quinta-feira, 10 de maio de 2012

O radical Tsepiras


Em todos os lados - jornais, internet, televisão - vejo associado o nome deste homem, Alexis Tsepiras, à liderança da esquerda radical. Eu bem quero imaginar nele um fervoroso Estaline ou um irrequieto Trotsky. Falta-me, porém, a imaginação, e só vejo um tipo civilizado com cara de social-democrata. Aliás, o Partido Comunista Grego acusa a Seryza, o partido de Tsepiras, disso mesmo, de ser social-democrata, e recusa coligar-se com ele. A imprensa tornou-se, hoje em dia, um exercício de ociosa repercussão de um conjunto de frases feitas, cuja finalidade é assustar as pessoas e não esclarecê-las. Os jornalistas deixaram de pensar e não passam de câmaras de eco ou de vozes de um dono desconhecido. 

Deste perigoso radical pouco sabemos a não ser que ele é radical. Mas por que razão é radical ainda não se percebeu. Curioso é que a mesma imprensa não considere a senhora Merkel, o senhor Sarkozy radicais, eles que radicalizaram tanto as suas políticas que incendiaram literalmente a Grécia. E os políticos do centro, do PASOK e da Nova Democracia, não são radicais? Não foram radicalmente incompetentes? Não foram radicalmente cúmplices com a produção da dívida? Pouco sei do senhor Tsepiras, a não ser que é um europeísta - talvez seja um radical por isso - e que quer que a dívida grega seja avaliada, para se saber se ela é legítima ou não. Tudo propostas social-democratas. Mas no mundo de hoje, no mundo tecido pela teologia do mercado (expressão ouvida ontem na boca do perigosíssimo esquerdista e radical por convicção Adriano Moreira) e pelos sacerdotes do liberalismo, o equilíbrio, a sensatez, o escrutínio público, a transparência são perigosos indicadores de radicalidade. 

Alexander Tsepiras é tão radical que os gregos parecem dispostos a dar-lhe o primeiro lugar nas eleições se forem obrigados a ir às urnas. Talvez o senhor Tsepiras seja um radical, mas se ele é hoje em dia o político mais cotado na Grécia deve-o à ajuda da incompetência, para não dizer outras coisas, que os partidos do arco governativo ostentaram durante décadas. Fundamentalmente, deve-o à senhora Merkel e a todos os que apoiaram a sua política.