sábado, 19 de maio de 2012

Missa Pro Defunctis (VII)


7. Sequentia: iii. Liber scriptus

Rasgar o livro no desamparo do tempo,
Apagar o rasto lúgubre da tinta,
Das palavras fazer luz e quimera,
E da consciência água, corre para o mar,
Floresta límpida, lobo e cordeiro,
O sossego no canto dos pássaros.

É de pedra o livro, esculpido a cinzel.
A tua perda, toda naquela lei,
A dor que atravessa o ventre
E inclina para o chão.
Belas as horas de balanço,
O deve e haver ponderado
No espelho da eternidade.
Um sino repica ao longe.
As sirenes avançam inquietas,
Mancham a paz do dia,
O barulho pulsa-te o coração.

Para que serve tanta leitura,
A lei no aconchego do lar?
O horto incendiado, a casa roubada,
O corpo entregue ao som da fanfarra.
Degolada, a linguagem traz,
Palavra a palavra, o veredicto:
Agora começaste, mal soletras
E tudo caminha para a fronteira.
Para que serve a voz de comando?
A trombeta zune sem fim.

A rapariga, dentes cariados,
Pele em escaras ardentes,
Chama, murmura-te o nome,
A escuridão fede a álcool e sexo.
Não tens navalha que corte,
Interruptor para apagar a luz.
Ilumina-a o sílex deste livro
Suspenso sobre ti
Na escarpa sombria, voa o falcão.

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Missa Pro Defunctis é um ciclo de poemas escrito em Setembro e Outubro de 2011. É constituído por 21 poemas e pretende ser uma meditação poética sobre a nossa situação actual, meditação que acompanha a estrutura de um Requiem na tradição religiosa católica. Será publicado integralmente neste blogue nos próximos tempos, embora sem periodicidade diária ou qualquer outra.