandemia passa pelos indivíduos, pela sua autonomia, pela sua liberdade e pela sua responsabilidade. Passa pela capacidade de pôr freio ao egoísmo espontâneo, usando a sua liberdade para se conter e evitar a propagação da doença.

Nem um colectivismo que reduz os seres humanos à massa, nem um individualismo egoísta e negador da comunidade têm grande coisa a oferecer. Ao primeiro, falta a liberdade das pessoas que implica a sua responsabilidade individual. Ao segundo, falta-lhe a importância dos mecanismos de solidariedade dentro da comunidade. A resposta à pandemia exige um equilíbrio, um meio termo que é, na verdade, a justa medida, que nos permitirá enfrentar, com menos perdas, o terrível inimigo que nos coube. A resposta sensata à pandemia reforça a posição daqueles que defendem, para a vida política, um equilíbrio entre o liberalismo e o socialismo, entre a liberdade dos indivíduos e a solidariedade dentro da comunidade.

sexta-feira, 20 de novembro de 2020

Ensaio sobre a luz (88)

Hiroshi Hamaya, A girl carrying a baby on her shoulders as she goes to make errands in the snow covered landscape of Aomori. Japan, 1955

A vida reflectida na brancura da neve pesa sobre os ombros. O corpo inclina-se, a respiração hesita, e um universo ofegante desenha-se sobre a paisagem tomada pela a ausência. Se há um tumulto, ele é invisível, escorre do coração e perde-se não se sabe em que cisterna do corpo. Se os passos se suspenderem, a luz benévola, instigada pelo vento, torna-se homicida.
 

quinta-feira, 19 de novembro de 2020

A Garrafa Vazia 28

Marcelino Vespeira, Aroma – amora – Óleo 52, 1950
Um cavalo de ferro ergue-se
na campina
e galopa.

Sou o cavaleiro e canto
perdido na poeira
do caminho.

Tremo no trémulo temor
de quem
fustiga o fado.

Bebo o sangue e o vinho
nas veias
laceradas pelo lacre da morte.

Dezembro de 2019

quarta-feira, 18 de novembro de 2020

Nocturnos 37

Fred Kradolfer, New York, 1921

O azul da noite levita sobre a cidade, quase uma música, quase um fruto maduro. Os prédios envolvem-se no véu e esperam em golfadas de oiro e néon a luz que, passado o tempo oceânico da escuridão, lhes traga a seda da aurora desenhada na rosácea furtiva do primeiro crepúsculo.

terça-feira, 17 de novembro de 2020

Perfis 8. O homem do saco

Margaret Bourke-White, World’s Highest Standart of Living. There’s no way like the American Way, 1937

O boné protege-lhe os olhos da luz e impede-o de olhar para cima. Aquilo que está no alto não lhe diz respeito, pertence a outro mundo que não o dele. Chegou à fila dos necessitados, dos que precisam que lhes dêem comida e roupa, ainda tomado pela vergonha. De fato completo, com gravata presa por alfinete, por cima um sobretudo que o protegerá do frio. Será a última réstia de um orgulho ferido, um exercício de respeito por si, uma rememoração doutros tempos. Tudo já teve melhores dias e, talvez, outrora tivesse havido no coração um princípio de esperança e no olhar cintilações de alegria, no peito e no cérebro projectos de uma vida feliz. Agora parece que perdeu a alma, quase uma estátua entre estátuas que estendem a mão como se não a tivessem. Não há na face um sorriso nem um esgar de dor, nem de ódio, nem de revolta. Apenas a pacificação de estar ali onde não queria estar, apenas o desconsolo de ter de transportar na mão um velho saco de papel, que alguém há-de encher, para que o corpo suporte a fome e o frio que dançam tão perto. Vemo-lo a dar pequenos passos, discretos e silenciosos, enquanto a fila se move para o seu destino. Vemo-lo como se já poucas coisas no mundo lhe interessassem. Os olhos fixam-se no horizonte, mas nada vêem. Uma cegueira, nascida no fundo da alma, tomou conta deles e começou a espalhar-se pela envolvência. A realidade não passa de um conjunto de vultos sombrios, de vozes distorcidas, de crenças desfeitas pelas ondas turbulentas da existência. A única coisa viva naquele corpo é a mão que, discreta e delicada, pega no saco de papel, como se pegasse na possibilidade de ainda haver um amanhã, de ainda ter um nome, de poder andar nas ruas e de olhar para o alto e para a luz.

segunda-feira, 16 de novembro de 2020

Simulacros e simulações (2)

Peter Turnley, Paris, 1975
Uma sombra e outra sombra rasgam em silêncio a luz matinal. Vão sonâmbulas, caminham como se levitassem. Espera-as a caverna, onde não serão mais do que aparências imponderáveis projectadas no ecrã de pedra para onde ninguém olhará.

