quinta-feira, 3 de maio de 2012

Perdi a mão

Søren Kierkegaard

Falar para uma plateia de gente nova, no início da juventude, do compromisso radical proposto pelo filósofo dinamarquês e não ver uma luz a brilhar nos olhos de ninguém mostrou-me que estou francamente obsoleto. O cristianismo radical, a submissão absoluta à vontade de Deus, o desafio à ordem estabelecida e à moral burguesa, uma vida vivida no limite perante o Absoluto, nada disso interessa já. E o que me espanta não é tanto o cristianismo não interessar, mas a aventura que está pressuposta em Kierkegaard, a busca de um sentido para a vida que quebre a mera convencionalidade e as rotinas instaladas. Pertenci a uma geração de gente radical, de uma radicalidade mais pobre, pois de natureza política, que a de Kierkegaard, mas mesmo assim que procurava um sentido absoluto para a vida e para si mesmo naqueles verdes anos. Muitas vezes, durante estes anos que levo de ensino, consegui tocar em alguns, despertar-lhe a febre por algo mais importante do que os pequenos prazeres da vida quotidiana, para uma certa busca de grandeza. Hoje olho e nada se ilumina, apenas um tédio invade aqueles olhos que têm de suportar a minha presença. Deixei de saber falar sobre a grandeza da vida e o excesso que é vivê-la? Perdi a mão, definitivamente.