quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Da produção de quimeras humanas




Hoje em dia, quimeras não são monstros mitológicos que combinam um corpo de cabra, cauda de dragão e cabeça de leão. Hoje existem mesmo quimeras. O Público explica assim o que são quimeras: "Normalmente um embrião desenvolve-se a partir de uma célula que é fruto da fusão de um óvulo com um espermatozóide, o que resulta num genoma único e num animal original. Desta vez os cientistas conseguiram juntar seis embriões de macacos rhesus diferentes, cada um apenas com quatro células. Os embriões misturaram-se, produzindo apenas um animal que tem células provenientes dos diferentes embriões, com ADN diferente. Ou seja, uma quimera."

Este jogo criativo a que se dedica a técnica derivada do conhecimento científico, que se manifestou, por exemplo, na clonagem ou, anteriormente, na fabricação de bombas atómicas, está longe de ser inócuo e obedece a um velho projecto de refazer, segundo a intencionalidade humana, toda a realidade, incluindo a realidade humana. A revolta de Prometeu contra a natureza tal como ela nos é dada é a essência deste projecto que anima a modernidade desde o seu início. E esta revolta não vai parar. Por isso, é completamente destituída de sentido a asserção do cientista responsável pelo projecto ao sublinhar que ninguém quer “produzir quimeras humanas”. O querer dos indivíduos é irrelevante. Desde que a técnica esteja disponível, não haverá controlo total sobre ela e, talvez em nome da saúde e do tratamento de alguma doença (justificação sempre útil), alguém acabará por produzir quimeras humanas.

Se pretendemos pensar eticamente o que vem aí, é inútil centrar o pensamento apenas na limitação do uso das técnicas. O pensamento ético terá de confrontar-se com o projecto prometaico em curso, compreendendo-o como a essência do mundo em que vivemos. Não uma ética para evitar quimeras, mas uma ética para um mundo de quimeras humanas.