domingo, 15 de novembro de 2020

Knut Hamsun, Pan

Interpretado, por vezes, como um romance de amor, Pan, do norueguês Knut Hamsun (Nobel em 1920), publicado em 1894, encena o conflito entre a vida livre do bom selvagem e a vida civilizada. É, também, uma releitura do mito de Pã, do deus grego dos bosques e das florestas, e da sua paixão pela náiade Sírinx. Nessa releitura não falta sequer o piloto Tamo que anuncia ao mundo a morte do grande Pã. O romance faz parte do conjunto de obras onde o autor contesta radicalmente a vida e os valores burgueses, esse mundo regulado pela burocracia e por regras que aniquilam o instinto vital. Não o faz, todavia, numa perspectiva social que tocou o realismo ou o naturalismo literários e, mais tarde, o neo-realismo, mas do ponto de vista do herói individual, da afirmação do carácter único do indivíduo. Não como uma singularidade que persegue o interesse próprio, tal como o burguês, mas de uma individualidade que emerge do tumulto da natureza e que nele pretende voltar a mergulhar.

O Tenente Thomas Glahn, aos 28 anos, foi para as terras selvagens do norte da Noruega, onde aluga uma cabana de caça, adoptando um modo de vida frugal. Os dias eram passados na floresta, na companhia do seu fiel cão de caça Esopo. A vida selvagem e desordenada eram o ambiente natural onde florescia a vida espiritual do militar. Uma espiritualidade tipicamente pagã, vivida através da divinização da natureza. Aquele era o lugar para um homem meio selvagem. No entanto, a vida civilizada, de uma povoação próxima, cruzava-se com os seus caminhos. Neles atravessou-se Edwarda e uma paixão exaltada nasceu no coração de Glahn.

Essa paixão, aliás correspondida, arrastou-o para contactos com a sociedade organizada do povoado adjacente, onde o pai de Edwarda, Herr Mack, um rico comerciante, tinha um papel central. Estes contactos sociais são, então, ocasiões para que Thomas Glahn ostente um carácter imprevisível, surpreendente e, quase sempre, pronto a quebrar as regras da civilidade. Hamsun explora aqui a tensão entre a espontaneidade do homem bravio e a artificialidade e afectação que as pessoas em sociedade necessitam de ostentar. Está em jogo o confronto entre a autenticidade existencial, por vezes brutal, e a vida falsificada produzida num mundo em que as arestas são limadas para que se evite o espectáculo da dor ou do prazer excessivos. Ora, era essa disrupção que a conduta de Glahn introduzia na vida social que conduziram a um ostensivo afastamento de Edwarda. Acabada a época de caça, esse Verão das terras do Norte, o militar foi-se embora. A sua náiade rejeitara-o.

O romance é composto por duas partes. A primeira, com cerca de 150 páginas, tem por título ‘Segundo os papéis do Tenente Thomas Glahn’. É narrada na primeira pessoa, uma espécie de rememoração do próprio Tenente. Começa assim: Ultimamente tenho pensado e repensado no Verão do Nordland e nos seus dias intermináveis. Estou aqui sentado a pensar nisso, mas também numa cabana onde vivi, e no bosque atrás dessa cabana, e vou anotando essas coisas para passar o tempo; para me entreter, nada mais. A rememoração nunca é inocente. Ela refere-se a algo que passou e que deixou de fazer parte do leque de possibilidades disponíveis para uma existência, mas que continua a afectar aquele que viveu esses acontecimentos, de tal maneira que tem necessidade não apenas de os rememorar como de os anotar. Essa vida selvagem e esse delírio erótico pertencem a um mundo acabado. Tudo o que é substancial na relação entre Glahn e Edwarda encontra-se nesses papéis deixados pelo Tenente.

A segunda parte, com pouco mais de 20 páginas, tem por título ‘A morte de Glahn – Um documento de 1861’. Está também ela narrada na primeira pessoa, mas agora essa primeira pessoa não é o protagonista do romance. Inicia-se do seguinte modo: A família de Glahn pode perfeitamente continuar a anunciar o desaparecimento do Tenente Thomas Glahn durante o tempo que quiser, mas ele nunca mais regressará. Está morto e, além disso, eu sei como morreu. Como o piloto de navios Tamo anunciou a morte do deus Pã, também este narrador anuncia a morte dessa sua encarnação, que era o Tenente Glahn. No entanto, contrariamente a Tamo que apenas obedece a uma ordem e não faz ideia como morreu o deus, este narrador sabe como morreu Glahn e sabe aquilo que no coração de Thomas Glahn o abriu para a morte. O que ele não sabe, pois essa não é a sabedoria de um narrador, mas do autor, é que a morte de Glahn significa o fim de um mundo e de uma tradição e a vitória da ordem burguesa, burocrática e feita de artifícios, onde impera o culto da inautenticidade. Essa morte encontra a sua simbolização plena no carácter póstumo da publicação dos papéis do Tenente Glahn. 

sábado, 14 de novembro de 2020

A Garrafa Vazia 27

Paul Ackerman, A l'aube, 1962
O silvo da cobra rasga
o horizonte,
fende a pedra
do pórtico,
abre a casa
para a planície,
para o medo
vivido num corpo
coberto de cólera.

