terça-feira, 29 de maio de 2012

Uma musa metafísica

Carlo Carra - La Musa Metafísica (1917)

Se se consultar uma listagem das musas e observar as actividades por elas inspiradas ou protegidas, a metafísica, isto é, a filosofia está ausente. A razão é simples. Enquanto a inspiração divina faz parte do mundo imaginário e mitológico, a filosofia, desde muito cedo, pretendeu submeter toda a realidade ao império da razão. Para que esse esforço se tornasse possível, a razão deveria cortar as amarras que a ligavam à imaginação e apresentar-se como pura força e faculdade autónoma. Ora se esses intentos se tivessem concretizado, como pensam alguns que se concretizaram, o mais que poderíamos dizer é que a filosofia seria uma actividade desinspirada. E isto não é propriamente um cumprimento.

A verdade, contudo, é que os filósofos, regra geral, fizeram outra coisa. Por muita cientificidade que reivindiquem, a realidade é que a filosofia não passa de um romance, um longo romance que se vai escrevendo há 2600 anos. Por romance entendo aqui o trabalho ficcional onde a razão é personagem e intriga. A razão não existe fora deste processo de ficcionalização. Ao comporem as diversas intrigas a que deram o pomposo nome de teorias, os filósofos fabricaram, e continuarão a fabricar, aquilo a que chamamos razão. Fora deste processo ficcional, não há razão alguma. Enquanto artistas, os filósofos devem possuir a sua musa, uma musa metafísica por certo, mas mesmo assim um musa. Por mim, escolheria como musa metafísica Tália, a musa da comédia. Não porque a filosofia faça rir - a mim faz, por vezes - mas porque Tália quer dizer "a que faz brotar flores". Não será isso a filosofia, uma espécie de jardinagem de onde surgem, de súbito, inesperadas flores?