Dezembro de 2019

sexta-feira, 13 de novembro de 2020

Beatitudes (32) O passado aproxima-se

Kurt Hielscher, Salt Warehouses, Lübeck, 1931

O passado, por vezes, fica demasiado longe. Outras, porém, aproxima-se tanto que nos enche os olhos com o lento fluir das águas, com uma memória esquecida que, de súbito, se ilumina, com uma voz que chega daquela casa onde um dia estivemos e a que nunca mais voltámos. Esses são os momentos em que a felicidade deixa escapar um grito lancinante e o que passou se recolhe na placidez de outrora.

quinta-feira, 12 de novembro de 2020

Simulacros e simulações (1)

Alfred Eisenstaedt, Shadows on ground of kissing figures with camera on tripod between, 1930
Resta não o beijo real, onde os lábios se tocam no furor da contaminação, mas o projectado por sombras que simulam o toque, que fingem o desejo, que da realidade têm a verdade de uma aparência, a densidade de um simulacro.  

quarta-feira, 11 de novembro de 2020

Nocturnos 36

Ansel Adams, Redwoods, Bull Creek Flat, Northern California, ca.1960

A noite sonâmbula caminha por dentro da floresta, cobre-se sob a ramagem de árvores antigas, tece de escuridão os seus pensamentos, suspira por um raio lunar que lhe ilumine o flanco e a desperte do seu destino, como se também ela tivesse um direito ancestral ao oiro do dia.
 

terça-feira, 10 de novembro de 2020

Onde falha o governo no combate à pandemia?

As novas medidas de combate à crise sanitária são promulgadas no momento em que o professor de epidemiologia Manuel Carmo Gomes, da Universidade de Lisboa, prevê que se chegue brevemente, caso nada seja feito, às 10 mil contaminações e 100 mortes diárias, assim como a mais de 500 pacientes nas Unidades de Cuidados Intensivos (ver aqui). Apesar do primeiro-ministro ter declarado que Portugal se preparou para segunda vaga, pois está mais apetrechado com meios humanos e tecnológicos (ver aqui), a verdade é que a situação actual e aquela que se prefigura devem-se também ao governo.

Apesar de ter tomado medidas ao nível institucional, elas não têm tido qualquer impacto sobre os comportamentos das pessoas, e era sobre esses comportamentos que era e é necessário agir com firmeza. No comportamento social, há dois traços que se desenvolveram nos últimos tempos e que são muito preocupantes. Em primeiro lugar, a indiferença perante a morte. No início da pandemia, o número de mortos, por poucos que fossem, tinha um grande impacto psicológico sobre a população. Hoje, a morte por COVID-19 está completamente integrada na psicologia colectiva e, por mais que os números cresçam, esses números deixam as pessoas (parte significativa delas, claro) indiferentes. Cresce a falsa sensação de que a morte por COVID-19 é uma coisa que só acontece a outros.

Um segundo traço liga-se aos direitos das indivíduos. Numa primeira fase da pandemia, as pessoas – falo na generalidade, mais uma vez – sentiam que o principal direito a ser preservado era a segurança, a sua segurança, o facto de serem protegidas contra a doença. Essa percepção mudou ao longo dos últimos meses. Muitas pessoas pensam, por motivos diversos, que a questão da segurança é secundária. Os direitos fundamentais são o de desfrutar da sua vida conforme entenderem. Deslocarem-se para onde quiserem, encontrarem-se com quem quiserem, comportarem-se no espaço público como bem entenderem. O risco é entendido como uma questão privada e não pública. Assim como ninguém tem nada a ver como me comporto na minha vida privada, também ninguém, muito menos o governo, tem nada a ver com o risco que corro de ser contaminado e ficar doente com COVID-19. Rapidamente, a percepção do risco colectivo foi apagada e assumida, por demasiada gente, como um risco privado que só a si diz respeito.

A grande responsabilidade do governo foi não ter antecipado estas duas transformações na psicologia da comunidade. Não percebeu que a indiferença perante a morte por COVID-19 iria crescer até ser generalizada, mesmo entre aqueles que se preocupam com os efeitos comunitários da doença. Não percebeu que, numa sociedade como a nossa, a questão do risco rapidamente transitaria da dimensão colectiva para a pessoal. São estas incompreensões que dão a António Costa, quando fala da situação, um ar, por vezes penoso, de perplexidade. O governo pode ter agido bem no domínio dos recursos, mas não teve em conta a população que governa e não antecipou o modo como os comportamentos se iriam alterar. Na verdade, achou que tudo estava na mão dos cidadãos, como António Costa não se cansa de realçar. Ora, isso só é verdade em parte. Nós temos um Estado e elegemos governos precisamente porque nem tudo está nem pode estar por completo no arbítrio dos cidadãos.

segunda-feira, 9 de novembro de 2020

A Garrafa Vazia 26

Cirilo Martínez Novillo, Alba de Tormes, 1964
O garrote aperta-me
a garganta,
deixa-me lívido
à luz da tarde,
rouba-me dos pulmões
o rumorejo do ar
e abre-me a visão
sobre um
campo coberto
de joio e ratazanas.

Novembro de 2019